Kiko Goifman (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Da Redação

Foi a vontade de conhecer sua mãe biológica que deu origem ao documentário ou aconteceu o contrário, em busca de um tema para seu próximo filme surgiu a idéia de tratar do assunto?
Na verdade, é difícil essa colocação do que veio primeiro. Quem é filho adotivo, durante a vida, tem alguns ciclos de querer conhecer a mãe biológica. Tive essa vontade na infância, na adolescência e, de algum forma, estava um pouco com essa vontade quando resolvi fazer o filme. As coisas vieram tão juntas na minha cabeça... Não consigo determinar o que exatamente veio antes. Estava num momento de interesse em tratar do tema da adoção, mas poderia tê-lo abordado de outra forma. Poderia pegar filhos adotivos e fazer um documentário sobre o assunto. As coisas começaram a ficar claras para mim quando juntei a relação que tenho com a literatura policial com o fato de querer fazer um documentário em primeira pessoa e, claro, com ter tido o privilégio de ser filho adotivo. Na verdade, é difícil hierarquizar o que veio antes. Dificilmente faria essa busca se não tivesse fazendo o filme. As busca só se concretiza como filme, quando percebi que tinha uma tarefa a cumprir tanto pessoal quanto profissional.

Você hesitou em filmar em preto e branco em algum momento ou tinha essa idéia desde o início? A intenção era dar um aspecto de cinema noir ao filme?
Desde o início, quando o filme ainda estava no papel, me impus algumas regras. Uma era a que faria a busca em 33 dias, até porque minha intenção não era passar minha vida interira filmando. Outra regra clara foi essa questão do preto e branco. Achava, como ainda continuando acreditando, que com o preto e branco eu faria uma brincadeira com a questão do documentário, que é da impressão de realidade. Por mais que a realidade seja colorida, o preto e branco tem cara de realidade. E, ao mesmo tempo, temos esse universo do cinema noir. Quando resolvi entrevistar detetives, introduzir um elemento de suspense no documentário, me perguntei por que o documentário não poderia namorar outros gêneros do cinema? Daí, a questão do preto e branco ficou clara. Isso foi pensado desde o início do projeto.

Quantos detetives você entrevistou durante as filmagens? Como fã de tramas policiais, ficou decepcionado com o perfil do detetive particular brasileiro?
A minha idéia inicial era entrevistar uns dez detetives. O que aconteceu é que, ao entrevistar quatro, percebi que não poderia entrevistar mais nenhum. Já tinha um material tão vivo nas mãos que, se entrevistasse mais algum, ia acabar tendo que cortar demais, tirar demais do filme. Tem alguns detalhes que tirei do filme. Por exemplo, um dos detetives que aparecem também é cantor evangélico. Em certos momentos de seu depoimento ele canta... Então, acabei entrevistando parte dos detetives. Já com relação ao perfil deles, não fiquei frustrado. Acho até o contrário. O que percebi é que, dentro de uma situação de limitação tecnológica, de limitação de verba, eles sabem se virar. A participação dos detetives foi essencial no filme e eles me surpreenderam. Não tinha idéia do que iria encontrar. Me surpreendi muito com o universo deles, com a postura tão receptiva ao projeto.

Qual foi a reação inicial de sua mãe em relação ao projeto? Como foi tomar o depoimento dela para o filme?
A entrevista com a minha mãe foi a mais difícil de todas. Na verdade, antes de começar o projeto, meio que pedi uma autorização para ela. Ela disse: "Vamos lá." Minha mãe tinha a idéia que seria feito um filme, mas não imaginava a repercussão. Ela não tinha nenhuma expectativa naquele momento que isso poderia se tornar um longa-metragem e ter repercussão pública. Para o filme, imaginava desde o início o depoimento dela. Eu sempre soube que sou filho adotivo e partia da premissa, até ética, que seu fosse fazer essa busca da minha mãe biológica era importante que minha mãe adotiva estivesse viva. Ao mesmo tempo, foi muito difícil. Tive que refazer a entrevista com ela porque, num primeiro momento, ela estava muito dura e eu também. Dura no sentido de que a gente estava se estranhando, estava complicado. Ela, inclusive, não se referia a mim, falava de uma terceira pessoa, o que era complicado, não só para o filme como também poderia dar uma idéia falsa, de uma relação mais formal da que eu tenho com minha ela. Aí, a gente refez a entrevista. Foi difícil, chorei e ela também. Minha mãe adotiva não era, de forma alguma, uma personagem acessório, era uma fundamental.

Durante o filme, você age com um detetive, seguindo pistas e usando toda uma metodologia para a investigação. Daí, num determinado momento, temos a cena de sua consulta à cartomante. Você estava querendo dar um toque de humor à trama ou a cena significa um momento de desespero diante das dificuldades da investigação?
(pausa) Acho que nem uma coisa nem outra. Como a cartomante não era externa ao projeto, como não fui procurar um lugar para fazer a consulta, fui conversar com a Conceição, que foi minha babá, sabia que no mínimo ela lembraria de coisas ali. Na verdade, não era uma situação tão de desespero, não estava apelando. O que aconteceu é que não tinha absolutamente nada a fazer. Eu tinha a versão da tia Eva, outra versão já dada pela Conceição discordante da dela. Não ia fazer uma nova entrevista com a Conceição e sabia que era ela cartomante. Imaginava que a Conceição lendo as cartas contaria tudo que sabia, daria mais detalhes da versão que tinha, tudo isso numa situação cinematograficamente curiosa.

Você faz uma mescla de gêneros em 33. Temos o documentário misturado a elementos do cinema noir e um quê de road movie. Num determinado momento da fita, você diz como estava imaginando o plano final do filme, como um diretor que estivesse dirigindo uma ficção. Você não ficou com medo de colocar esse depoimento na fita, já que ele contraria a estética documental?
Tem uma situação peculiar naquele caso: eu estava completamente bêbado (risos). Acho que não falaria aquilo de cara limpa. Gravar isso não teria problema, afinal, documentaristas gravam uma porção de coisas e não colocam na montagem final. Está claro que existe uma manipulação, não no sentido perverso, tipo personagens que não existem ou eu não ter feito a busca ou não ser filho adotivo. Mas fui eu que filmei, que editei, que escolhi as pessoas que seriam entrevistadas. Então, para mim, a manipulação estava tão clara que acabei colocando o desabafo, até pra mostrar um estado de espírito sincero. Têm duas coisas contidas naquela fala: uma, que eu estava fugindo do melodrama e achei que colocar a cena seria mais honesto; outra que estava mediado pelo álcool.

33 está fazendo uma das primeiras divulgações alternativas de um filme no Brasil. A idéia do diário na internet, das exibições e debates nas faculdades foi pensada desde o início ou surgiu da própria temática do filme?
A questão da divulgação é interessante. Como não temos grana nenhuma, a distribuição é feita por nós mesmo. Pensamos que precisávamos chegar nas pessoas. Nós não nos conformávamos com a idéia de o filme entrar em cartaz e ninguém saber dele. Então, partimos para um caminho alternativo, que exigiu, claro, uma boa assessoria de imprensa, que trabalhasse o filme, que aproveite os ganchos que o filme tem, uma assessoria inteligente. Um dos caminhos pelos quais optamos foi usar a internet, mas como forma de gerar público.