Lázaro Ramos (Exclusivo: Cidade Baixa)

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

Lázaro Ramos tem somente 25 anos, mas ostenta um currículo de dar inveja a qualquer ator veterano. Depois de estrear no cinema num filme protagonizado por uma dançarina de axé (o próprio Lázaro não gosta de falar dessa experiência, e com razão), o ator baiano revelou-se como uma das maiores promessas de sua geração no intenso Madame Satã. O primeiro papel como protagonista acabou marcando, afinal, sua estréia no cinema, pelo qual recebeu uma série de prêmios nacionais e internacionais.

Desde então, alguns dos títulos mais importantes do cinema brasileiro - como Carandiru, Meu Tio Matou um Cara e O Homem que Copiava - tiveram seu nome nos créditos. Por isso, do alto de seus 20 e poucos anos, é um dos mais respeitados da atualidade. O que só deve ser reforçado em Cidade Baixa, produção dirigida por Sérgio Machado no qual vive um triângulo amoroso com Alice Braga e Wagner Moura, seu melhor amigo na vida real. Batemos um papo com Lázaro Ramos sobre esse trabalho, confira:

Como começou seu envolvimento com Cidade Baixa?
Já conheço o Sérgio (Machado, diretor) desde antes de Madame Satã, ele foi a primeira pessoa que fez o teste desse filme comigo. Quando ele começou a escrever Cidade Baixa, já me avisou que o papel estava sendo feito para mim. Concordei na hora. Ele me contou a idéia, achei fantástica e fiquei esperando para ler o roteiro e me encantei pois, pela primeira vez no cinema, eu estava tendo a oportunidade de fazer um personagem na minha terra, baiano e falando de sentimentos que acredito muito: o desejo e a tentativa de sobreviver, que tudo na sua vida dê certo, apesar das dificuldades. O filme fala disso de uma forma que eu acho linda, olhando de perto a intimidade desse triângulo amoroso. Mergulhei total nessa história. O Sérgio chamou o Wagner (Moura, ator), meu melhor amigo, e a Alice Braga, uma atriz super disponível, que formou um triângulo tão forte que no final do filme acabamos pensando: por que esses três não podem ficar juntos? Pelo menos foi isso que pensei, espero que as pessoas percebam isso também.

O fato do Wagner ser seu melhor amigo com certeza ajudou nesse processo. Como foi, então, a inserção da Alice nesse trio?
O fato de sermos amigos ajudou na hora de fazemos as cenas de carinho. Agora, para as cenas de ódio foi mais complicado. A preparação de Fátima Toledo é baseada na sinceridade das emoções e é muito difícil buscar ou forjar um ódio que não existe. A Alice, quando entrou, já estava pronta para a filmagem, três semanas antes. A essa altura a gente já desejava essa Karinna, então a abraçamos e a tornamos parte do grupo. Era um grande perigo eu e o Wagner, que já temos uma intimidade muito grande, abandonarmos a Alice, que estava chegando agora, como uma intrusa. Mas aconteceu o contrário, ela foi uma parceira, mais um agregado, com todo carinho. Ela é muito carismática, conquistou a gente de imediato, graças a Deus, num time de peso. Aliás, Sérgio teve a habilidade de escolher a equipe de forma brilhante. Toda a equipe foi escolhida com muito cuidado. Toca Seabra, diretor de fotografia, por exemplo, era impressionante como ele estava lá ligado, fazendo junto e filmando nossa intimidade muito de perto, mas sem invadir com a câmera.

Essa intimidade que se formou foi um dos melhores segredos do sucesso do filme, né?
Com certeza, ainda mais porque a preparação do elenco foi bem específica. A gente tinha de dedicar muito tempo para o aquecimento antes de filmar e, nesse momento, toda a equipe se mobilizava. Alice fazia um exercício e quem a ajudava era o cara da maquinaria. Essa intimidade formada entre toda a equipe está impressa na tela de forma violenta, até.

Você, como um jovem que cresceu na Bahia, se identificou de alguma forma com os personagens?
Claramente, analisando a trajetória dos personagens, não, mas esses sentimentos eu conheço totalmente. O jeitinho calmo de falar do Deco é o meu, o desejo à tolerância - apesar da Bahia ser uma terra bem intolerante - que o filme fala eu conheço também, é a minha história.

Como você mesmo disse, houve muito foco na preparação dos atores. Você sentiu alguma dificuldade nisso?
Total. Eu sugeri o nome da Fátima Toledo para este filme, só que, quando ela chegou e eu percebi que o trabalho dela era fazer a gente se descobrir, já pensei: "ai, que saco, agora ela vai querer fazer uma terapia comigo a esta altura" (risos). Mas depois percebi que o método de trabalho não é, em momento algum, terapia. É uma forma de trabalhar na qual você empresta a sinceridade de suas emoções àquele personagem. Era puxado, mas era de um prazer incrível. Era prazeroso pensar nas cenas, filma-las, ensaia-las...

Outro personagem que me lembro da sua filmografia tão forte quanto o Naldinho é em Madame Satã. A preparação para esse outro filme foi tão intensa quanto?
No Madame Satã tive uma preparação sim, mas não com esta clareza do método de Fátima. No filme do Karim (Ainouz, diretor) eu trabalhei basicamente adquirindo conhecimentos técnicos: aula de capoeira, de dança, de canto... Também foi intenso, mas era mais caótico. O que era muito bom porque o personagem é caótico, o filme também.

Para você, quais são as intenções de Cidade Baixa?
Provar, mais uma vez, o que Sérgio Machado fala: quanto mais perto se olha para um ser humano, mais parecido com você ele é. Várias pessoas compartilham dessa opinião, e eu acho que este filme é muito bem-sucedido nisso. Se você passar esta história para outro lugar, com outra classe social, os sentimentos serão compreendidos da mesma forma. Tanto é que ganhamos o prêmio mais inesperado no Festival de Cannes, dado pela juventude porque não é um filme exatamente feito para jovens. Eu compreendia e acredito que há uma empatia meio que óbvia entre uma platéia adulta.

É que se trata de um filme com personagens jovens...
Sim, mas são sentimentos fortes, né? E às vezes nem passa pela cabeça das pessoas discutir esses sentimentos.

Quais foram suas impressões em relação à exibição de Cidade Baixa em Cannes?
Foi impressionante. Já tinha ido com Madame Satã e é aquele monte de luzes, de fotógrafos... Eu não entendia o que era Cannes, mas desta vez consegui curtir mais. Ao mesmo tempo, foi uma prova de que esta história é universal pois o filme foi muito bem recebido, teve boas críticas e vendeu bem. É também muito legal o cinema brasileiro estar mostrando outra cara para o mundo diferente da violência urbana e questões sociais. Não que este filme não tenha, mas, junto com esses temas, vem um muito forte: o amor. Tanto que as cenas de briga são filmadas como se fosse sexo, como se estivessem fazendo amor. Mostrar o cinema brasileiro, lá fora, foi um grande presente para mim.

Sua carreira é atípica, uma vez que seu trabalho foi revelado para o Brasil pelo cinema, não pela TV. Trata-se de uma nova geração de atores?
Isso ainda é pouco para a quantidade de atores talentosos que temos sem emprego. Sinto-me integrante de uma nova geração sim, agradeço o tempo todo pelo cinema ter me abraçado com as oportunidades que ele deu, me sustenta. Uma promessa é o João Miguel, de Cinema, Aspirinas e Urubus. É um grande ator.

Sim, eu vi esse filme, ele é incrível. O João Miguel é da Bahia?
Claro! (risos)

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