José Alvarenga Jr. (Os Normais 2)

27/08/2009 15h57

Por Angélica Bito

O diretor José Alvarenga Jr. tem um objetivo bem claro com Os Normais 2 – A Noite Mais Maluca de Todas: quer matar o público de tanto rir. Entrevistamos o diretor ao lado de outros jornalistas e na conversa, Alvarenga mostrou que sabe vender seu peixe: está confiante em levar de 2,5 a três milhões de espectadores às salas, cifra similar à de Os Normais – O Filme (2003), que fez três milhões de público na época de seu lançamento. Nesta entrevista, ele fala não somente de suas expectativas em relação à comédia, mas também sobre um dos temas mais debatidos em se tratando do cinema nacional: cinema versus televisão.

O Luiz Fernando Guimarães e a Fernanda Torres falaram como foi rápido retomar o ritmo de Rui e Vani. E para você, como foi voltar a dirigir Os Normais depois de um hiato de seis anos?
Prazeroso. Os Normais é um projeto que vou carregar comigo a vida inteira, é um demônio bom de ter de carregar. É muito bom trabalhar com esses dois atores, que conhecem tão bem os personagens: foram 71 programas, um especial, dois filmes... O Rui e a Vani são tão íntimos de mim quanto meus filhos. Voltar a eles é muito fácil. O que há é uma exigência do tamanho dessa volta, a expectativa é muito grande. A dificuldade foi imaginar de que tamanho era essa expectativa e como poderíamos atingir a expectativa desse público, que estava há longos anos atrás da volta de Os Normais. Essa foi a maior dificuldade e o Alexandre (Machado, roteirista) encontrou o formato quando fala da crise no casamento, fazendo o público rir.

Fala-se muito que Os Normais é sobre o cotidiano do casal, desejos inconfessáveis... É tudo isso, mas há a clareza da nossa parte de fazer o público rir. Acreditamos que nosso trabalho é fazer rir e isso não é fácil, exige uma carpintaria, mas a recompensa é quando as pessoas dão as risadas como gostaríamos que dessem. O prazer pelo riso é a nossa defesa. Não é fácil fazer milhões de pessoas rirem ao longo de oito anos, é difícil pra burro. Neste filme, queríamos que Rui, Vani e convidados matassem as pessoas de tanto rir. Essa foi a nossa meta, vamos ver o que vai acontecer.

O Brasil não tem tradição de produzir continuações, mas houve o inesperado sucesso de Se Eu Fosse Você 2, que superou o primeiro. Quais são as expectativas para Os Normais 2 – A Noite Mais Maluca de Todas?
Não tenho complexo de vira-lata, penso grande. Os Normais 2 – A Noite Mais Maluca de Todas foi feito pelo menos para o público do primeiro filme [três milhões de espectadores]. Essa é uma aposta possível. Agora, se vai dar mais do que isso, é um desejo, mas não expectativa. Nosso raciocínio é básico: fizemos um filme que todo mundo gostou, levou três milhões aos cinemas, saiu em DVD, toda vez que passou na TV – três vezes no horário nobre da Rede Globo - teve audiências absurdas, sem contar os comentários que a gente ouve. Por isso, essa é minha aposta. O filme atende ao público de Os Normais, ao velho e ao novo. Meu filho tem 14 anos e adora, fala que os amigos vêem a reprise [no canal por assinatura GNT] e adoram. Começa a ter um novo público, isso que me chama atenção, conseguimos novos olhares sem envelhecer. Isso é o maior barato.

Estamos com mais putaria e sacanagem, mas isso é proposital, é o que queríamos mostrar neste momento. Temos piadas de todos os níveis, foi nosso critério desde o início, queríamos nos libertar. Com o primeiro, queríamos provar que também éramos pessoas de cinema, por causa dessa babaquice do cinema brasileiro, essa guerra entre TV e cinema que já deveria ter caído como caiu o Muro de Berlim. No Brasil, então, dirigir um filme comercial já vira um problema, você é entregue ao sistema, um capitalista e deixa de ser artista. A gente acha que o novo filme, com essa mistura de comédias, deve fazer três milhões sim. E não são 400 cópias [como foi dito na coletiva de imprensa que antecedeu esta entrevista], são 450, então é briga de cachorro grande. Se a gente não acreditar, ninguém mais acredita.

Você fala sobre essa coisa de fazer cinema e TV. Qual é a diferença na feitura das obras?
Se você pensar em termos de propostas estéticas, a televisão está na frente do cinema nos últimos dez anos, digo isso sem nenhum pudor. Não é à toa que Hector Babenco fez o seu Carandiru e foi fazer seriado na TV [Carandiru e Outras Histórias]; o Fernando Meirelles tem um pé na televisão e não tira de jeito nenhum; o [Jorge] Furtado também porque não dá pra tirar. Com a televisão você tem uma comunicação imediata com o público que você não consegue de jeito nenhum.

Se Os Normais 2 – A Noite Mais Maluca de Todas fizer três milhões de espectadores, vamos todos definir isso como um grande sucesso; um programa que dá audiência de três milhões é um fracasso absoluto; Os Normais era visto na TV por 44 milhões, toda sexta-feira. Quando o artista tem essa possibilidade de público na mão, olha quantas coisas ele pode trabalhar. É claro que é instigante. O veículo tem suas limitações, a TV fechada é muito mais profícua que a aberta. Num caso específico, a Rede Globo é um caso raro: ela oferece de uma Ana Maria Braga a Fernando Meirelles; de Luciano Huck a Jorge Furtado, a José Alvarenga, a Luiz Fernando Carvalho. Esse espectro é muito grande. A gente faz cinema na TV. O que tem de haver é essa negociação e essa mistura. Essas misturas estão sendo jogadas o tempo todo.

Cinema, televisão e publicidade são separadas, mas levam embutidas em si o contrabando uma da outra. Todas elas partiram do cinema, ele é a gênese da TV. Por isso que o HD será a grande revolução da televisão: ele precisa de amplitude, lentes fixas, profundidade. A tecnologia aproximará a TV mais ainda do cinema.

Também entrevistamos os atores Fernanda Torres e Luiz Fernando Guimarães.