Lina Chamie (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Roberto Guerra

Lina Chamie é mestra em música e filosofia pela Universidade de Nova York. Durante 10 anos trabalhou no departamento de cinema da universidade, onde mergulhou fundo em sua segunda paixão, o cinema. No Brasil, desde 1993, dirigiu vários vídeos e o premiado curta-metragem Eu Sei Que Você Sabe. Tônica Dominante é seu longa de estréia.

Como surgiu a idéia de filmar Tônica Dominante?
A idéia de filmar Tônica Dominante é antiga. Quando eu filmei o curta Eu Sei Que Você Sabe, em 1995, já tinha pronto o roteiro de Tônica. Minha formação acadêmica é musical. Eu estudei música nos EUA por muito tempo. Fiquei 14 anos em Nova York. E Nova York é uma cidade de cinéfilos, para cinéfilos. Então, tive a oportunidade de assistir a muitos filmes e isso é fundamental para a formação de um cineasta. Vendo se aprende muito. Cinema sempre foi um interesse paralelo com a música. Na época, eu comecei a trabalhar no departamento de cinema da universidade de Nova York, que é um lugar muito interessante. Um contraponto ao lado oeste, a Hollywood. Dali saíram Scorsese, Spike Lee. O que eu quero dizer é que o cinema sempre foi uma paixão paralela com a música. Quando voltei para o Brasil em 1993, como clarinetista, toquei em vários lugares, no Municipal, no Masp, mas paralelamente eu queria fazer cinema. Esse era um desejo paralelo mais ativo. Dirigi alguns vídeos, depois o curta. Nessa época, o roteiro do Tônica já existia. A idéia de fazer esse filme que, na verdade, é uma metáfora sobre o processo de criação artística musical, já existia ainda em forma embrionária. Então, escrevi o roteiro, trabalhei, amadureci e, em 1996, começamos a filmar. Filmamos o equivalente a metade do filme. Foi, então, que o Nando se acidentou (Fernando Alves Pinto) e tivemos de parar as filmagens. Só a retomamos em 1999. Por isso, digo que Tônica Dominante é um filme que amadureceu em todos os sentidos, tanto o roteiro quanto sua feitura. É um filme que tem um olhar para a música, que eu considero fundamental e parte intrínseca de minha vida. E justamente por ter tido esse tempo longo de gestação é que considero uma obra bem pensada, um projeto especial. Eu definiria Tônica Dominante como uma reflexão sobre uma parte fundamental da minha vida que é a música e através de uma linguagem que eu amo que é o cinema.

Os três dias nos quais de passam o filme equivalem aos três movimentos de uma sonata. Como foi adaptar esta estrutura musical para as telas?
O roteiro, que mostra os três dias de uma jovem musicista correspondendo aos três movimentos de uma sonata, estava bem definido desde o início. O desafio, claro, era passar para a linguagem cinematográfica a abstração da música. O filme passa de uma estrutura complexa, formal, que é essa coisa dos três movimentos transformados em três dias, para uma tentativa de se mostrar a emoção da musica musicalmente, sem falar sobre esta emoção. A proposta era fazer o espectador sentir esta emoção. Por isso, o Tônica tem a questão da cor, da linguagem visual muito presente, porque é um filme de poucas palavras, que aposta mesmo na integração da imagem com a música. Por isso, nós fizemos na fotografia um estudo de cor, uma cor para cada dia nesses três dias. Cores que correspondem ao eventos e ao conseqüente estado emocional do herói. No primeiro dia o personagem está sozinho, uma situação de solidão e o ambiente é escuro. Depois ele passa para o lado do desespero, no qual o vermelho toma conta gradualmente. É o estado passional das coisas. E no terceiro é o amarelo, o dourado, quando o herói finalmente encontra a luz através da música, da criação artística. E essa história do filme se confunde com a própria feitura do longa. Na verdade, Tônica Dominante é um filme sobre a busca. A busca da beleza, do amor, da luz. A arte como forma de nos iluminar, nos elevar.

Seu filme foi bastante elogiado, mas algumas pessoas o classificaram como hermético, difícil, exigente. Você considera Tônica Dominante uma produção para um público restrito?
Tônica Dominante é um filme elaborado, que tem vários níveis de leitura. Um filme de emoção, mas não um filme hermético. É uma aposta na emoção, que exige uma leitura poética porque não tem uma narrativa linear.

Você o classificaria como uma antítese do cinemão atual, do cinema banalizado?
Pois é. Eu acho que aqui no Brasil nós estamos tendo um cinema interessante de novo. Existem mais filmes, mas também produções com propostas diferentes. É claro que há uma tendência de ser fazer um cinema mais comercial neste momento, até porque estamos num período de retomada, mas não acho que esta retomada tenha de se calcar só no cinema comercial. Por exemplo, no Tônica eu vejo o contraponto. E é fundamental ter esse contraponto, ter um outro cinema. Nós só voltaremos a ter uma identidade quando tivermos um cinema variado. Por isso, não considero o Tônica um filme hermético. É uma produção elaborada, é um contraponto sim, não é um filme comercial, não é um filme com concessões. É radical, mas aposta na emoção. Mesmo não sendo comercial, procura o público através da emoção da música. É como um poema. Quando se lê um poema, você tem símbolos, sensações jogadas, uma economia de palavras. É uma espécie de evocação das emoções. Então é uma questão de como se vê a coisa. Se você olhar pela ótica do comercial, Tônica é um filme para poucos. Mas, em termos de identidade, de um cinema de personalidade, de criatividade, de ampliar os horizontes do nosso cinema, o filme representa um papel importante.

Tônica Dominante é um filme com tomadas longas. Isso foi uma maneira de se opor a fragmentação do cinema atual?
O filme tem um tempo próprio, que é justamente o oposto do que é o cinema hoje em dia. Ele não é nada fragmentado. Quando um personagem anda no meu filme, ele realmente anda. Espero ele andar porque na vida a gente anda. O cinema hoje em dia é cada vez mais picotado. O que não pode ser considerado ruim. Eu gosto de filmes dos mais variados. Mas o Tônica vai num caminho muito próprio. Ele tem o tempo do olhar, o tempo do personagem. Durante as filmagens, nós nos curvávamos diante do Senhor Tempo. Então, às vezes, o Tônica tem esse tempo não-manipulado que pode parecer ao espectador um desafio. Mas isso evoca um reflexão e é também uma questão musical porque a música acontece no tempo. O problema é que atualmente no cinema está na moda manipular esse tempo.

Como você vê o atual momento do cinema nacional?
Está tudo muito bacana. Temos mais filmes, produções muito boas, com personalidade. Acho muito bom o cinema comercial e torço para dar certo. Torço para o filme da Sandra Werneck lotar as salas. Mas não podemos esquecer de tomar cuidado para não achar que o cinema comercial é "o caminho". Porque o caminho é formado por diferentes olhares, pois só assim se tem cinema de qualidade. Se você não tem isso, não tem identidade. Então, não devemos apostar só no cinema comercial e achá-lo uma opção estética. Senão, você começa a trazer para o cinema uma linguagem como a da TV, o que esteticamente é empobrecedor. Temos de ter os contrapontos porque senão nós vamos nivelar por baixo. Já que temos a novela na tela, então, que tenhamos Tônica Dominante do outro lado. Sem medo. Esse é o nosso cinema e ele tem de andar junto. O cinema tem de ter opostos.