José Mayer (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Como ocorreu seu envolvimento inicial com o filme?
Li o livro da Martha Medeiros na primeira fornada e achei sensacional, maravilhoso, antes de qualquer coisa. Antes de existir Lilia. Li correndo e logo recomendei para minha mulher, Vera, e ela adorou também. Depois veio a ideia de Lilia de fazer o projeto no teatro. Juntando tudo isso, quando o Zé (José Alvarenga Jr., o diretor do longa) e a Lilia me fizeram o convite, aceitei sem pestanejar, sem dúvida nenhuma. Nem sempre na vida os atores têm clareza em relação aos projetos que lhe são propostos e este caso pra mim foi uma barbada artística. Foi um dos trabalhos que eu me comprometi mais cegamente e não me arrependi. O período das filmagens foi delicioso e verifico agora que a resposta do público será muito boa, é um pressentimento que tenho. Não só eu, mas a equipe toda está orgulhosa do resultado, é um filme diferenciado.

Você se identifica com alguma característica do Gustavo?
Gosto muito da capacidade que o Gustavo tem de lidar com a dificuldade, com a ruptura, o fim, a perda. Ele é um homem moderno, em certo sentido. Talvez ele seja o retrato desse novo homem, embora ele seja de meia-idade. Seria um novo homem que a mulher já modificou, mais sensível, não é um troglodita, ele consente a ruptura de uma maneira graciosa e, no final da história, você vê que ainda há uma chance para que aquele casamento se restabeleça. Acho bonita a possibilidade de reinventar uma relação. Digo isso porque eu faço isso cotidianamente em minha própria vida, reinvento não somente minha vida particular, mas também meu relacionamento com minha mulher. Essa capacidade afetiva de um homem de outra geração me fascina.

Trabalhar com cinema depois de tantos trabalhos na TV é uma forma de se reinventar na carreira?
Adoraria que o cinema brasileiro fosse uma indústria mais consistente e contínua. Não compartilho com essa ideia de que o cinema brasileiro está em sua fase áurea, ela está sempre periclitante, se reiniciando. Veja com muita dor um sujeito como Hector Babenco, um diretor tão talentoso, levando oito anos para levantar um projeto. Essa falta de continuidade é complicada no cinema brasileiro. Adoraria ser um profissional de cinema porque é um trabalho delicioso para o ator. Há uma certa correspondência entre o cinema e a paixão: o cinema você faz em oito semanas, que é o tempo de uma paixão avassaladora. Oito semanas depois você vai embora, mas aquilo está impresso para sempre. A novela já é o casamento, aquela maratona, você precisa se reinventar longamente e massacrantemente. No tempo de um filme, uma novela fará 16 longas. São dois longas por semana! O cinema é, como você disse, não somente uma forma de me reinventar como ator, mas também um oásis, um momento de frescor, de trabalho artístico muito agradável. Adoro cinema, faria mais se fosse possível.

Não faz mais por quê?
Por que o grande mercado para um ator ainda é a TV. É o mercado de trabalho, sem interrupções. Mas o cinema brasileiro é meio sazonal, ele tem estações boas, ruins, mas nem por isso a gente desiste, faremos sempre o cinema porque é uma expressão importante do caráter de qualquer povo.

O sucesso de Se Eu Fosse Você 2 pode refletir um bom momento para filmes como Divã, portanto?
Gosto muito do trabalho de Tony (Ramos) e Glória (Pires), sou amigo dos dois, mas acho que há uma grande diferença entre as duas propostas. O texto de Martha possibilitou que Divã se tornasse um filme cheio de verossimilhança, vida, humanidade e o público gosta de se reconhecer em situações que são muito próximas. Por outro lado, ambos os filmes Se Eu Fosse Você são baseados em situações fantasiosas, outra função do cinema. Me agrada esse cinema que pode ser espelho e ressonância da vida de qualquer um.

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