José Padilha (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

O que te levou a fazer um documentário sobre o seqüestro do ônibus 174?
Na época, tinha assistido a um documentário chamado Um Dia em Setembro, que contava a história do seqüestro ocorrido nas Olimpíadas de Munique, no qual a polícia acabou fazendo uma grande besteira e morreu todo mundo. Daí, vi todo aquele material de arquivo das emissoras de TV sobre o seqüestro do ônibus 174 e achei, como todo mundo, aquelas imagens muito impressionantes. Resolvi, então, fazer um documentário sobre a história. Isso foi em fevereiro de 2001.

Como se deu o processo de pesquisa? Você encontrou alguma dificuldade em levantar as informações?
Realizei dois tipos de pesquisa para fazer o filme. Primeiro, em cima do material de arquivo das TVs e, neste caso, a maior dificuldade foi obter o material; tem todo um trabalho de convencimento, de explicar o que você está fazendo. Isso realmente foi difícil, mas não impossível. Depois veio o trabalho de pesquisar a vida do Sandro. Para isso, contratei um detetive e uma advogada. Enquanto a advogada ia a fóruns descobrir o que havia de processos contra ele, o detetive levantava informações em delegacias, sobre ocorrências e tal. E foi a partir daí que consegui montar uma história, um mapa da vida de Sandro. Depois fui checando os dados na prática, conversando com pessoas que estiveram com ele nos vários momentos de sua vida para saber o que era verdade naqueles documentos que eu tinha em mãos. E este trabalho de pesquisa se deu ao mesmo tempo em que montava o filme. Então, a pesquisa durou o tempo do filme, um ano e meio mais ou menos.

Ônibus 174 faz uma crítica ao modo superficial como a imprensa trata os fatos hoje em dia. Você acha que essa linha de atuação contribui de alguma forma para banalizar a violência?
Meu filme não faz uma crítica direta à imprensa. As pessoas que assistem a Ônibus 174 acabam concluindo isso. Agora, a pessoas concluem porque essa percepção é de fato verdadeira. Isso, claro, não quer dizer que os jornalistas sejam incompetentes. O problema é que a imprensa é que nem o McDonalds: tem de te entregar um sanduíche a cada minuto. O jornalista tem de entregar a matéria pronta para o dia seguinte. E não dá para entender nada de um dia para o outro, não dá para compreender algo tão complexo quanto o que aconteceu no ônibus 174 da noite para o dia. O universo tem uma maneira estranha de ser complexo em quase todos os seus aspectos. Essa necessidade de urgência acaba impondo uma restrição que, inevitavelmente, gera superficialidade.

Depois de ter feito Ônibus 174, você apontaria um grande culpado pelo que aconteceu naquele dia?
O que eu posso dizer é quem não é culpado. O Marcelo Santos, o policial que errou o tiro, não é culpado. Acho que quem assiste ao filme nota claramente que o objetivo não é culpar ninguém. Sempre achei uma idéia errada personificar um culpado. Os erros são estruturais: a maneira como o Estado cuida das crianças, a maneira como administra a polícia. Não conseguiria apontar uma pessoa responsável por isso.

Não seria culpa da sociedade em geral?
Acho que sim. A culpa direta é das pessoas que têm a caneta na mão. A sociedade é culpada no sentido em que cobra muito pouco; o povo brasileiro é muito passivo. Imagine, por exemplo, se um presidente eleito nos EUA confisca o dinheiro das pessoas e limita os saques a US$ 50. Ele toma um tiro na testa. Então, o fato é que existe uma passividade da população brasileira frente a esses problemas e isso se traduz na forma de incompetência e descaso por parte da administração pública.

Você assistiu ao filme Cidade de Deus, do Fernando Meirelles? O que você achou das críticas que o acusaram de colocar a estética à frente da ética ao tratar da violência?
Acho essas críticas ao Fernando Meireles infundadas. O que é antiético é você pegar um documentário e representar a realidade de uma maneira que ela não ocorreu. Esse tipo de crítica não se aplica aos filmes de ficção e o filme do Meireles, apesar de ser baseado em fatos reais, é um filme de ficção. Esteticismo no cinema é ter uma imagem bonita para cobrir uma ausência de história. A questão não é imagem versus ética. Cidade de Deus tem imagens muito bonitas e tem história para contar. O filme do Meirelles é bom e ponto final. O problema é que o cara está fazendo sucesso e acaba incomodando muita gente. Tem um monte de críticos querendo crescer em cima do trabalho do cara. Aliás, a pesquisadora que criou o conceito "cosmética da fome" (Ivana Bentes, da UFRJ) vai adorar meu próximo filme, que é sobre a fome. Eu vou filmar bem bonito para irritar ela (risos).

Por que você acha que as pessoas ainda vão muito pouco ao cinema para assistir a documentários?
Isso não é um problema brasileiro, é mundial. Normalmente, o documentário é um pouco descolado da história que filma. Quando uma pessoa faz um filme de ficção, ela controla não só os equipamentos, mas o que está filmando; controla os atores, a luz, o cenário. Quando faz isso, o diretor consegue com que todas as cenas do filme sejam precisamente representativas do significado que quer dar. Já as imagens que um documentarista capta são um pouco dispersas em relação à história. Ele não controla o que está filmando e, então, o documentário torna-se de mais difícil entendimento. Acho que essa é a grande razão.

Você esperava a boa recepção que o filme teve no Festival do Rio BR?
Eu achava que o filme ia se dar bem no Rio: era uma história carioca e as pessoas estavam mais ligadas a ela. Mas não esperava que fosse ganhar o prêmio do público e da crítica, principalmente porque estava competindo com filmes de ficção. Na verdade, você nunca sabe como seu filme vai ser recebido. Tinha uma idéia de que Ônibus 174 ia funcionar porque o tinha exibido para algumas pessoas para ter uma impressão.

O que você aprendeu filmando Ônibus 174?
A coisa mais relevante que aprendi é que não existe uma correlação direta entre miséria e violência. Embora a miséria gere violência, não gera na mesma proporção em todos os lugares. A miséria do Rio de Janeiro é menor que a miséria no Peru e o Rio é mais violento que o Peru. Então, deve existir uma razão por trás disso e eu acho que, no nosso caso, um dos motivos é a maneira como o Estado trata a questão dos meninos de rua, a maneira como lida com os presos. O Estado brasileiro transforma pequenos delinqüentes em grandes criminosos. E isso eu aprendi fazendo o filme e conhecendo a história do Sandro.

Fale um pouco de seu próximo projeto.
Já estou trabalhando há um ano meio nesse projeto e trata-se de um documentário sobre a fome. Mas a minha idéia é falar de fome sobre o ponto de vista da pessoa que tem fome. As pessoas que vivem esse drama têm problemas específicos e, às vezes, tem de tomar decisões muito duras. Pô, imagine uma família com pai, mãe e dois filhos e, de repente, eles só têm uma fatia de queijo para dividir por todos. Como acontece isso? Quem vai comer? Ele para poder trabalhar mais ou vai ser o filho pequeno? Minha idéia é fugir das explicações científicas do porquê existe a fome e lidar com fatos nus e crus: "Tá aqui a fome. O que acontece?"