Kleber Mendonça Filho, diretor de O Som ao Redor, fala de suas expectativas para a estreia

Filme estreia depois de entrar para a lista de melhores de 2012 do The New York Times

04/01/2013 13h00

Por Roberto Guerra

Foto: Divulgação

Kleber Mendonça Filho: "Gosto de filmes que parecem um sabão"

O cineasta Kleber Mendonça Filho é um sujeito contido, de fala mansa e bem articulada, que deve estar vivendo uma grande euforia, mesmo que pouco explícita, com o êxito de seu longa-metragem de estreia, O Som ao Redor, que chega às telas brasileiras nesta sexta-feira 4. E qualquer demonstração de entusiasmo não terá sido à toa. Antes mesmo de estrear oficialmente, o filme é grande sucesso. Venceu os prêmios de Melhor Filme e Melhor Roteiro no Festival do Rio, foi eleito o Melhor Filme na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e, no fim de 2012, incluído na lista de dez melhores filmes do ano do jornal americano The New York Times. Agora, o cineasta espera que o reconhecimento internacional o ajude a atingir seu principal objetivo: que o longa seja visto pelo público brasileiro.

Como foi receber a notícia de que O Som ao Redor havia sido eleito um dos 10 melhores filmes de 2012 pelo The New York Times?

Pô, você começa a pensar... É top 10 do ano! O que mais me chocou, da maneira mais positiva possível, foi que essa lista saiu três semanas antes do lançamento no Brasil. Parece até coisa orquestrada. O impacto que esta lista está tendo no filme, que já estava quente, é fantástico. Então isso foi perfeito para empurrar o longa. Todo esse reconhecimento me passa um sentimento de sorte e gratidão. Ter entrado nessa lista agora no final do ano foi um presente de Natal.

Qual foi sua motivação para levar essa história às telas?
Quem viu meus curtas nota uma trilha de feijão que leva até O Som ao Redor. Eu já vinha treinando olhares sobre determinados temas. O que me fez pensar que realmente tinha um filme em mãos foi quando comecei a falar da ideia para alguns amigos. Este é um laboratório de testes bem interessante. Queria fazer um filme numa rua de cidade grande, no caso do Recife, e sem dizer ao espectador que essa rua seria retratada como uma espécie de engenho de cana da Zona da Mata. Porque acho que Pernambuco é muito isso. Trabalhei numa empresa pernambucana, aparentemente moderna, mas a sensação minha e de outros funcionários é de que éramos canavieiros dentro de um engenho de cana, com capataz e senhor de engenho controlando. Essa era a sensação que a gente tinha. E Pernambuco é isso: uma fusão muito tensa entre o velho e o novo.

Pernambuco hoje faz o melhor e mais inventivo cinema do país. Você acha que esse cinema, mesmo autoral, dialoga com o grande público?
Esse sucesso todo do cinema pernambucano é um sucesso estranho. Não há e não tenho notícia de nenhum projeto para o futuro, de nenhum cineasta pernambucano, de um filme comercial. Todos são obras pessoais, autorais ou estranhas, mas um estranho bom. O fato é que existe hoje um abismo em todas as cinematografias do mundo entre aqueles que querem fazer cinema de mercado e aqueles que querem fazer cinema autoral. E os que fazem cinema de mercado denigrem quem faz cinema autoral. Existem maneiras diferentes de medir o sucesso de um filme. E quem faz filme de mercado em geral não considera o sucesso de quem faz cinema autoral, que é um sucesso particular. Eles acham que fazer sucesso é levar três, quatro, cinco milhões de espectadores ao cinema. Isso é pra mim uma maneira completamente estúpida de ver as coisas. Dentro das regras de mercado, boa parte dos filmes pernambucanos não dialoga com o público porque não passaram de 500 mil espectadores. Só que a repercussão que o cinema pernambucano tem tido essa galera do dinheiro não consegue comprar. Porque seleção em grandes festivais como Cannes, Roterdan, Berlim, Locarno e Veneza você não consegue com dinheiro. Você não consegue comprar críticas positivas na imprensa mundial. Então são duas tribos que não se entendem e eu espero muito que O Som ao Redor consiga fazer um bom público ao mesmo tempo que é autoral, um filme pau na mesa.

Foto: Divulgação

Dirigindo Irandhir Santos durante as filmagens de O Som ao Redor 

Existe um nicho de mercado no país para filmes como O Som ao Redor?
Esse tipo de filme no Brasil está sendo substituído pelos filmes argentinos. O cinema argentino ganhou uma fama boa no Brasil. Uma produção argentina hoje sempre faz alguma coisa entre 40 e 300 mil espectadores no país. Números que, num mundo perfeito, um filme como Era Uma Vez Eu, Verônica, Febre do Rato e O Som ao Redor deveriam fazer. E esses são números do passado, de dez, quinze anos atrás. Baile Perfumado fez 90 mil espectadores, o que é incrível para aquele filme. Amarelo Manga fez 150 mil espectadores, Cinema, Aspirinas e Urubus fez 200 mil. Só que, infelizmente, por configurações de mercado, esses números não existem mais. E isso é muito triste. Eu não sei quanto meu filme vai fazer, nem o distribuidor sabe. Mas espero que siga essa tendência de sempre me surpreender.

Você enquadraria seu filme dentro de um gênero?
Não, porque isso é uma das coisas que mais me agrada no filme. É também meu interesse como cinéfilo. Gosto de filmes que parecem um sabão, daqueles que você quer pegar e não consegue, porque eles rejeitam a fácil rotulação. Gosto, por exemplo, de uma comédia que, de repente, eu ache tremendamente desagradável, de um filme de horror que seja também romântico ou um filme realista que, de um momento para o outro, vá por outra vertente. É o que O Som ao Redor acabou sendo. Ele é realista, as pessoas sem identificam com as situações, mas ao mesmo tempo é um filme que se recusa a ser realista e vai seguindo o caminho dele. Talvez por questões comerciais eu poderia arriscar classificá-lo como um thriller, mas na verdade um thriller de pequena escala, porque ele é muito pouco espetacular. Não acontece nada, mas acontece tudo.