José Padilha (Tropa de Elite 2)

07/10/2010 14h43

Por Heitor Augusto

José Padilha não é do tipo que foge das perguntas. Assim como Tropa de Elite 2 – Agora o Inimigo é Outro, sente a necessidade de demonstrar suas argumentações a partir da lógica, com um método cartesiano. Durante as entrevistas sobre a continuação de Tropa de Elite, das quais o Cineclick participou em Paulínia, Padilha não começou a frase com “eu acho que”. No máximo, “na minha opinião”.

Na conversa abaixo, o cineasta carioca de 43 anos que dirigiu quatro documentários para a televisão, um para cinema e duas ficções fala mais de política do que de cinema e revela um desejo: “Tenho muita vontade em dirigir uma ficção científica”. Confira!

Tanto Tropa de Elite quanto Tropa 2 são filmes que provocam a discussão sobre o Brasil. Você acha que um filme pode mudar a realidade?
Acredito no cinema político. Todos os cinemas cabem, é uma arte plural, mas acredito no filme que interfere na realidade e provoca uma reação. É o tipo de cinema que faço, mas que só funciona se estiver acompanhada pela dramaturgia. Se o filme fizer que a Dilma e o Serra finalmente falarem de segurança pública, vou ficar feliz. Não fiz um filme para fazer a diferença no primeiro ou segundo turno das eleições: Tropa de Elite 2 quer falar sobre o Brasil.

Um filme sozinho não muda, mas um conjunto sim, faz a diferença. Enxergo uma produção no contexto, com capacidade para interferir além do imediato amanhã.

Você dirigiria um filme que não lidasse com a política?
Já fiz! Por exemplo, Os Pantaneiros, para a National Geographic, ou os Segredos da Tribo, sobre antropologia, ou Os Carvoeiros. Todos esses filmes têm uma dimensão real, claro que me interesso pela realidade, mas não significa que só fale disso. Por exemplo, tenho muita vontade em dirigir uma ficção científica, não como o Nosso Lar, algo mais tradicional, se passando no espaço. Acharia muito bacana fazer uma ficção científica, tem uns projetos assim que estou olhando. Não sinto vontade de fazer comédia romântica, mas não quer dizer que não vá sentir algum dia.

Você acha que o filme será acusado de fascista novamente?
O filme pode ser acusado de qualquer coisa desde que bem argumentado. O primeiro foi chamado de fascista, o que é uma tremendo equívoco. Se você olha a definição de fascismo, percebe o erro.

Em Tropa de Elite 2, quis brincar com as duas grandes teses sobre violência. A esquerda inocente defende que a miséria gera a violência social, o que tem, sim, fundo de verdade. A direita diz que a violência existe porque a polícia não é dura o suficiente, algo desmentido pelos números. Que processo é esse que acontece só no Brasil? Fiz três filmes para tentar entender a questão: Ônibus 174, Tropa de Elite e Tropa 2. A resposta depois dos filmes é: trata-se de cálculo político.

Como cineasta, quais são suas referências para realizar o segundo filme?
A primeira e mais forte referência de Tropa 2 foi Tropa de Elite! Tendo dito isso, a mais forte referência do primeiro é o Martin Scorsese. Está tudo ali: são as mesmas pessoas, mesmas parcerias, partiu de um personagem que já existia, colocou o Nascimento consciente, que vê os jogadores de fora do tabuleiro, mas continua sendo ele. Não mudamos sua lógica de pensamento.

Políticos tentaram se distanciar da produção?
Vários. Durante a pré-produção, tinha gente que falava que não era o personagem A ou o personagem B. Pois é, houve a rebelião de Bangu; a tentativa de montar a CPI das milícias, a invasão miliciana que roubou armas de uma delegacia, várias pessoas foram presas e temos muitos deputados foram eleitos pela milícia [elementos trabalhados pelo filme]. Tudo é verdade, mas é um problema dos políticos se identificarem com as situações, não meu.

Existe uma corrente que defende que o montador do filme nunca deve ir ao set de filmagens para manter uma certa distância. No seu filme, Daniel Rezende não só esteve como foi diretor de segunda unidade...
Tem um monte de regras, né? Tem um montador famoso que escreve isso, eu discordo dessa regra em particular. O Daniel Rezende [um dos editores mais requisitados do cinema nacional] no set foi maravilhoso, pois não só me deu ótimas ideias, mas também na hora de filmar: numa cena aérea, eu estava nos helicópteros e ele lá embaixo, dirigindo a cena. Daniel já tinha provado que tinha total capacidade de dirigir num curta-metragem, o Blackout, e ganhamos um tempo desgraçado! Ele não teve o material na ilha, porque já tinha entendido o filme.

O Dani não participou só nas filmagens, mas também na discussão do roteiro e ele é uma pessoa extremamente talentosa, um dos maiores do cinema brasileiro. Ter um cara assim é bom!

Para você, isso não passa de uma regra, uma convenção?
Como é que o Orson Welles falou sobre as várias inovações que ele fez em Cidadão Kane? [Padilha pensa um pouco e diz, emulando Welles] “eu não sabia que não podia”. Então, é isso.

Já existe um planejamento de como levar Tropa 2  para fora do Brasil?
Quando um filme é finalizado depois de setembro, a gente manda para os festivais de Sundance [onde Padilha competiu com Os Segredos da Tribo], Berlim [onde Tropa de Elite ganhou o Urso de Ouro em 2008] e Cannes. Depois disso, é Toronto e Veneza, não tem jeito. Então vamos fazer isso. Se entrar, salve-se quem puder.