Laís Bodanzky

22/06/2009 17h40

Por Angélica Bito

Depois de desenvolver um drama a partir de uma noite num baile para a terceira idade (Chega de Saudade), a cineasta Laís Bodanzky volta suas lentes a personagens jovens em As Melhores Coisas do Mundo, seu terceiro longa-metragem de ficção, cujas filmagens ocorrem em São Paulo.

O filme é inspirado na série de livros Mano, escrita por Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto. A trama acompanha o dia-a-dia de um grupo de adolescentes e seus dilemas - a descoberta da sexualidade e do amor, a pressão pelo sucesso, os medos, o preconceito, o ambiente escolar, o peso das amizades e a relação com a família - abordados a partir dos acontecimentos na vida de Mano (vivido pelo estreante Francisco Miguez) e seus amigos.

O Cineclick acompanhou um dia das filmagens num colégio particular na Zona Sul da capital paulistana. Depois de um dia de ensaios, marcações de luz, repetições e tudo isso que envolve a arte cinematográfica, conversamos com a diretora, que nos conta mais detalhes sobre a interessante construção do roteiro, resultado de uma série de encontros de Laís, o roteirista Luiz Bolognesi e estudantes de vários colégios em São Paulo.

Vocês fizeram uma pesquisa em escolas particulares para ouvir dos jovens o que eles pensam. O resultado chegou a te surpreender?
Adolescência vai ser adolescência para sempre, então me identifiquei em vários momentos. Tudo bem, a moda pode passar, estamos claramente numa sociedade de velocidade muito maior, mas os sentimentos de descoberta, as dúvidas, ansiedades não mudaram tanto, são intrínsecos do ser humano.

Esta é a primeira vez que você dirige um elenco formado basicamente por atores não-profissionais. Como está sendo esta experiência?
É um desafio enorme, mas agora estamos numa etapa da filmagem na qual posso dizer que está valendo a pena o risco. Eles são surpreendentes, espontâneos, aprendem tudo muito rápido. A espontaneidade deles poderia atrapalhar nas questões técnicas, mas eles fazem isso com a maior facilidade.

Como ocorreu o casting para a escolha do elenco?
Começou nas pesquisas, mas também abrimos inscrições em diversas escolas em São Paulo, particulares e duas públicas. Tivemos 2.500 inscrições, demoramos quatro meses para fazer todos os testes.

Como foi encontrar uma linguagem específica capaz de dialogar com os jovens? Principalmente porque, como não existe cinema para esse público na produção nacional, eles não têm costume de assistir a filmes brasileiros.
Mais do que a linguagem, o que os atrai primeiramente é a história e esta fala sobre assuntos que eles entendem bastante. A empatia do público vem primeiro por aí. Depois, eles vão se identificar na forma de pensar, de se vestir, se comportar, esse é o segundo impacto. Também estamos fazendo uma linguagem soltinha, narrando com carinho esta história, com algumas brincadeiras de câmera as quais eles vão curtir, música - uma trilha divertida, participativa -, mas acho que eles vão se identificar principalmente com os personagens.

O que seria uma trilha participativa?
O personagem principal, Mano, toca violão, então ele tem uma relação com a música, ela acaba tornando-se parte da cena mesmo.

Como foi o desenvolvimento do roteiro?
O roteiro é do Luiz Bolognesi, mas participei de todas as etapas. Foi um processo muito bacana com os grupos de pesquisa.

Os atores chegaram a contribuir com o roteiro?
Alguns deles vieram dos grupos de roteiro, foi uma coincidência. O próprio Francisco (Miguez), que é o personagem principal (Mano), veio do Oswald (de Andrade, colégio na Vila Madalena, em São Paulo), e ele estava naquele grupo somente para falar da história.

O título do filme foi definido depois de uma pesquisa feita na internet. Quais são os outros tipos de interação que o filme pretende ter com o público e porque foi adotada esta estratégia, no caso do título?
Esta ferramenta está no dia-a-dia do público do filme. Então, foi uma maneira que encontramos para dialogar com eles e avisar que estamos chegando. Desde o roteiro, o processo foi baseado no diálogo, então é natural que nas próximas etapas a gente também siga essa coerência.