Laís Bodansky (Exclusivo: Bicho de Sete Cabeças)

25/05/2009 17h40

Por Roberto Guerra

Nem só de veteranos e abnegados diretores vive o cinema brasileiro. A jovem diretora Laís Bodansky entrou (e muito bem) no cenário do cinema nacional carregando só a abnegação e, claro, muito talento. Nesta entrevista, a diretora fala das dificuldades e das alegrias de sua produção. E mostra que fazer cinema no Brasil não é um bicho de sete cabeças.

Bicho de Sete Cabeças fala do difícil relacionamento entre pai e filho, mostrando o conflito de gerações num drama urbano. Ainda por cima mostra as deficiências dos manicômios no Brasil. Por que se decidiu por esse tema difícil de ser abordado?
Há três anos eu estava participando de um grupo de pesquisa sobre loucura e cidadania. Nessa época tive contato com o livro Canto dos Malditos, no qual o filme é inspirado. O livro me marcou muito, fiquei fascinada pela história e resolvi que deveria mostrar aquela realidade conhecida por tão poucos para o resto do Brasil. Sabia que ia ser difícil transpor aquele universo para a tela, mas aceitei o desafio e parti para a luta. Não foi fácil, mas por sorte trabalhei com uma equipe maravilhosa, excelente, que fez o trabalho render. Foi uma união de forças mágicas. Graças a esse trabalho de equipe conseguimos entregar tudo dentro dos prazos sem estourar o orçamento.

Bicho de Sete Cabeças é o seu primeiro longa-metragem. Você teve dificuldades para captar recursos?
E como tive! Esta história de captação de recursos é muito complicada. Minha principal dificuldade foi que o filme tratava de um tema polêmico. Na hora de mostrar o projeto, a maioria das empresas não queriam associar o seu nome a uma história pesada e densa como é a de Bicho de Sete Cabeças. Deste jeito fica complicado porque se for assim só vamos produzir histórias de amor com final feliz no Brasil. Mas é difícil de explicar isso para os executivos das empresas.

Você esperava que Bicho de Sete Cabeças tivesse essa boa aceitação por parte do público?
Sinceramente não. Fiquei surpresa, mas achei uma maravilha. É legal promover esse encontro do filme brasileiro com o público. Quando estávamos produzindo o filme, sempre pensávamos nos espectadores. Você tem de fazer um filme pensando no público, porque é para ele que você produz. Mas até aí você trabalha com deduções. O grande teste é quando o filme tem seu primeiro contato com a platéia. Foi gratificante sentir que o filme agradou tanto aos adultos quanto aos jovens. E o melhor é que agradou ao público da Mostra, que é muito exigente.

Como você avalia a atual fase do cinema brasileiro?
Acho que estamos vivendo uma fase muito boa, de amadurecimento do cinema nacional. Eu, Tu, Eles foi o filme selecionado para disputar uma vaga entre os cinco indicados ao Oscar. Mas haviam nove boas opções para nos representar. Não que eu dê valor ao Oscar, não é isso. Mas esta é uma boa referência para se ver que o cinema brasileiro está amadurecendo de fato. Há alguns anos você tinha um ou dois filmes com condições de nos representar, hoje são muitos. Mas é claro que ainda temos problemas.

E quais são estes problemas em sua opinião?
O principal problema é a exibição. Essa é a questão. É difícil competir com este mercado que está aí. Os filmes americanos entram aqui sem pagar imposto e têm distribuição e exibição garantidas em um grande número de salas. Nós temos que ficar pedindo espaço para a nossa produção ser exibida. A questão não é que o cinema nacional tenha má aceitação por parte do público. Isso não é verdade, e prova disso é o projeto Cine Mambembe, que percorreu o Brasil levando filmes brasileiros às populações sem-tela deste país. E o que eu pude comprovar é que o brasileiro adora o cinema brasileiro. Por isso, resolvi fazer o documentário Cine Mambembe - O Cinema Descobre o Brasil, que mostra justamente a reação positiva do público a nossa iniciativa.

O que você acha da parceria entre cinema e TV para a produção de filmes?
Essa questão de parceria entre TV e cinema é uma questão que tem de ser vista com cuidado. Eu considero importante a parceria entre os dois. Pode ser bastante proveitosa, mas se for feita nos moldes europeus. Lá, a parceria funciona. Agora, aqui no Brasil, o que tem de se levar em conta é que já é difícil para um realizador independente conseguir recursos para seu filme, e a coisa vai piorar se tivermos que competir com uma rede Globo, por exemplo. Um emissora como a Globo tem muito dinheiro e seria injusto ela entrar no mercado para competir por recursos com os produtores independentes como eu. Mas ainda assim acredito na viabilidade de uma parceria proveitosa entre cinema e TV.

O que você acha da captação de imagens por processo digital e da produção de filmes para a Internet?
Não tenho que concordar ou discordar, o cinema digital já está aí. Temos que acompanhar a modernidade, não tem jeito. O cinema digital vai promover a democratização dos recursos. Fazer cinema hoje custa muito caro e acaba muita gente ficando de fora. Então, você tem sempre as mesmas pessoas produzindo filmes. Com esses novos recursos, o custo vai cair bastante e muito mais pessoas terão a chance de mostrar o seu talento. Isso vai servir para dar uma ventilada no mercado. Quanto à produção de filmes para a Internet não tenho nada contra. É uma nova mídia e pronto. As pessoas vão assistir filmes pela Internet. E nem por isso o cinema vai acabar. Ir ao cinema envolve toda uma magia, as pessoas não deixar de freqüentar as salas de exibição.

Você já tem um novo projeto em vista?
É claro que já tenho um novo projeto. Vai ser um longa-metragem de ficção. Por enquanto, ainda estamos estudando o roteiro, mas em breve as pessoas vão saber do que se trata. Por enquanto é segredo.