Karim Aïnouz (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

Seus dois filmes são muito baseados nos personagens. Como você vê isso?
É algo totalmente intuitivo, nunca tinha pensado no meu cinema como de personagens. Para falar sobre isso, é necessário, primeiro, falar um pouco de onde venho. Não entrei no cinema através da dramaturgia, ou do teatro, mas muito atraído pelas artes visuais e política. Em Madame Satã, tinha o desejo de mostrar um personagem importante da nossa cultura e queria que todo mundo o conhecesse. A melhor maneira de disseminar esse personagem foi fazendo um filme, foi a melhor mídia pra esse personagem ser transformado em ícone. Todo o meu desejo é passado por meio do personagem. O Céu de Suely foi virando isso: tinha um roteiro muito mais complexo, com tramas, subtramas e personagens secundários. No decorrer do processo, fui sentindo que me interessava mais estar colado na personagem principal e fazer um retrato dela. Além disso, não sou um cara de tramas, não é assim que minha cabeça funciona, talvez porque tenho uma formação baseada em arquitetura e pintura. Minha cabeça funciona mais por meio de impressões. Gosto de gente e adoro falar sobre a vida das pessoas. Também venho descobrindo na minha experiência coletiva de cinema a experiência de coabitação entre as pessoas durante a uma hora e meia de projeção. Acho que ela tem de acontecer também com os personagens na tela. É uma coisa que vou descobrindo e entendendo. Sua afirmação faz sentido, tem de onde vir, e os filmes que me interessam mais, no fim das contas, são os que proporcionam uma experiência de emoção bruta. Tenho o desejo de fazer um mergulho no ser humano no sentido cinematográfico. Sou atraído pela poética da sugestão, mais do que pela explicação.

A Hermila Guedes estava escalada para fazer o papel secundário do filme e acabou como protagonista. Por que aconteceu essa mudança?
Queria três meninas no filme, só que estava em dúvida sobre qual seria a protagonista. Tinha resolvido que a Georgina seria Suely, Hermila seria Jessica, amiga da protagonista, e haveria outra personagem, chamada Kelvia, que seria amiga da protagonista desde antes de sua partida. Levei as três atrizes escolhidas para as locações. Primeiramente, queria entender como elas se comportavam na cidade, vê-las andando na rua. Tinha isso muito claro em minha cabeça: a partir daí, desenharia melhor os personagens. Passamos dois meses nessa preparação e, depois do primeiro, passei a desconfiar de que tinha de haver uma troca. A personagem Kelvia não chegou a permanecer no filme nos cortes finais e troquei Hermila por Georgina como protagonista. Tudo isso foi baseado na interação da atriz no lugar onde estávamos, no contexto do filme... Trabalho muito com isso. Acho que sempre podemos mudar de idéia, mas tudo tem um preço e tomei essa responsabilidade de ter de refilmar muitas coisas após a troca. Mas foi muito baseado na intuição.

Como aconteceu a escolha das locações, tão importantes para o filme?
A cidade é quase como um personagem, né? Tinha duas coisas muito claras quando saí à procura de locação: a primeira foi que eu queria filmar no Estado do Ceará. Isso era muito importante para mim, principalmente por que queria voltar para casa. Também desejava filmar num lugar extremamente plano, tanto que você pudesse quase enxergar o outro lado da Terra, sabe? Não queria nenhum elemento dramático. Rodei o Ceará inteiro e a cidade de Iguatu era uma das poucas que você tinha isso logo na entrada, um plano enorme. Era um lugar onde foi cultivado muito algodão, então não apresentava aquela seca da caatinga. Queria que esse lugar de onde essa mulher saiu e volta novamente fosse um nada, não tivesse arquitetura de época, que fosse um lugar genérico.

Como surgiu a idéia de O Céu de Suely?
Sempre quis fazer um filme visualmente de outra ordem comparado a Madame Satã. Também queria uma produção contemporânea, na qual eu pudesse improvisar e filmar o que aparecesse - isso nunca é possível num filme de época. Surgiu também de uma terceira necessidade, a de contar uma história pessoal. Não tinha nenhuma relação pessoal com a história de meu primeiro longa. Havia um desejo de trabalhar com a intimidade com o cinema mesmo, uma história que fosse relevante tanto para mim quanto para os outros, é claro. Também queria falar de uma sociedade feminina e da subjetividade de uma classe social atual que raramente é abordada no cinema. Os problemas dos pobres são geralmente de ordem econômica e, neste filme, abordo a ordem psicológica. Imagine o que é você trabalhar num restaurante self service, um trabalho pesado, no dia em que acabou um namoro? Como ele será feito, sabe? Não tem folga. Por exemplo, quando O Céu de Suely passou no Festival de Veneza, teve uma crítica da Variety que elogiou muito o filme, mas não entendeu, dramaticamente, porque a protagonista queria abandonar aquela cidade: ela tinha um namorado que gostava dela, uma avó que tomava conta dela e um trabalho. O que mais ela desejava? Como se isso fosse suficiente para um ser humano. Queria falar sobre a maioria da população brasileira que também tem desejos, ambições não tão óbvias. O desejo de Hermila não é ganhar dinheiro e virar empresária, ela só quer sair de lá. Existe um mal-estar ali que a catapulta para outro lugar. Queria mostrar que as pessoas que não experimentam o conforto financeiro também têm essa subjetividade supercomplexa.

Imagino, então, que por conta dessa complexidade, as recepções do público brasileiro e estrangeiro sejam muito diferentes...
Sim, é muito diferente. Essa crítica que escreveu isso é americana, mas a recepção do público na Itália foi muito parecida com a brasileira, foi bastante emocionada. Como espectador, você pode achar coisas, imaginar que certa cena fosse melhor noutro lugar. O filme não é fechado narrativamente. Então, sempre vai ter espaço para que o espectador ache que poderia ter sido feito de outra maneira, o que eu acho bacana.

E quanto à expectativa de dirigir o segundo filme depois do sucesso de Madame Satã?
É horrível! Isso foi presente o tempo inteiro, mas eu mesmo evitava pensar nisso, senão não teria nenhuma liberdade criativa. Um dos motivos de Madame Satã ter dado certo é por que ele nunca pretendeu dar certo, sabe? Não tinha a menor idéia, fiz o filme porque precisava, nunca pensei se ele seria visto. Para mim, era mais importante que eu aprendesse com o processo, ele deveria dar prazer. Pensei muito mais em me comunicar no segundo filme, na verdade. Madame Satã levou seis anos para ficar pronto e era mais importante fazê-lo do que qualquer outra coisa. É óbvio que você pensa como o público vai seguir a trajetória dessa menina, mas eu pensava muito mais em como me comunicaria. Não está no DNA do filme algo mais certinho, com os atos cronometrados como muitos têm, sabe? Quis fazer um segundo filme quase como se ele fosse o primeiro.

Você disse que O Céu de Suely é um projeto muito pessoal. Como assim?
Não tenho muito de Hermila, mas sim de seu universo. Eu nunca teria coragem de me rifar, ou de abandonar um filho se eu tivesse um, mas tenho essa sensação de ter ido embora de casa, voltar e nunca mais ter encontrado aquele mesmo lar, entende? Saí de casa com 16 anos, troquei de lugar durante minha vida toda. Tenho essa temporalidade, a impressão de que sempre estou indo para outro lugar. Mais semelhante ainda é a dificuldade de identificar um espaço como sua casa. Mas não tive somente vontade de falar do meu umbigo no filme, mas era tão mais complexo esse constante momento de migração, especialmente no Brasil. É um personagem sem lugar e isso, de fato, era pessoal e interessava mostrar as emoções envolvidas nesse processo.