José Alvarenga Jr. (Exclusivo - Divã)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Você diz que a ideia de fazer o filme Divã surgiu no mesmo momento em que você viu a peça. Quais foram as mudanças pontuais feitas na adaptação dos palcos para as telas?
Quando vi a peça, tive a sensação de ter um filme ali, mas não sabia exatamente onde. Os meses subsequentes foram feitos dessa procura. Eu, (Marcelo) Sabag (roteirista) e Lilia (Cabral) fomos fazendo um trabalho de descobrir o que era realmente teatro, na qualidade de texto, mas palavras e ações, e o que poderia virar cinema. A partir disso fomos adaptando. Toda a procura do filme foi surgindo dentro desse acordo e desarranjo também. Quando me perguntam se fizemos o filme ou a peça de teatro filmada, tenho certeza que fizemos um filmaço, bem diferente da peça e do livro. Se bem que, durante todo o processo da filmagem, houve uma interalimentação entre esses três veículos. Muitas vezes, víamos situações que tinham mais a cara da peça, daí pensávamos em formas de dar mais cara de filme. Pra mim, é cinema quando você busca cinema.

Você acredita que outros livros da Martha Medeiros poderiam também virar filme?
Só li dois livros da Martha, Divã e um livro de cartas (Tudo Que Eu Queria Te Dizer), mas este último tem uma estrutura complexa para virar filme. Mas a Martha está desenvolvendo um novo livro, a história de uma mulher que perde o amor da vida dela e vive nesse sofrimento, o qual ela tem interesse que vire filme, então estamos aguardando a Martha escrever esse livro para que ele caia em nossa mão e veja se pode ser adaptado, mas pelo que temos conversado pode virar filme sim.

E seria outro filme sobre o universo feminino. O que te atrai tanto nele?
Sou um diretor que gosta muito de emoção. O universo feminino, obviamente, é mais rico de emoções do que o masculino por que é múltiplo, é maior e tem mais nuances. Dentro dessa subjetividade, você tem mais alcance artístico, é possível navegar por mares mais longos, mas nem por isso mais calmos.

Você diz que o cinema brasileiro sempre foi muito sazonal. Agora é o momento das comédias?
Sempre estamos esperando uma performance extraordinária do cinema brasileiro. É claro que para uma atividade ser vista ela precisa existir bem para causar algum interesse num mercado como o nosso. Quando digo que o cinema brasileiro é sazonal, significa que existem períodos mais próximos. O cinema brasileiro tem feito muito bonito nos últimos dez anos. Não dá pra existir um Se Eu Fosse Você 2 por ano, mas temos conseguido ao longo desse tempo pelo menos um grande sucesso por ano. Pode ser que 2009 o cinema brasileiro apresente uma performance semelhante à de 2003, quando ficamos com 15% do público cinematográfico total. Falta comédia no cinema brasileiro. A comédia está somente na televisão, dominando o horário nobre, e o cinema tem pouco do gênero.

Desta safra mais recente, quais filmes você apontaria como de grande potencial, mas acabaram passando despercebidos pelo grande público?
Estômago, um filme que acho interessantíssimo e não fez o público esperado, e Cidade dos Homens - O Filme. Este é um filmaço e não teve o sucesso merecido, tem uma abordagem que consegue ser diferente de Cidade de Deus, é um dos filmes que poderiam ter acontecido melhor. O Céu de Suely, A Casa de Alice e Cidade Baixa são outros filmes que gosto muito, mas têm uma abordagem mais melancólica. Talvez chegassem ao grande público se tivéssemos confiança nos filmes brasileiros. No momento que vivemos atualmente, quando são esporádicos os filmes que fazem grande bilheteria, eles tiveram pouco espaço, mas são filmes para mim que mereciam um espaço maior.

Estes filmes que você citou possuem o tipo de melancolia da qual Divã parece fugir o tempo todo. Porque a escolha desta abordagem?
Os sentimentos mais tristes têm um tempo de absorção menor. Deixamos que esse sentimento permeie o que o público possa estar sentindo, mas sem que ele seja o vencedor da história. Nossos personagens conseguem sair da tristeza para sentimentos alegres simplesmente porque eles buscam isso. A protagonista descobre a felicidade na tranquilidade. Nos sentimos felizes se descobrimos como ficarmos tranquilos na infelicidade. Os personagens de Divã sofrem, mas buscam caminhos para acrescentar coisas novas naquele momento e desta forma crescem e sobrevivem. Minha avó, minha mãe, minha avó sempre diziam que para ser feliz a gente tem de sofrer. Divã fala de tristeza, mas fala principalmente de outras coisas que podem ser acrescentadas ao teu olhar. Vivemos em meio a essas coisas, a tristeza e a felicidade.

Como foi o processo de seleção do elenco além da Lilia (Cabral) e da Alexandra (Richter), que já estavam na peça?
A Alexandra foi mais complicado. Em todo filme, temos uma construção de parcerias comerciais. As pessoas que colocam dinheiro no filme querem ter algumas certezas ou garantias de rentabilidade. Faz parte do jogo, ignorar isso é uma grande bobagem. O que nós, artistas, podemos fazer é irmos negociando, dessas adaptações podemos ter bons ou maus resultados. No caso da Alexandra, era uma atriz desconhecida com um grande papel no filme. Tivemos um longo argumento para convencer que ela seria um bom ponto de apoio para a Lilia, que estava fazendo o filme com atores que não fizeram a peça. Tínhamos o José Mayer, que é um superator de quem o público gosta; o (Reynaldo) Gianecchini e o Cauã (Raymond) eram a mesma coisa. A luta dela foi mais difícil porque era um nome desconhecido para um grande papel. Mas os produtores foram muito sensíveis ao perceberem que ela tinha méritos por conhecer profundamente a personagem, a qual interpretou por três anos e por ser um bom ponto de apoio para a Lilia, essa amizade que existe entre as duas ajudaria muito na construção da história.

E os próximos projetos em cinema?
Tenho vários! Em outubro lanço Os Normais 2, que está em pós-produção atualmente. Este é um projeto muito querido e garanto que provocará muito mais risadas do que o primeiro! Mais sacanagem também. Também pretendo começar a rodar em novembro Cilada.Com, do Bruno Mazzeo. O filme está em fase de finalização de roteiro e estamos prontos pra partir para esta produção. Também estou desenvolvendo um projeto com o Frejat e o Leone, que seria um musical pop rock no cinema.

O tipo de filme que era bastante produzido nos anos 80, mas agora não se faz mais...
Sim, estamos escrevendo letras novas, em cima de uma história que criamos, e vamos começar a produzir assim que ficarem prontas as letras.

Leia também entrevistas exclusivas com a atriz Lilia Cabral e os atores Reynaldo Gianecchini e José Mayer.