Leila Hipólito (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Roberto Guerra

A cineasta Leila Hipólito recebeu o Cineclick para um bate-papo sobre seu primeiro longa de ficção, As Alegres Comadres, comédia estrelada por grande elenco, que chega às telas nesta sexta-feira. Adaptação do texto As Alegres Comadres de Windsor, de William Shakespeare, o filme consumiu R$ 3 milhões e um ano de pesquisas de Leila, que viajou duas vezes para Stratford-upon-Avon, terra onde nasceu o dramaturgo inglês, para pesquisar as adaptações já realizadas.

Como a Leila Hipólito economista virou cineasta?
Quando escolhi que faculdade fazer tinha apenas 16 anos. Naquele tempo, não havia um curso de cinema que eu achasse assim maravilhoso. E com 16 anos você não sabe direito o que vai ser quando crescer. Queria entender como o mundo funcionava e achava que a Economia ia me trazer essa compreensão. Na faculdade, aprendi muito História, várias coisas superinteressantes. Acho muito importante a coisa da formação formal. Economia é uma coisa que uso até hoje. Na hora de planejar uma filmagem com a equipe entra a praticidade da economia, principalmente quando os recursos são escassos. Como economista, tenho essa facilidade de lidar com orçamentos. Além disso, costumo construir meus roteiros usando álgebra linear, para que eles fiquem bem-estruturados, tenham uma resultante única.

Por que você escolheu um texto de Shakespeare para seu primeiro longa de ficção?
Estava querendo fazer uma adaptação desta vez. Vinha escrevendo meus próprios textos até então. Tinha feito Totó 100 (prêmio do júri no Festival do Minuto de 1994), Decisão (Melhor Curta no festiva de Gramado de 1997) e Antônio Dias (Antônio Dias - Um País Inventado, documentário lançado direto em DVD). Dessa vez, achei interessante adaptar algum outro escritor. E queria uma comédia, porque adoro comédia. Acho que a comédia chega aos corações das pessoas de uma maneira muito gentil, muito agradável. Comecei, então, a pesquisar textos nacionais e estrangeiros. Me lembrei desse texto de Shakespeare que tinha lido na adolescência; sempre achei ele muito engraçado. Resolvi adaptá-lo e passei um ano pesquisando na Royal Shakespeare Company. A Cecily Berry, diretora de lá, foi maravilhosa, me recebeu e abriu os arquivos da companhia. Pesquisei todas as montagens recentes da peça. Depois de um ano trabalhando, achei que dava para virar cinema. Depois, foram mais dois anos de trabalho árduo enquanto estava captando recursos. Ia melhorando a produção, os cortes... Porque trata-se de uma peça longa e, para chegar num filme de 1h40, você tem que fazer uma síntese do que é necessário para a trama andar.

E como foi a questão da tradução dos diálogos?
Eu me preocupei muito com a tradução. Tinham de ser palavras que a gente conhecesse no cotidiano. Quando falamos, o nosso escopo do vocabulário é muito reduzido, mas quando você pega um livro contemporâneo, de Rubem Fonseca, João Ubaldo, tem um vocabulário maior. Então a minha preocupação era que as palavras fossem contemporâneas; um vocabulário mais rico do que a gente tem hoje em dia. Trabalhamos muitos nos ensaios em cima dos textos. Os atores ajudaram muito também, porque quando eles sentiam alguma dificuldade maior daquilo ficar integrado coloquialmente ao personagem, eu ia lá e retraduzia, achava outro sinônimo que fosse fluido.

Que conceitos você adotou para tornar o filme contemporâneo?
Tem duas questões que nós trabalhamos como conceito do filme. Um era que o importante era a trama e os personagens. Tudo que não fosse importante para o elenco se expressar, nós minimizamos. Construímos um universo sintetizado. Qualquer elemento que fosse distrair o espectador, um objeto maravilhoso em primeiro plano, um colar gigantesco... Qualquer coisa que fosse subtrair da trama e do elenco a gente sintetizou. Esse era um conceito. Também fiz movimentos de câmera muito sutis, que as pessoas não notam. Se tivesse usado a câmera como personagem, as pessoas iam ficar preocupadas com aquele deslumbramento de movimentos e deixariam de ouvir, porque o importante é ouvir o que os personagens estão falando um do outro, ou tramando um contra o outro. Queria também que o espectador sentisse que aquela história se passa em Tiradentes do século XIX, mas poderia estar acontecendo aqui também. Então, a gente modernizou tudo de uma maneira sutil, no figurino, na música.

Por que usou músicas de Cabo Verde na trilha sonora?
Um artista é uma antena parabólica, que fica mudando de canal. Eu fui para Cabo Verde para uma mostra de cinema brasileiro da qual Decisão foi convidado a participar. Eu quis conhecer a música do lugar. Adoro música, acho que a base de todos os meus trabalhos é a música. Lá, ouviu grupos maravilhosos. Achei que aquilo tudo fazia parte de nossa origem. Daí, decidi usar a música do grupo regional As Batucadeiras de Monte Agarro como tema das Comadres. Mas daí a trilha tinha de ser toda de Cabo Verde para manter uma homogeneidade. Daí eu fui formando a trilha. E foi muito interessante porque foi um processo de também conhecer um pouco da história brasileira. A música deles tem muito a ver com a gente. Eu achei bonito esse processo de descobrir parte de nossa história através da música e colocar no filme.

O que da trama original de Shakespeare você acha que remete à realidade brasileira?
O texto fala de duas coisas que me trouxeram para o Brasil contemporâneo: o ciúme, que é uma questão superbrasileira, e tem a questão das relações por interesse. Tem pessoas que você percebe que obviamente estão interessadas na fortuna do outro, no status do outro. Essas são questões que a gente tem hoje em dia no Brasil.

Você chegou a fazer sessões-testes do filme?
Fizemos cinco sessões-testes antes da montagem final. A reação do público foi maravilhosa. Escolhemos pessoas de faixas etárias e níveis sociais diferentes. Tinha gente da Mangueira e da Vieira Solto. Daí, nós fazíamos grupos de discussão para descobrir uma "barriga" no filme, um personagem que precisasse elaborar um pouquinho mais... Com isso, fomos refinando a montagem. Mas desde do primeiro corte mais longo houve empatia. O público gostou, entendeu e entrou.