Laurent Cantet (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Heitor Augusto

Aos 47 anos, Laurent Cantet dirigiu filmes cujos personagens constroem um conto de fadas e se dão mal quando se confrontam com a realidade. Seu novo trabalho, Entre os Muros da Escola, vencedor da Palma de Ouro de Melhor Filme em Cannes e um dos cinco indicados ao Oscar de Filme Estrangeiro, não é diferente. O protagonista, François, professor de uma escola do subúrbio parisiense, tenta domar a realidade, mas se rende.

Apesar de toda a ação acontecer em uma sala de aula, o 5º longa de Cantet não é sobre educação. Na verdade, a modesta produção de € 2,5 milhões é um microcosmo da França contemporânea. Os alunos, como o rebelde Souleymane, a respondona Esmeralda ou o esperto Wei, são os arquétipos que questionam uma visão idealizada da França.

Nesta entrevista exclusiva que deu ao Cineclick em São Paulo, Cantet explica sua preferência por não-atores ("atores são mais generosos"), imigração na França ("eles não querem voltar para os países de origem") e quais filmes nacionais que assiste ("os filmes de Walter Salles são um dos poucos a chegar na França"). Falando nele, Salles ligou para Cantet durante esta entrevista para dar um "alô". Confira a íntegra da conversa.
 

Você usou métodos de improvisação, estudantes que não são atores e um professor interpretando a si próprio. Então, por que fazer uma ficção? O que ela permite que o documentário não?
Primeiramente, não sou documentarista e não estou apto a fazer um documentário. Sou uma pessoa que gosta de contar histórias, mesmo que elas estejam inseridas num contexto muito real. Claro que em um documentário você pode construir histórias, mas na ficção posso condensar em apenas uma cena coisas que talvez levassem meses. Além disso, posso dar novo sentido quando eu as junto na mesma cena para torná-las relacionadas.

A outra justificativa para escolher ficção em vez de documentário é até contraditória. Atores são, algumas vezes, mais generosos que pessoas normais frente à câmera. Porque eles são precedidos pelo personagem e não são julgados por isso, estão apenas atuando. Então, não têm medo, pois não expõem o que são, mas uma interpretação. Por isso, são mais abertos. Penso que as pessoas podem estar mais próximas de que elas são, já que eu criei personagens cujas personalidades se assemelham com a dos garotos... É mais fácil para eles para se auto-interpretarem...

Mas, como você mesmo disse, isso é totalmente paradoxal! Pessoas que interpretam personagens aos quais são semelhantes e, ao mesmo tempo, você quer ter a possibilidade de manipular, no bom sentido, como na ficção...
Em um documentário, quando você está em frente à câmera, você tem sempre um certo pudor e quer mostrar sua melhor imagem, ou seja, está interpretando para a câmera. Quando há o personagem, você não é responsável pelo o que ele diz.

Como foram os workshops e o processo de preparação com os não-atores, os estudantes?
O personagem mais rebelde e contestador, Souleymane, é um bom exemplo da preparação. Franck Keïta, que o interpreta, é um rapaz mais doce que eu conheci durantes as filmagens. É muito discreto, envolvido, nunca quis chocar ninguém. No nosso primeiro encontro, saquei que ele gostava de atuar e se mostrou impressionante. E não é só por ele interpretar o oposto do que é, mas porque, atrás da máscara de dureza do personagem, dá pra sentir a sua real personalidade, o quão frágil ele é, sensível...

É esse cara de bom coração que François, o professor, tenta alcançar ao protegê-lo tanto?
Sim, claro. François sabe que Souleymane não é só um cara durão. Keïta construiu o personagem conosco e trabalhou muito para obter o personagem. Como um ator! Algumas vezes ele tinha problema em ser durão. Quando precisava dizer algo rude, mantinha um leve sorriso no rosto, talvez tentando mostrar que ele não é tão coração de pedra. A única coisa que tinha de dizer a ele era "não se esqueça de que você é durão".

Já outros garotos interpretam personagens com os quais se parecem. Por exemplo, Esmeralda, que realmente se parece com o que ela é na vida real, um tipo de garota que nunca quer terminar uma discussão ou perder, quer sempre ter a palavra final. Ela é muito inteligente e esperta algumas vezes.

Os estudantes foram selecionados por você ou eles mesmos mostraram interesse em participar de Entre os Muros da Escola?
Nunca fiz processo de seleção de elenco. Começamos os workshops no início do ano letivo, fui a todas as classes com alunos entre 13 a 15 anos apresentando o projeto e os convidando. No começo, tínhamos 50 voluntários. Após quatro semanas, o número caiu pela metade. Os que ficaram nos workshops são os mesmos que estão no filme. Não os escolhi, eles que estavam muito envolvidos com o filme.

Após isso, tinha de conhecê-los o suficiente para distribuir os personagens e adaptar o roteiro aos garotos. Um exemplo é Wei, o chinês esperto. No roteiro, ele era muito tímido e temeroso de falar por medo de pronunciar frases incorretas. Wei, na verdade, é muito comunicativo e argumentador. Claro que não queria mandá-lo calar a boca só porque o roteiro pedia assim.

Você havia declarado que achava a história de Entre os Muros da Escola universal. Eu discordo. Todos os arquétipos do filme são referência direta à França contemporânea e à herança do colonialismo...
No começo do projeto, achava o filme uma espécie de nova imagem do meu país. Desde Cannes, tenho viajado e conversado com pessoas de diversos países. Eles mostraram que haviam entendido o filme, reconheceram a realidade da história. Claro que o longa segue comunidades de africanos. Mas, ao mesmo tempo, falamos da relação de disciplina, poder, autoridade, sentir-se membro de um grupo... Todos esses pontos são universais e podem ser compartilhados por diversas pessoas. A imagem dessa nova geração é estigmatizada também em outros países, que têm medo de jovens que não são brancos, não estão dentro do "padrão". Acho que isso é uma coisa presente em todos os países...

Só que na condição de brasileiro, eu vejo o filme como um retrato não-idealizado da França...
Mas eu fico feliz que isso transpareça para os estrangeiros. Tem um fato interessante: logo após a sessão em Cannes, uma chinesa veio falar comigo e agradecer pelo filme mostrar outra visão do país. Quando ela chegou a Paris, veio procurando essa tal "cultura" e não encontrou! O filme deu a ela a imagem da França que ela viu com os próprios olhos, sem idealização. Acho que Entre os Muros da Escola traz o que o país é de fato: miscigenação, problemas sociais e rastros da colonização.

Em um momento do filme, você mostra a discussão dos garotos em torno de qual seleção que eles torcem: a francesa ou a do país no qual seus pais nasceram. Porém, na verdade, o papo não é sobre futebol, mas sobre identidade, né?
O interessante disso é que a maioria dos garotos nasceram na França. Quando falam de seu país de origem, não mostram que é o "seu" país, mas dos seus pais ou avôs. Não imagino que eles gostariam de voltar para lá, se sentem franceses. Porém, não querem admitir. Então, criam uma imagem própria, pois não se sentem acolhidos pela comunidade francesa e tentam achar outra.

Há a visão idealista de um país distante ao qual vão apenas nos feriados, por duas semanas ou no verão. Por exemplo: quando você pergunta para a Esmeralda, ela sempre diz que não é francesa, mas tunisiana. Mas se você perguntar se ela gostaria de voltar a morar lá, vai afirmar que não! "Meu país é este, meus amigos estão aqui, o meu Playstation está aqui, não quero ir para lá". E para feriados? "Bacana, pode ser".

Em tempos de negação da política e o sucesso na França da comédia pastelão Bienvenue Chez Les Ch'Tis, vista por 19 milhões de pessoas, você acha que há espaço para filmes políticos que não são panfletários?
Acho que essa é uma das riquezas da cinematografia francesa. Podemos ter diversidade porque produzimos muito filmes. Claro que há uma divisão: blockbusters de um lado, produções de baixíssimo orçamento do outro. No meio, há pessoas que querem fazer filmes cujo custo não é alto e mais arriscados do que uma comédia, por exemplo. Cada vez há mais dificuldades em produzir dessa maneira. Acho que meu filme está nessa faixa. Comparando com o passado, acho que há mais filmes que buscam olhar para a realidade do que há dez anos.

É mesmo?
Com certeza, porque o mundo está mais difícil de ser compreendido e muitos têm questões a fazer. É cada vez mais difícil viver nesta sociedade, o que dá mais argumentos para filmes. Quando eu dirigi Recursos Humanos [seu primeiro longa, lançado em 1999], todos diziam que trabalhadores não iriam ao cinema para ver a rotina de outros trabalhadores em uma fábrica. O resultado do filme mostra que as pessoas estavam interessadas em ver sua representação na tela. Acho que as coisas estão indo para esse caminho.

Olhando para a sua carreira, o questionamento da autoridade está presente nos seus filmes anteriores, A Agenda e Em Direção ao Sul. Neles, há uma certa crítica ao paternalismo...
Este é um dos piores tipos de relação de poder, porque passa a sensação de naturalidade, uma ternura por trás e laços afetivos entre quem manda e quem obedece. Você aceita porque não quer chocar o pai, por exemplo. O que mais me interessa são as relações de poder, pois elas são sempre violentas e, ao mesmo tempo, admitidas por todos. Se não pontuar, ninguém percebe.

Por exemplo, eu amo a Ellen de Em Direção ao Sul [seu longa anterior sobre cinquentonas atrás de aventuras sexuais no Haiti]. Ela representa os protagonistas dos meus filmes: idealistas que querem acreditar na possibilidade de viver o sonho e caem do cavalo ao perceber que a realidade é muito mais forte. Aí voltam para o início, o que sempre é doloroso. E François, protagonista de Entre os Muros da Escola é assim: pensa que pode ajudar e entender os alunos, mas acaba entrando no jogo.

Novamente comparando com seus trabalhos anteriores, seus roteiros levavam a um impasse ou à solução de uma questão. No novo filme, o cotidiano da classe parece ser o mais interessante...
Não sei se concordo pelo seguinte. O filme existe por uma razão: a primeira coisa que escrevi foi a cena em que Souleymane vai para o Conselho de Classe e sua mãe, do Mali, não fala francês [o aluno rebelde se envolve em um incidente que pode causar sua expulsão]. A primeira frase que escrevi foi assim: "Souleymane tem de traduzir o que a mãe fala. Ela diz que ele é um bom garoto". O que soa estranho no filme, pois o espectador sabe que ele é durão e cruel. Eu tinha essa cena e queria chegar a ela. O que gosto desse roteiro é que comecei com algo trivial, normal, mas de repente surgem personagens que saem do caos. Então, o espectador percebe uma história saindo da desordem e percebe que ela é o principal assunto do filme. Se ele estiver esperto, vai perceber que essas dicas estão já no começo do filme. Gosto dessa fórmula de sair do caos e chegar a uma história específica.

Aproveitando a ligação do Walter Salles, o que você conhece do cinema nacional
Ah... Na França, não temos muita oportunidade, exceto os filmes do Walter Salles, Cidade de Deus - que não me convenceu muito - e, claro, filmes antigos do Cinema Novo. Por lá, só estreiam um ou dois longas brasileiros por ano. Acho que deveríamos estar mais por dentro do que vocês estão fazendo, porque os realizadores brasileiros que vou conhecendo me parecem fazer trabalhos muito interessantes. Vou tentar ficar mais atento e, quem sabe, levar alguns DVDs comigo para Paris.