José Araripe Jr.

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Esses Moços é um filme de 2004 que chega aos cinemas em 2007. Pelo visto, o problema de exibição do cinema brasileiro continua grave...
O Brasil está voltando a se apaixonar pelo seu cinema, mas o funil da exibição ainda está muito apertado. Sendo assim, essa seleção "natural" repete a "cadeia alimentar": o pequeno come o grande. Além de poucas salas nas mãos das grandes distribuidoras, faltam mecanismos e espaços para uma segmentação maior. Esses Moços teria um belo caminho a percorrer se tivéssemos cinemas de bairros e comunitários. Por não trilhar o do glamour, o filme é recebido com muita empatia pelas pessoas que lutam no mundo real do terceiro setor.

Fiquei muito impressionado com o trabalho das atrizes principais, as duas irmãs. Como você as encontrou e como foi o trabalho de preparação?
Foram 300 testes. Chaeind e Flaviana, que iniciaram suas carreiras no teatro comunitário em região próxima à retratada, foram minhas escolhas imediatas. Elas já tinham uma preparação anterior, pois vinham da companhia Novos do Teatro Livre da Bahia. Foram mais três meses de preparação em trabalho de equipe, de mesa, palco e ensaios nas próprias locações. Elas contagiaram toda a equipe, não apenas pela grande alegria e disposição, mas pelo talento e profissionalismo, pois muitas vezes redecoraram os textos em meia hora.

Como nasceu a idéia original do filme?
A música de Lupicínio estava impregnada no meu inconsciente por toda uma vida, me chamando para um lugar que eu não sabia; meu avô Alencar, em suas memórias e "desmemórias" do Alzeimher, e um casamento real que houve entre idosos no abrigo que filmamos. Junte-se a isso a inspiração destas ruas da Cidade Baixa e de suas histórias de portuários e ferroviários. Também o desafio de continuar a praticar um cinema de poesia para contar histórias contundentes, porém respeitando a inteligência e o lúdico dos personagens. Diomedes, Darlene e Dayane, assim como milhares de pessoas, vivem na rua, possuem a capacidade do encontro, da amizade e de viverem suas esperanças.

Onde fica aquele lugar onde os personagens vão de trem? Ainda é Salvador ou já são outros municípios?
Trata-se de Salvador. Até o subúrbio Itapagipe, Praia de Tubarão, onde fica a casa do filho Zeca, é Salvador, área da Baía de Todos os Santos e desde os primórdios da colonização portuguesa já foi habitada, teve um fausto industrial e uma ferrovia próspera em direção a todo o recôncavo, que ditou um modo de vida em que os subúrbios eram estruturados. Hoje o trem reflete o abandono das ferrovias no Brasil e milhares de pessoas vivem de mariscar na orla da região. Porém, ainda é muito bucólico e é possível encontrar personagens como Navarro e Diolinda, os músicos amigos de Diomedes.

Apesar do tema (meninos de rua, abandono), o filme me parece otimista, pra cima. Como você chegou neste desenvolvimento de roteiro?
Tratar deste tema sem se esbarrar na mera denúncia ou voyerismo de intelectual de esquerda foi difícil. Do primeiro argumento ao roteiro final, tive ajuda de colaboradores competentes, mas coube a mim a decisão de qual destino dar a essas pessoas, que naquelas 48 horas se encontram e tomam rumos diferentes. O que os especialistas chamam de Ethos, o que eu queria dizer para as pessoas com esse filme? Simples: que a arte e tudo que possa nascer dela podem aproximar e mudar as pessoas, ainda que essas pessoas sejam as que o cinema normalmente estereotipa como irremediáveis ou bandidos.

Quanto o filme custou e qual a sua expectativa de público?
Custou R$ 1 milhão e não tenho grandes expectativas. Sabemos que hoje o sucesso de um filme depende de volume de mídia. Não temos quase nenhuma e contamos apenas com a sensibilidade de alguns jornalistas que conseguem ver o filme sem preconceitos. Uma coisa tenho certeza: assim como meu Mr. Abrakadabra!, este será um filme degustado aos poucos e durante muitos anos; o boca-a-boca dos que estão se emocionando com o filme fará esse papel de difundi-lo na História.