Lázaro Ramos (Exclusivo: Saneamento Básico)

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

Uma das primeiras coisas que Lázaro Ramos disse quando entramos na sala onde a entrevista seria feita era que ele lembrava da conversa que tivemos em 2005, quando Cidade Baixa foi exibido na Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. "É que sou ótimo para lembrar rostos, apesar de sempre esquecer os nomes", justificou. Desta vez, o assunto era outro: Saneamento Básico, O Filme, o terceiro filme que marca sua parceria com o cineasta Jorge Furtado.

Nascido em Salvador em 1978, Lázaro ocupa espaço respeitável entre os atores brasileiros de sua geração. Sua estréia como protagonista de um longa-metragem foi em Madame Satã (2002), filme que o projetou como uma das grandes promessas do cenário. A promessa virou realidade e Lázaro já tem em seu currículo atuações memoráveis. Seu papel em Saneamento Básico, O Filme é menor se comparado com os longas anteriores de Furtado, mas é decisivo na quarta comédia do cineasta. Confira o resultado da conversa que tivemos com o ator:

Como foi a composição do seu personagem, o único que tem um pouco de noção do que é cinema e das técnicas que o grupo usaria para fazer o vídeo?
Com relação a trejeitos, alguma coisa ou outra do próprio Jorge (Furtado) procurei colocar, como comemorar quando a cena sai boa... Mas os filmes dele são sempre assim, me coloco muito a serviço dos seus roteiros; eles vêm sempre tão bem-escritos e estruturados que, se você cumprir o que ele pedir, já tem um bom filme. Naturalmente, uma hora ou outra a gente faz uma brincadeira, como com o jeito que ele comemora, mas a base mesmo é o próprio texto. Uma coisa que a encontramos no lugar onde filmávamos é a inocência, um olhar não-viciado das pessoas que vivem lá. Quem não conhece cinema faz perguntas que, para a gente podem parecer tolas, mas é de quem realmente não conhece. Por exemplo, teve gente que perguntava se o Jorge só escrevia o roteiro ou fazia as roupas também (risos). O elenco todo tentou aprender esse olhar da descoberta e da fascinação pelo cinema.

Você disse que tudo que está no filme tem no roteiro, mas a idéia que se tem é que existe muita improvisação entre o elenco graças à química que se formou, especialmente entre a Fernanda (Torres) e o Wagner (Moura)...
Nossa, são impressionantes os planos-seqüência com diálogos deles... Quando li o roteiro, não entendi, não achei a menor graça. Depois, percebi que o Jorge criou personagens que, na mão de determinados atores, teria o resultado que queria e é isso que acontece no filme. O texto dele é ótimo de ser lido, mas cada ator está realizando o seu personagem de uma forma muito tranqüila, pelo menos foi assim que me senti fazendo o Zico. É um tipo de humor que entendo e isso é perceptível.

Este é seu terceiro filme com o Jorge. Como você vê Saneamento Básico, O Filme no trajeto da carreira dele e também na sua carreira junto ao diretor?
O Jorge tem um poder sensacional de se reinventar. Em cada trabalho, ele tenta pesquisar um universo novo. Ele é um leitor voraz e isso fica muito claro na obra dele de uma forma bastante generosa. O Jorge tem todo esse conhecimento por ler muito; ao mesmo tempo, tem a generosidade de compartilhar isso, tanto na vida quanto nos trabalhos. Se você for uma pessoa com muito conhecimento sobre cinema, vai perceber no filme vários comentários sobre o universo cinematográfico; quem não tem nenhum conhecimento, vai se divertir da mesma forma. Por isso, a dramaturgia do Jorge é generosa, pois ela informa e entretém, independente do conhecimento do espectador sobre o universo que está sendo falado.

Não tenho a mesma cabeça do Jorge, mas entendo a dele. Como fã do seu trabalho, mesmo antes de O Homem Que Copiava, já entendia aquele universo. Quando li o roteiro de O Homem Que Copiava, pensei que aquele filme havia sido escrito para mim, tive essa sensação de proximidade. Sinto o desejo de dialogar com as platéias da forma como o Jorge dialoga, pois ele é capaz de fazer produtos muito sofisticados de uma maneira popular, exatamente como uma frase que ele diz às vezes: "Faço biscoito fino para as massas". Os grandes gênios foram populares, como o Charles Chaplin e William Shakespeare; o Jorge tem esse mesmo anseio, o qual compartilho, quero ter essa capacidade.

Como ator, foram sempre exercícios distintos. Meu personagem em O Homem Que Copiava era melancólico; o trabalho em Meu Tio Matou Um Cara foi feito em torno do humor escrachado, quase um humor pastelão, do bobo; o humor de Saneamento Básico, o Filme é da inocência, do olhar não-viciado.

Você disse que muitas referências do filme são para quem também convive com o universo cinematográfico. A cena na qual seu personagem faz um discurso antes da primeira exibição do vídeo parece mais saída de algum festival brasileiro...
Sim, mas o discurso também significa o que eu penso sobre cinema: não é somente nas grandes cidades que deveria se produzir arte, ela deve ser produzida em todos os lugares, por todos os tipos de pessoas, e é mais ou menos isso que o filme quer dizer.

Leia também entrevista com Jorge Furtado e Fernanda Torres, sobre Saneamento Básico, O Filme.