José Mojica Marins

28/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

O cineasta e ator José Mojica Marins é um raro exemplo de criador que ficou sob a sombra de seu maior personagem. No caso, Zé do Caixão. Mas isso não é ruim, muito pelo contrário. Um dos mais prolíficos e criativos cineastas do Brasil - um dos poucos de sua geração ainda em atividade -, Mojica começou dirigindo filmes de terror. Aliá,s trata-se de sua principal área de atuação, o que não o impediu de assinar a direção de filmes de ação, faroestes e até pornôs. Filmes não, fitas, como costuma dizer. Sim, Mojica é de uma geração que se refere ao filme como fita. Depois de se tornar notório como o personagem Zé do Caixão, famoso pela unhas longas e as pragas rogadas em programas de TV, ele finalmente conclui o longa Encarnação do Demônio, cujo roteiro existe desde 1966.

Parte final (ou não) da trilogia iniciada com À Meia-Noite Levarei sua Alma (1964) e Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver (1967), o longa mostra não somente que Mojica - conhecido internacionalmente como Coffin Joe - está em sua melhor forma como criador de cinema, mas, principalmente, que, finalmente, ele recebe o apoio que merece para seguir produzindo cinema. Conversamos com ele durante o I Festival de Cinema de Paulínia, na cidade do interior do Estado de São Paulo. O evento exibiu Encarnação do Demônio em primeira mão e o cenário da entrevista não poderia ter sido melhor: no cemitério da cidade. Confira o resultado:

O que te levou a começar a fazer cinema?
Fui criado no fundo de um cinema, onde ficava desde os dois anos. Era lá onde tudo acontecia, numa época em que ainda não havia TV - isso no fim dos anos 30, começo da década de 40. Me considerei um iluminado ao poder ver aquele telão. Filho único, cresci tendo uma infância bem precoce. Não conseguia falar com garotos da minha idade, somente com pessoas mais velhas e gostava de outra coisa, da qual ainda gosto: histórias em quadrinhos. Cinema, aliás, é história em quadrinhos em movimento. Se você acompanha HQs, percebe que meus filmes são bem parecidos com elas. Ou seja, cinema e quadrinhos compuseram toda a minha infância, adolescência e juventude. Mas, quando você fica adulto, não tem jeito, tem de prosseguir. Comecei a fazer cinema muito cedo. Quando fiz dez anos, no lugar de uma bicicleta, quis uma câmera e meu pai me deu uma de 8mm. Fiz meu primeiro filme, um curta de mais ou menos cinco minutos, algo como uma ficção científica. Queria agradar o padre e fiz uma fita pensando nisso. No dia da exibição, o padre veio com os coroinhas, sacristão e tudo mais. Parecia que ele estava gostando, mas, quando acendeu a luz, ele veio ao meu encontro e eu pensei: "agora são meus cinco minutos de fama!". Ele virou pro meu pai e disse: "Seu filho é um débil mental". Foi aí que começou minha saga. Mas o apoio dos meus pais foi fundamental. Logo comecei a filmar em 16mm, juntava o pessoal e ia para a cidade de Campinas. Exibi muitos filmes em Campinas, não em salas fechadas, mas a gente levava o projetor e exibia em clubes fechados. O pessoal gostava de ver, de repente, o filme e o ator juntos porque os filmes eram mudos, a gente ia narrando ao vivo. O povo ficava doido. Com os trocadinhos que ganhávamos, a gente ia comprando mais câmeras e filmes para produzir mais. De 16mm, fomos comprando máquinas mais legais e dali foi a luta pra filmar em 35mm. Em 53, 54, já começamos a filmar direto.

A trama de Encarnação do Demônio existe desde 1966 e ela foi desenvolvida cheia de percalços. Você chegou a pensar que ela nunca seria filmada?
A morte de Ivan Novaes (produtor) em 1998 me trouxe um vazio que durou somente até o ano de 1999, quando voltei a pensar em Encarnação do Demônio. Já tinha até feito fita de sexo explícito para um produtor que havia prometido produzir este filme em troca; foi um sucesso e o cara quis fazer outra fita de explícito, perdeu o dinheiro e não fez Encarnação do Demônio. Foi quando o Paulo (Sacramento, montador e produtor do longa) e Dennison (Ramalho, roteirista) me procuraram dizendo que queriam fazer o filme. Foi uma surpresa pra mim e não tinha nada a perder. Já conhecia o Dennison há vários anos, lá de Porto Alegre, e já o conhecia por ser fanático pela coisa. Então, eu sabia que estava me juntando a dois guerreiros que iam lutar pelo filme. De repente, em 2003, saiu a primeira verba (R$ 500 mil pelo Programa de Fomento ao Cinema Paulista, oferecido pelo governo do Estado de São Paulo) e eu disse: "Paulo, a gente faz com essa verba mesmo". A partir dali, não havia mais dúvida que a fita sairia. Depois, o Lula nos deu mais R$ 1 milhão (verba liberada pela Ancine, a Agência Nacional do Cinema do Governo Federal).

Qual é a verba do filme?
Com todo o dinheiro que também entrou da Fox Films (co-produtora e distribuidora do longa) e da Gullane Filmes (co-produtora), em torno de R$ 1,8 milhão.

Algo impensável em sua carreira no passado...
Nunca pensaria nisso. Mas a fita ficou cara porque a gente pagou muito bem os atores, tudo que não fiz nas outras fitas procurei fazer nesta: figurantes, comida de primeira... Me senti realizado podendo pagar à equipe o que eles realmente mereciam. Ficou uma fita trabalhada, cada um deu tudo que tinha também pela curiosidade de trabalhar comigo. Todos eles estavam empenhados.

Em seus filmes anteriores, você fazia tudo: produção, direção, roteiro, protagonizava... Agora, tem esse apoio do Paulo e Dennison na produção e roteiro. Foi complicado lidar com isso?
Não. O Paulo me deu uma carta branca que nenhum dos produtores que trabalhei me deu. Ele me deixou fazer do jeito que eu queria, assim como a escolha dos atores e figurantes. O Paulo deixou realmente do jeito que queria; uma única agulha que eu pensava ele já estava com ela. Não houve nenhum empecilho do lado dele. Ele confiou demais em mim em tudo que era pedido. Foi mais um anjo inspirador do que qualquer outra coisa. O Dennison era mais um fanático, então tudo estava perfeito para ele. O Paulo é mais comerciante, mas em nenhum momento chegou a me impedir de fazer algo por achar que traria prejuízo. Ele estava lá para tudo que fosse preciso para a fita; nada pra ele era impossível. Até que enfim encontrei um cara que começou a me entender. Até na divulgação ele não me força.

Você acompanha a produção atual do cinema de horror, como os longas orientais, que têm se destacado muito na área nos últimos anos?
Aliás, acho que eles estão, realmente, deixando os americanos para trás. Antes de começar a fazer Encarnação do Demônio, vi algumas fitas para ter uma idéia de como estava o terror no mundo. O Paulo e o Zé Bob (José Roberto Eliezer, fotógrafo do filme) me levaram para ver duas, mas não lembro agora quais eram. Achei boas, mas não o fim, ainda há muita coisa pra se fazer. Mas os orientais estão indo muito, muito bem e vão gostar da minha fita.

Você acompanha como eles recebem seu trabalho?
Minha caixa foi lançada no Japão e saiu muito bem. Estou muito feliz que o pessoal aceitou demais, até as capas que eles fazem é bem-trabalhada, muito legal. Eles gostam, sempre gostaram, sempre que conversei com japoneses com ajuda de tradutores, percebi que estão bastante empenhados nesse setor do terror.

Por que a primeira exibição em público de Encarnação do Demônio ocorreu em Paulínia?
O convite surgiu há dois meses, a fita ia passar para o público como uma homenagem. Achei a idéia legal. Ele estava meio apavorado e pode acontecer da gente não levar nada e esse é o maior medo dele, passar a fita pela primeira vez num festival e não levar nada, mas acredito que pelo menos algum prêmio a gente deve ganhar. O Paulo nunca falou desse medo, mas eu sei que está na cabeça dele.

Como você se sentiu nesta primeira exibição do filme num teatro com mais de 1.300 lugares lotado?
Nossa, aquilo foi uma emoção muito grande, coisa que não via há muitos anos. Realmente, me entusiasmei demais, foi muito gratificante. Isso vai ficar marcado em mim e futuramente devo fazer até um curta porque em palavras não dá pra expressar com me senti vendo uma reação legal como foi aqui.

Alguns dias depois desta entrevista, Encarnação do Demônio sagrou-se o grande vencedor do I Festival de Cinema de Paulínia, ganhando sete estatuetas Menina de Ouro, incluindo de Melhor Filme.

Leia também entrevistas com o montador e produtor Paulo Sacramento e o ator Milhen Cortaz.