José Joffily (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Como surgiu a idéia de filmar O Chamado de Deus?
Num primeiro momento a idéia era fazer um documentário sobre a história da Igreja Católica no Brasil, da proclamação da república até os dias de hoje. Na época, li muito material da imprensa diária, muitas entrevistas, artigos escritos por teólogos, bispos e descobri que a Igreja Católica era a instituição que pensava o Brasil de maneira mais conseqüente. Daí, fiquei interessado em saber qual seria o comportamento desta igreja neste século que estava chegando. Para chegar a isso, tinha de conhecer um pouco da história da igreja contemporânea. Lá pelas tantas eu achei que o projeto era muito grande, muito ambicioso e na mesma época morreu uma parceira muito importante, que era minha interlocutora, a jornalista Helena Salem. Desde então fiquei com esse material nas mãos sem saber o que fazer. Achei que o projeto ia naufragar, primeiro pela morte da Helena e depois porque a proposta inicial era muito abrangente. Durante uns dois ou três meses a iniciativa ficou no limbo. Até que lá em São João da Lapa eu encontrei um jovem vocacionado, que se apresentou a mim dizendo que era um vocacionado da igreja católica, um postulante e queria ser frei. Eu fiquei perplexo com aquilo! Eu nunca tinha encontrado e nem conversado com um vocacionado. Só essa palavra, vocacionado, pra mim já foi um espanto. Depois desta entrevista, eu voltei para o Rio e redirecionei o projeto para o que seria a Igreja Católica, quais os rumos da igreja para o próximo século pela ótica dos vocacionados, daqueles que optaram pela carreira religiosa.

O filme começa mostrando a história dos vocacionados e o porquê de terem optado pela carreira religiosa. Mas, num dado momento, o filme descamba para uma discussão entre os carismáticos e a corrente progressista. Isto foi proposital?
Não, surgiu no decorrer das gravações. Isso me fez ficar muito curioso. Fiquei curioso para ver a reação dos seminaristas carismáticos em relação aos meninos franciscanos e vice e versa. Daí, promovi esse vídeo-encontro. O engraçado é que a divisão da igreja nesses dois grandes movimentos já era do meu conhecimento. É uma questão muito conhecida dentro da igreja. Mas eles procuram não falar no assunto para que se tenha a impressão de uma igreja única, unida. Mas efetivamente existe no seio da igreja católica esta grande divisão. Acho que este silêncio mantido pela igreja não tenha só o propósito de mostrar uma igreja sem divisões. Os progressistas mantém um certo silêncio também para tirar uma espécie de proveito, pois também acreditam que os carismáticos estão promovendo um retorno à igreja católica daqueles milhares de fiéis que migraram para outras religiões.

Você acha que igreja e política podem ser dissociados?
Até acho que isso seja possível para um padre belga, para um padre dinamarquês. Mas, na América Latina, no Brasil, um país tão cheio de problemas sociais, creio ser impossível uma igreja tão importante como a igreja católica ficar alheia a estes problemas. A igreja deve opinar, esclarecer. Eu não digo fazer campanha política direta, mas participar das necessidades da sociedade. Aliás, a Igreja Católica já faz isso. Ela é uma das mais próximas da realidade social. O poder lá em cima gosta que a igreja participe aplaudindo, nunca criticando. Essa reação totalmente alienada que o Fernando Henrique adotou de que a igreja deve voltar para a sacristia, é no mínimo diminuir muito a importância da igreja. Bem ou mal esta igreja congrega bispos que são intelectuais diferenciados, diferenciados porque muitas vezes têm uma participação ativa no dia a dia da comunidade.

Por que você optou por fazer um documentário?
O documentário não é um gênero fácil. É claro que era melhor que o filme tivesse um elenco filiado a TV para conquistar, assim como a renovação carismática, mais fiéis para as salas de cinema. Em todo o caso o tema que me interessou foi esse, e também acho que, por outro lado, existe hoje um desejo muito grande de se conhecer o país. Esse papel poderia ser exercido pelas emissoras de TV. Mas, na verdade, o que existe são grandes produtoras que mostram uma imagem lúdica da realidade. A produção de TV é muito uniforme e a realidade do país passa a ser o que os estúdios do Rio e de São Paulo determinam. Por isso eu acho que um filme como O Chamado de Deus pode não resultar numa bilheteria gigantesca, mas com certeza resulta num produto longivo. Ao longo do tempo estes produtos vão se afirmando e vão servir para se conhecer melhor a nossa época. A TV na verdade produz retalhos, não há reflexão. Para a TV quanto menos você pensar o país, melhor. Por exemplo, eu posso citar uma história interessante: uns amigos meus que participaram da produção do seriado A Grande Família (exibido pela rede Globo), disseram que receberam ordens superiores, depois de gravados os primeiros pilotos, de que estavam mostrando um Brasil muito pobre. E esta mesma ordem superior dizia que o parâmetro de pobreza a ser mostrado seria a pobreza de Miami. Esse seria o limite para se mostrar na TV o que era a pobreza no Brasil. Então, isso não é a realidade.

Você é um homem religioso?
Não. Fui batizado como católico, mas não sou praticante. Por isso, nunca imaginei que iria fazer esse filme. Foi uma surpresa. Durante as próprias filmagens me perguntei por que raio fui motivado a fazer esse filme.

Documentário ou ficção?
Ah, gosto dos dois. Eu gosto de dirigir filmes, fazer filmes. Lógico que a gente faz o filme do possível. O filme do possível é aquele que na hora dá para fazer, que tem grana para fazer.

Qual seu próximo projeto?
Meu próximo projeto é uma adaptação para às telas da peça de Plínio Marcos, Dois Perdidos Numa Noite Suja.