Karine Carvalho (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Como surgiu a oportunidade de trabalhar em Brasília 18%?
A Mila Chaseliov, neta do Nelson Pereira dos Santos, me indicou para fazer um teste.

Ela trabalha com atores também?
Não, ela trabalhava na produção do filme e sabia que o avô dela estava testando várias atrizes e não encontrava nenhuma que se encaixasse no perfil desejado. Dentro daquilo que o Nelson tinha dito pra ela em relação ao que estava buscando, ela pensou em mim e sugeriu ao Nelson. Primeiramente, fiz uma entrevista, depois um teste de fotografia e passei.

Você chegou a saber, afinal, o que o Nelson buscava na atriz que interpretaria Eugênia?
Sabia que não podia ser muito alta, tinha que ter olhos, cabelos e pele claros. Tinha que ter alguma semelhança com a Bruna Lombardi porque o Olavo meio que mistura as duas no inconsciente.

Você tem o tipo físico de Eugênia que o Nelson procurava. E psicologicamente, há semelhanças?
Não tem muito como fazer um personagem sem que ele tenha algo de mim, de Karine, sabe? Porque não dá muito para separar. O que eu faço é construir a personalidade daquela mulher. A Eugênia foi muito difícil para mim porque é uma personagem com uma sutileza muito grande. Tem alguns momentos nos quais parece que ela está viva, noutros ela é um devaneio, em outros ela está absolutamente viva, querendo mudar o mundo pra sua família. É uma personagem que transita por um universo que desconheço. Afinal, eu nunca morri (risos)! Para começar. Para você ver o grau de dificuldade que enfrentei. Tentei trabalhar com uma certa suspensão, fazendo um trabalho corporal de técnica Alexander, desenvolvida por um ator. Nas partes intelectuais, psicológica, o Nelson me deu muita referência que me foram muito úteis. Primeiro ele me disse que imagina a Eugênia como a Vênus de Botticelli. A gente se encontrava e ficava olhando pra escultura, e eu dizia: "Nelson, você tem certeza que sou eu mesma que você quer?". Afinal, até então eu não tinha encontrado em mim a capacidade de desenvolver essas qualidades para de fato conseguir gerar essa característica de sensualidade, sexualidade, beleza, feminilidade, morte, ambigüidade, essa coisa reticente que a Eugênia tem, sabe? Essa primeira referência me jogou num abismo porque, quando se tem uma referência tão magistral como a Véus - a deusa do amor, beleza e sexo -, você imagina que é impossível. Mas são com desafios que conseguimos compor de uma maneira mais completa. O Nelson também me indicou alguns quadros do Edward Holter, artista plástico que eu já admirava muito. Ganhei do meu marido um livrinho do Holter que eu colocava numa pastinha que eu tinha do filme. Sempre que tinha de fazer uma cena eu dava uma olhadinha nos quadros pra entender aquela ausência, aquela melancolia. Ao mesmo tempo em que ela tem essa ausência, a Eugênia tem uma presença de quem quer realmente mudar o panorama. O filme acontece numa linha na qual todo o esquema político corrupto quer tirar aquela mulher de campo. É uma Heloísa Helena, que vai lá, bate na mesa e tenta mudar. Essas mulheres são reais. Por isso, continuo insistindo na idéia que a Eugênia não pode estar morta. Um filme como este é um espelho do Brasil, da atual situação, mas foi escrito em 1993. Pode ser que nada tenha mudado, mas acredito que as coisas não estão tão estagnadas.

Este é seu primeiro trabalho no cinema. É possível traduzir em palavras o que é estrear sob a direção de Nelson Pereira dos Santos?
Não dá. Vou acabar caindo no clichê, sabe? Dizendo que tenho a maior sorte do mundo, essas palavras todas que são legítimas. O Nelson é o cara mais incrível que já conheci em toda a minha vida, mais inteligente, mais delicado. Descobri-me apaixonada pelo cinema por causa do Nelson. Hoje sou completamente fascinada, quero fazer um filme por ano, no mínimo. Mais do que isso, aprendi a fazer cinema com ele e, também, que temos nos relacionarmos com ele. O Nelson tem o contato humano extraordinário, não existe contato com ele sem que seja pelo olhar, pela delicadeza, ele sempre está perguntando se estamos felizes. Hoje em dia isso está cada vez mais escasso. Por exemplo, no final do filme, o Michel Melamed fala um texto que ele mesmo escreveu. Pra você ver o tamanho da generosidade do Nelson. Ele abriu mão do final do filme dele, entregou a um ator e disse: "Escreve aí". Uma obra dele, que o Nelson captou, ralou feito um condenado. Eu sei o quanto ele batalhou pra conseguir dinheiro pra esse filme e não deveria ser assim, o Brasil deveria pagar pro Nelson fazer vários filmes. Isso é uma vergonha! Ele entregar uma parte do filme pro Michel escrever é de uma generosidade que a gente não vê mais, essa delicadeza de pegar na mão da gente e dizer: "Está tudo bem, meu coração? Vamos começar na hora que você quiser, não precisa tirar o roupão agora". Essa delicadeza que ele tem é o que eu vou levar pra minha vida inteira. É nesse caminho que quero trabalhar. Isso gera esse resultado incrível, uma paz de espírito mesmo. Isso é impagável.

Você já pensou com quais cineastas você gostaria de trabalhar nessa sua carreira cinematográfica que começa agora?
Gostaria de trabalhar com o Walter Salles. O Beto Brant é outro cara que eu gostaria de trabalhar. Inclusive, achei lindo o último livro do Marçal Aquino ( Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios) e fiquei pensando se o Beto não vai adaptá-lo.

Na verdade, eu acho que ele vai fazer sim. Entrevistei o Beto por Crime Delicado (leia aqui a entrevista) e ele disse que, depois de adaptar Cão sem Dono, baseado em livro do Daniel Galera, ele vai fazer o último do Marçal sim. Pelo menos está nos planos dele.
Jura? Gente, vou pedir muito pra ele me dar chance pra fazer um teste para interpretar a Lavínia. Nossa, eu ia amar! A verdade é que eu tenho muita vontade de fazer cinema no Brasil. Claro, tenho muita vontade de trabalhar com o Almodóvar, mas não tenho gana de fazer cinema lá fora. Gosto daqui, onde é minha terra, minha língua, minha pátria.

Além de Cleópatra, do Júlio Bressane, tem algum projeto em cinema no seu futuro?
Ainda não, estou correndo atrás. Agora que começou, na verdade, porque eu realmente quero fazer cinema. O teatro é minha base. No cinema, experimentei essa coisa visceral que há no teatro, mas o fascinante é que há aquele momento da cena, é aquele momento que ficará eternizado. Realmente me joguei nesse filme, não tive problema nenhum nem com a nudez. Afinal, o que é uma nudez já que todo mundo é igual, né? O que é isso frente à possibilidade de fazer um personagem central de um filme do Nelson Pereira dos Santos? Pra mim é nada. Quero é trabalhar com ele, meu nome está aí (apontando para o cartaz) e estou chega de orgulho mesmo, não poderá ser melhor.