Jorge Furtado (Exclusivo: Houve Uma Vez Dois Verões)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Como surgiu Houve Uma Vez Dois Verões?
O filme surgiu de uma série de circunstâncias. Uma delas foi a demora na realização de O Homem que Copiava, que seria o meu primeiro filme. Depois, a Casa de Cinema comprou equipamento digital e uma câmera. Por outro lado, tinha o meu filho Pedro que fazia parte de um grupo de teatro na escola e estava procurando textos para encenar, mas não encontrava personagens adolescentes. Daí, juntando tudo isso, resolvi escrever uma história com personagens adolescentes para ser interpretada por eles e ser filmada com a câmera digital da Casa de Cinema sem grana nenhuma, nos fins de semana. Fui escrevendo o roteiro e quando terminei o Minc anunciou aquele concurso de filmes de baixo orçamento e eu inscrevi o roteiro e ele foi um dos selecionados. Daí, os dois filmes se realizaram meio que juntos. Como Dois Verões era um filme mais simples e a preparação de O Homem Que Copiava era mais complexa, acabei filmando primeiro Houve Uma Vez Dois Verões. Outra influência sobre a história foi o fato que, na época, estava estudando a obra de Shakespeare , seus personagens, e pensei em criar uma história com um herói romântico, um Romeu, um amigo cínico, um Falstaff , e uma mulher misteriosa, uma Lady Macbeth, uma Rosalinda. Eles formariam um triângulo de adolescentes e o pano de fundo seria uma praia. Então, comecei a estabelecer limites. Criar uma história é estabelecer limites. E um dos limites que eu estabeleci era uma estrutura de três atos. O filme começa e termina na mesma cena e com o herói transformado.

A trilha sonora tem papel fundamental na trama. Como foi a escolha do repertório?
Quando estava com o roteiro quase pronto, chamei o Léo Henkin, que é músico da banda Papas da Língua e juntos pensamos em fazer uma trilha que fosse uma ponte entre a geração que estava na frente das câmeras e a geração que estava atrás das câmeras. A equipe por trás da câmera tinha na faixa dos 40 anos e, do outro lado , diante das câmeras, estava um turma na faixa dos 16, 17 anos. E o legal é que rock é uma coisa cíclica; meus filhos ouvem Beatles, Rolling Stones. Então, pensamos em reapresentar as músicas que nós achávamos bacanas na nossa adolescência para essa turma de 16, 17 anos de hoje. Fizemos uma grande pesquisa na Internet, baixando música, ouvindo umas bandas estranhas, aquelas bandas de um sucesso só e pensando quem era um intérprete equivalente para essas músicas hoje. Por exemplo, quem cantaria Tell It Like It Is, uma balada romântica? Aí veio o nome de Nei Lisboa. Without You? Tinha de ser um cara romântico, "sangrento", Wander Wildner. Ultramen para cantar My Pledge of Love e assim por diante. O trilha trouxe para o filme uma coisa legal que foi uma certa indefinição de época. O filme, claro, se passa hoje, tem celular e tal, mas ao mesmo tempo escolhemos locações antigas, aquelas casas de madeira, coisas bem da nossa adolescência. E juntando isso com a trilha dos anos 70 ficou uma coisa de adolescência de qualquer época.

E Nasci para Chorar? Como você entrou em contato com a Cássia Eller?
Essa música tem uma história estranha, porque eu a conhecia numa versão do Fagner e, depois, na Internet, achei a versão do Roberto Carlos e a original Born to Cry, de Dion & The Belmonts. E, nessa versão original, tem aquela coisa de cantar com a garganta, aquele negócio sofrido pra burro. E o nome que veio na cabeça foi logo o da Cássia, tinha de ser ela. Eu não a conhecia, daí o Caetano Veloso e a Paulinha me apresentaram. Falei com ela e, para minha surpresa, ela me disse que adorava a música.

E como foi trabalhar com a captação digital? Quais foram as vantagens e desvantagens?
As vantagens são claras. Em primeiro lugar, o custo. Não só o custo final, que dizem que é 30% menor. Na verdade, é mais barato ainda, porque a coisa mais cara no cinema é o tempo, o tempo que você tem de dispor da equipe. O Homem que Copiava levou dois meses para ser filmado; Houve Uma Vez Dois Verões foi filmado em 24 dias. E só pôde ser rápido porque é digital. As coisas que demoram numa filmagem são o foco, a marcação de cena, marcação dos atores e a luz, claro, porque o fotógrafo só vai saber se ficou bom ou não três dias depois. No digital, não. Tu focas de forma simples e vê na hora se ficou bom ou não. Além disso, para os atores, o negativo é sempre uma coisa meio constrangedora. Porque toda a vez que o cara aperta o botão e começa a filmar ele está gastando. E no digital, não, você está ensaiando e já está gravando. Não saiu bom, vamos fazer de novo. Tudo isso facilita bastante. É claro que a qualidade de imagem do negativo, por enquanto, ainda é melhor. Outro ponto que considero desvantagem é relativo à nobreza do material. Quando tu vais filmar com negativo, pensa-se muito, há toda uma preparação, cria-se uma certa tensão boa. Está todo mundo ligado que aquilo é caro e só podemos fazer uma, duas vezes. E quando vamos captar em digital há um certo relaxamento geral: se der errado, fazemos de novo.

Ninguém esperava que seu primeiro filme fosse uma comédia sem maiores pretensões como Houve Uma Vez Dois Verões. Por que optou pelo gênero?
Como espectador, gosto de ser surpreendido. Não há nada pior do que aqueles filmes que você vai assistir e já sabe tudo o que vai acontecer. Nesse sentido, eu fazer uma comédia é uma coisa surpreendente. O pequeno público que me conhece, que assistiu a meus curtas, como Ilha das Flores e Barbosa, por exemplo, pode se surpreender ao assistir Dois Verões. E acho bom ser surpreendente. Se eu fizesse um filme político, que tratasse de uma questão social, seria uma coisa meio previsível. Eu queria fazer uma coisa que as pessoas não esperavam. E eu optei pela comédia porque, na minha opinião, ela é injustamente subestimada. Eu, como espectador, sempre gostei de comédia. O humor é uma armadilha que te atrai, é muito sedutor. E, mesmo na comédia, você pode fazer o retrato de uma época, de uma geração, dos dramas humanos. Na comédia, você pode falar sério, muito sério. E fazer comédia é difícil porque não há nuances como no drama. Ou você é engraçado ou não.

No último Cine Ceará, você afirmou que a turma que faz cinema no Brasil, às vezes, parece um clube de aeromodelismo, todo mundo elogiando todo mundo. Além disso, a Suzana Amaral fez uma crítica à influência da estética televisiva no cinema, num ataque direto a você. Como você vê tudo isso?
Eu acho que o cinema brasileiro está num momento muito bom e o que há de melhor é a diversidade. Porque o que nosso País tem de melhor é sua diversidade cultural, que deve ter representatividade. Deve ter música de todo o tipo, livros e cinema de todos os gêneros e representando todas as tendências. Nesse sentido, acho que o cinema está num momento bom. Muitos filmes surgindo de vários Estados, de gêneros diversos. Acho que essas argumentações teóricas, essas tentativas de causar polêmica, elas são muito superficiais na verdade, são mais ofensas prêt-à-porter do cara que quer auto-afirmação. O cara faz um tipo de filme e detona os outros de uma forma pouco séria. Falar em estética televisiva , de linguagem da TV é algo meio vazio. Cinema e TV, na verdade, têm a mesma linguagem. A linguagem pressupõe a transmissão de signos por uma meio, e os signos na TV e no cinema são os mesmos, tanto que os filmes passam na TV e nós os assistimos. A diferença é a maneira como se assiste e não a maneira como se faz. O cinema é uma tela grande numa sala escura e o espectador não tem nenhum poder de deter o fluxo da imagem. E a TV é pequena e geralmente está num ambiente claro, com gente passando etc. E a pessoas que fazem TV sabem disso e podem ou não tratar disso na sua narrativa. Na verdade, se usa uma argumentação de estética televisa em defesa de uma precariedade de narrativa muitas vezes. Tudo bem, o cara está numa sala escura, mas é importante manter a atenção do espectador, manter o espectador vendo o filme. E esses elementos todos são dispensados em função de uma suposta arte. É como se houvesse duas coisas: arte e comércio. E isso ignora que quase toda produção artística da humanidade foi feita sob encomenda e com prazo. Você pode fazer coisas de qualidade na TV como pode fazer coisas descartáveis no cinema. Não é a linguagem que define isso. No fundo, imbuído nesse discurso, há um certo desprezo com o público. Uma vez, eu vi o Matheus Nachtergaele dando uma entrevista e perguntaram o que era mais importante para ele: fazer teatro, cinema ou TV? Ele respondeu que era a TV, porque as pessoas não têm dinheiro para ir ao cinema ou ao teatro. Você não pode simplesmente desprezar 150 milhões de pessoas e transformar isso num discurso do tipo 'Ah, o público é que se lixe. Eu quero fazer um filme para meia dúzia de pessoas.' E o pior: o cara vai fazer isso com dinheiro público. Você não pode desconsiderar o público. O problema é que muita gente quer ser cineasta por direito divino e a coisa não é assim. Daí o cara faz uma coisa ruim e usa a desculpa de que fez arte, que ninguém o entende.