Karim Aïnouz: diretor fala de O Abismo Prateado, filme inspirado em canção de Chico Buarque

Filme é inspirado na música Olhos nos Olhos e trata da desilusão do amor

26/04/2013 13h00

Por Roberto Guerra

Foto: Divulgação

Karim Aïnouz: "Maluquice boa e instigante"

Em entrevista ao Cineclick, o cineasta Karim Aïnouz (de O Céu de Suely e Madame Satã) falou da sua relação emocional com a música Olhos nos Olhos, de Chico Buarque, fonte de inspiração de seu último filme, O Abismo Prateado, que chega às tela brasileiras neste fim de semana.

Como surgiu a ideia de adaptar para o cinema uma canção do Chico Buarque? 

Esse filme nasceu do contexto de um projeto maior que o Rodrigo Teixeira estava fazendo sobre a obra do Chico. Teve um livro reunindo vários autores que escreveram contos a partir das canções, teve série de TV e um filme, que ele me convidou para fazer. Na hora, pensei: ‘Que maluquice adaptar uma música para fazer um filme!’ Mas uma maluquice boa, instigante. E Olhos nos Olhos foi uma canção que sempre esteve muito próxima de mim, talvez porque seja muita boa de ouvir quando está se separando de alguém. Daí propus isso ao Rodrigo sem saber no que ia dar. Mas era um desafio que me interessava muito porque não sei tocar nenhum instrumento, não entendo nada de música. Sou muito ignorante musicalmente. E, talvez por conta disso, tenho uma relação muito forte com a música.

E como brotou um roteiro daqueles versos?
Foi uma experiência muito prazerosa no sentido de como você olha para uma canção, que é uma canção que me toca no coração, e tira um filme dali. O que permitiu que o filme existisse, além de todas essas questões, é realmente a relação emocional que tenho com esta música. Partindo daí as coisas começaram a ficar mais simples. Tem uma coisa muito clara na canção pra mim que ela é uma carta de amor, uma carta de superação, de acertos de contas. Partindo daí o que parecia um desafio muito complexo, algo que nunca tinha feito, passou a vir com muita simplicidade.

A música de Chico te balizou também durante as filmagens?
Tem um negócio no cinema que é muito maluco - e se confunde com música - que é a questão do tom. Como é que você não desafina? Como é que você mantém o tom? Isso é um pouco a bússola de uma performance musical. E como traduzir isso no cinema?. Como é que você não sai do tom? Eu me perguntava às vezes: ‘Será que eu estou desafinando?’ Pedi, então, para os músicos que trabalharam com a gente que me dessem uma versão da música sem voz. E eu ouvia toda hora que me batia alguma dúvida. Pensava: ‘Deixar eu entrar nessa sintonia que o negócio vai dar certo’. Isso foi muito útil durante as filmagens.

Foto: Divulgação

Cineasta dirige Alessandra Negrini, estrela de O Abismo Prateado

Como O Abismo Prateado é um filme muito sensorial, de poucos diálogos, era imprescindível uma atriz que traduzisse a profunda dor de Violeta por meio de expressões físicas. Como chegou à Alessandra Negrini? 
Sempre fui muito curioso em relação ao trabalho da Alessandra. Acho ela uma atriz com percurso muito bonito. Ela tem formação em Ciência Sociais, fez muito tempo de teatro - e não o teatro tradicional, mas o teatro de pesquisa. E, ao mesmo tempo, fez o que há de mais popular na cultura brasileira, que foi ser protagonista de uma novela da Globo no horário nobre. Uma profissional que navegou por diferentes terrenos. E isso me interessava. Além disso, ela tem um carisma que acho que é uma coisa da maior importância para uma estrela cinematográfica. E um mistério junto desse carisma. Outra coisa que era atraente pra mim é que a Alessandra não é uma beleza de primeiro plano, ela vai ficando bonita. E para o filme era muito importante que a gente não tivesse no primeiro plano uma estampa logo de cara. Ela é uma beleza que vai crescendo com você. Tem horas que ela pode ser muito comum e, em outras, muito especial. E isso o filme pedia.

Homens têm reações emocionais em geral diametralmente opostas às mulheres quando abandonados. Como foi traduzir a dor feminina?
Eu queria nesse filme fazer um exercício semelhante a um negócio que o Chico Buarque faz que acho impressionante. Como que um homem consegue escrever um negócio a partir de um ponto de vista tão feminino? Acho isso de uma beleza, de uma liberdade, de uma generosidade. E como que eu, traduzindo ou adaptando isso, conseguiria fazer o mesmo exercício de tradução? O filme pra mim estava o tempo interiro nessa linha de trapezista. Homens agem de uma maneira quando tomam um pé na bunda. Mulher é completamente diferente. Por isso acho que a coisa que menos poderia acontecer no filme era exatamente a protagonista transar com alguém por vingança, por exemplo. Era muito mais importante entender a aventura emocional daquela mulher. Nós não estamos falando de uma menina de 18 anos. Ela é uma mulher de 40 anos que tem um filho adolescente.