Jorge Furtado (Exclusivo: Saneamento Básico)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Como foi a concepção da história de Saneamento Básico, O Filme?
Estou há muito tempo estudando (William) Shakespeare: li, traduzi, escrevi um romance baseado nele. Percebi que meus três primeiros longas tinham muito de Shakespeare, o off do protagonista auto-consciente é muito de literatura, por exemplo. Meus três filmes tinham um protagonista que lutava pela mulher amada. Para mudar isso, resolvi estudar mais a comedia dell arte, que envolve o humor coletivo; li vários autores do gênero e fui mapeando os personagens recorrentes com os quais eu contaria a história. Listei oito arquétipos que seriam a base dos personagens do filme. Imaginei a locação, no interior do Rio Grande do Sul, onde há vários descendentes de italianos, e me peguei precisando de uma história. Quando eu estava na cidade de Santa Maria (RS), no festival de cinema, foi lançado o projeto Revelando os Brasis, muito bacana e composto basicamente de documentários. O projeto era para realização de vídeos em cidades com até 20 mil habitantes. O pessoal de Santa Maria, com 200 mil, pedia algo mais amplo. Na brincadeira, pensamos na situação de uma pequena cidade que talvez nunca tenha imaginado produzir cinema, mas agora poderia, sabe? Foi quando pensei em fazer um filme sobre uma pequena comunidade que tem dinheiro para fazer um filme, mas só quer construir uma fossa. O próprio nome do filme já é uma piada ao juntar cinema e saneamento básico, tão essencial em qualquer lugar. A partir dessa situação, passei a desenvolver os personagens e seus laços afetivos. Trabalhei um ano no roteiro e mandei para os atores após o primeiro tratamento, antes de começarmos os ensaios.

Você disse que os personagens foram concebidos por você já tendo os atores em mente.
Tinha e não tinha idéia, pois não sabia se eles iam querer e poder fazer o filme, mas já os imaginava. Havia trabalhado com todos pelo menos duas vezes, mesmo fora de cinema, então já via os atores em seus papéis quando os concebi. Até brinquei com o Bruno (Garcia) que ele está condenado a fazer o papel do galã burro porque ele é muito inteligente, é um dos atores mais inteligentes que já conheci, sabe? E para fazer papel de burro é preciso alguém muito esperto (risos).

Agendei todos com muita antecedência. O Lázaro (Ramos), quando foi assinar o contrato para fazer a novela Cobras e Lagartos, já estava agendado comigo e colocou isso no contrato. O pior é que as filmagens de Saneamento Básico, O Filme foram no meio da novela e o personagem do Lázaro fez muito sucesso. Durante as seis semanas de filmagens, ele ia e voltava o tempo todo pro Rio para gravar a novela.

Nesse processo de concepção dos personagens, você imaginava a química perfeita que seria formada entre a Fernanda Torres e o Wagner Moura?
Não se imaginava, mas é que os dois são ótimos atores. Queria uma mulher inteligente, voluntariosa e ativa, tipo de personagem que a Nanda faz muito bem. Pensei nele pelo olhar tímido, doce, o tipo de papel que o Wagner também faz muito bem. Acho que imaginei que eles se dariam muito bem, formando um casal muito interessante.

Todos os atores confessaram que tudo que é dito no filme estava no roteiro, que houve pouco espaço para as improvisações, apesar de não parecer isso no resultado final do longa...
Sim, mais de 90% do filme estava no roteiro, mas tivemos muitas leituras e, nesse processo, observava muito bem como cada um se comportava e fui adaptando o roteiro para eles, que são geniais, fazendo parecer que aquele texto está saindo na hora. Quando escrevi alguns episódios de Os Normais, trabalhei muito com a Nanda e o Luís Fernando Guimarães. Eles também pareciam estar improvisando o tempo todo, mas tudo que eles diziam estava no roteiro. Então, quando você escreve bons diálogos que funcionam na boca de um bom ator, ele diz a coisa como se tivesse sendo dita na hora.

Não sei se essa é a idéia de Saneamento Básico, O Filme, mas existe uma crítica ao modo de se fazer cinema no Brasil?
Um dos pontos do filme é esse sim, talvez somente o norte-americano seja feito independente dos incentivos do governo, mas o brasileiro é assim e sem dúvida é um dos assuntos do filme. Num País com carências enormes como é o Brasil, destinar verba pública ao cinema é justo? Eu acho que sim. O filme não deve responder, mas sim perguntar; as pessoas podem sair da sessão questionando. Os personagens do longa começam querendo usar o dinheiro para uma obra pública, mas são seduzidos pela magia do cinema: a importância que uma música agrega uma cena, a importância da montagem... Eles vão gostando daquilo. Nesse sentido, o filme é uma declaração aberta ao poder do cinema. No fim das contas, cada personagem tem seu objetivo e eles têm sucesso. Todos os objetivos se resolvem pela produção do vídeo e eles chegam à conclusão que produzi-lo era o mais certo a ser feito.

Queria que você falasse um pouco sobre a mudança da temática em seus filmes: os três primeiros abordavam o universo jovem, enquanto este quarto se passa num ambiente mais adulto.
É verdade... Principalmente Houve Uma Vez Dois Verões e Meu Tio Matou Um Cara tinham essa temática muito adolescente. Neste sentido, Saneamento Básico, O Filme é muito mais adulto, tem mais personagens centrais, personagens casados... Não sei bem por que, foi meio natural. Meu processo de criação começa com a escrita, não sei bem se vai sair um conto ou um filme no começo. Gosto da temática adolescente e provavelmente voltarei a explorá-la. Aliás, depois de Saneamento Básico, O Filme, fiz um curta chamado Rummikub, uma versão de Romeu e Julieta, uma história de amor jovem. Mas o universo adolescente me interessa porque é muito rico, rigoroso em termos de emoções - eles se apaixonam e odeiam no mesmo dia, inventam uma língua própria, têm uma música que gostam, uma jeito particular de se vestir... É um período de transformação, a passagem da infância pro mundo, repleto de metamorfoses constantes. Esse tipo de personagem é muito rico e talvez eu volte a explorá-lo.

Nesse sentido, como você vê Saneamento Básico, O Filme em sua cinematografia?
O cinema tem uma característica que me agrada muito: a durabilidade. Esta semana, recebi dois e-mails de gente que acabou de ver e adorou Ilha das Flores. Ou seja, um filme não substitui o outro, o cinema continua e os filmes que fiz estão lá, feitos; muita gente vai ver Meu Tio Matou Um Cara este ano por que vai passar na televisão, sabe? É um processo mais acumulativo do que evolutivo. Talvez seja uma evolução porque continuo aprendendo. Esta semana, O Homem Que Copiava foi exibido na Sociedade dos Surdos do Rio Grande do Sul. Eles reclamavam que os filmes brasileiros não vinham com legendas em português, então eles só viam produções estrangeiras. Desde que "caiu essa ficha", todos os filmes da Casa de Cinema de Porto Alegre também têm legendas em português para os deficientes auditivos, são cinco milhões de pessoas no País. Ou seja, semana passada, estive num debate sobre O Homem Que Copiava. Os filmes continuam; não vejo como uma evolução, mas como mais um na lista.

Você já tem projetos para os próximos filmes?
Tenho e não tenho. Estou escrevendo três roteiros ao mesmo tempo, um deles está mais encaminhado e deve ser o próximo. Mas não sei exatamente no que vai dar nos três casos. Procuro sempre fazer uma coisa pra me divertir e algo que nunca fiz. Provavelmente, o próximo será um drama. Também penso em filmar no Uruguai, que tem cenários que adoro, e gostaria de fazer um filme numa língua que conheço e em espanhol me arrisco a dirigir.

A exemplo de outros cineastas brasileiros, você já teve convites para dirigir produções estrangeiras?
Sim, mas não topei fazer filme nos EUA. Primeiramente, porque meu inglês não é bom o suficiente; consigo conversar e tudo mais, mas não dá pra escrever um roteiro em inglês. Também nunca filmei fora do Rio Grande do Sul, gosto de trabalhar lá. Cinema é trabalho de equipe e a minha é muito capacitada, sempre trabalhamos na mesma turma e me sinto seguro filmando com eles. Recusei sem mesmo saber do que se tratava. Também porque tu acaba entrando na ótica da indústria norte-americana. Esse curta que fiz agora é de produção americana, mas tive a liberdade de criar o que quisesse.

E você não dirigiria o roteiro de outra pessoa?
Não, nunca passou pela minha cabeça, nem adaptações. Gosto de escrever o argumento, sou muito mais um roteirista que dirige, penso na direção depois do roteiro. Já fiz adaptações na TV, mas é outra coisa. A TV é um canhão e, da maneira que adapto um livro, várias pessoas podem ser apresentadas a ele. Cinema é diferente, penso sempre em escrever um argumento original.

Este ano, a Casa de Cinema será homenageada no Festival de Grama, que já foi muito importante pro cenário do cinema brasileiro. Como você vê esse festival hoje?
O festival deixou de ser importante e está sendo revitalizado. Fiquei muitos anos sem ir a Gramado, ele virou algo glamuroso demais, com atores de TV indo lá para passear. Pra quem quer pensar e debater sobre cinema, ficou um negócio sem graça. Mas eles perceberam isso e fizeram uma mudança, simbolizada pela nova curadoria do festival, assumida por José Carlos Avellar. Este ano, vou a Gramado não somente pelo prêmio, mas também para prestigiar essa mudança de rumo. Acho que o festival voltará a ser importante.

Leia também entrevista com Lázaro Ramos e Fernanda Torres, sobre Saneamento Básico, O Filme.