Lúcia Murat (Exclusivo: Maré, Nossa História de Amor)

25/05/2009 17h40

Por Livia Brasil

Lúcia Murat tem se destacado cada vez mais no cenário cinematográfico brasileiro, principalmente depois de Quase Dois Irmãos. Seu crescimento como cineasta é constante, concretizando sua carreira no cinema brasileiro.

Pelo fato de ter se formado bailarina clássica na adolescência, Lúcia não esconde sua paixão por todas as formas de expressão corporal e seu sonho em fazer um musical, mas que tivesse a cara do Brasil. Sem fugir das questões sociais, muito presente em seus filmes, foi assim que Maré - Nossa História de Amor nasceu. Um longa-metragem livremente baseado na peça de William Shakespeare, Romeu e Julieta, mas com dois jovens moradores da favela carioca Maré como personagens principais.

Em entrevista exclusiva ao Cineclick, ela nos contou das dificuldades e alegrias de escrever e dirigir um musical.

Como surgiu a idéia de Maré, Nossa História de Amor?
Eu fui bailarina clássica e sempre fui fascinada por musical. Pela minha história de vida, - foi militante presa na ditadura - minha cinematografia trabalha sempre com questões sociais, não cabia fazer uma comédia romântica. Em um determinado momento eu vi um grupo de dança da favela Maré, posteriormente eu vim estudar um pouco e descobri que essa escola ficava em uma área entre dois grupos, duas facções, como uma Faixa de Gaza com um núcleo cultural no meio. Pensei em fazer uma adaptação totalmente livre de Romeu e Julieta. Isso não nasceu de um dia para o outro, foram anos de trabalho. Muitas coisas contribuíram para o desenvolvimento desse trabalho. A força que encontrei na comunidade, a formação de muitos bailarinos por meio da dança de rua, além de projetos sociais e atividades culturais que estão explodindo nas favelas, como o funk e o rap, estão rompendo barreiras e chegando à classe média. Todas essas movimentações junto a essas idéias acabaram resultando no filme.

O filme é baseado em Romeu e Julieta. Como foi trazer Shakespeare para a favela?
Eu diria que é uma recriação, tanto que no trailer diz: "Um outro Romeu, uma outra Julieta, uma outra história, a mesma guerra". Tinha algumas questões conceituais que fiz questão de manter, mas o diálogo é inteiro popular. Shakespeare hoje é um erudito, mas eu fiz uma projeção do filme na favela da Maré e me lembrou a época em que ele viveu. Estamos em um tempo shakespeariano. O teatro de Shakespeare era profundamente popular e tinha participação da platéia. Na projeção na Maré, as pessoas gritavam, dançavam, e acreditei estarmos diante de uma platéia shakespeariana. Essa é a platéia realmente real do Romeu e Julieta original.

Seus filmes sempre trazem um olhar social. Como foi fazer isso por meio de um musical?
Na verdade, eu acho que o musical te possibilita algumas discussões que o realismo não permite. Tem algumas questões que a gente trabalha no filme que leva quase que ao absurdo. Por exemplo, as questões das cores, do vermelho e do azul. Aquilo em uma proposta realista não teria nem como, poderia haver uma discussão sobre o assunto, pois realmente existe, como o Comando Vermelho que só se veste de vermelho e se você entra com a blusa da cor errada pode dar confusão. Mas da forma como está colocado no filme, tem um grau de fantasia e um grau de confabulação. Eu acho que isso permite trabalhar com o absurdo. É tão claro o absurdo da violência que é um registro muito interessante que o musical te permite. Um grande desafio que eu tive foram essas idas e vindas, sair do musical e entrar na realidade e depois voltar ao musical. Ao mesmo tempo, o espectador tem de acompanhar essas variações, mas na hora que mostra a violência ele tem de acreditar que aquilo está existindo. Se ele achar que é tudo confabulação perde totalmente o controle do filme. Tive um grande colaborador para isso, o Gringo Cárdia, diretor de arte, que fez um trabalho maravilhoso e as coisas foram meio que acontecendo. Algumas idéias dele de colocar elementos de escola de samba, que são teoricamente símbolo de alegria, porém em um determinado contexto, se tornou dramático. Acho que todo esse jogo foi muito delicado de montar, de fazer. Nós trabalhamos muito nesse ano, foram seis meses de ensaio, muito tempo de levantamento, muito trabalho de direção de arte, detalhista. Muita coisa aparentemente se perde, mas eu acredito que o trabalho está lá na tela.

Como foi o trabalho com os atores em relação às mudanças entre realidade e fantasia?
Com eles nós trabalhamos sempre da mesma maneira, eles acreditavam naquilo que estavam fazendo. Ensaiamos muito, teve muito improviso, o roteiro mudava em função deles. No ensaio víamos o que funcionava e não funcionava e eles sugeriam mudanças. É um filme diálogo, um filme processo que foi feito a partir dessa avaliação. O workshop de ator foi fundamental. Eram situações que poderiam ser vivenciadas outras não, outras foram criadas ali. O casal é uma fábula e foi colocado muito acima de toda história. As discussões da realidade e do cotidiano eram feitas pelos outros personagens e não por eles, não um com o outro. Os dois estão acima de tudo, eles acreditam que eles podem sobreviver àquilo tudo. Isso foi uma coisa que foi descoberta durante esse processo de ensaio.

Como foram as filmagens nessas locações? Afinal, você parou a Linha Vermelha.
A Linha Vermelha era uma fantasia que eu tinha. É um lugar que está sempre vinculado à guerra do tráfico, as pessoas correndo por causa de tiro. Eu queria fazer essa cena dos meninos tomando a Linha pela dança. Era uma "piração". Você fala para a produção e eles acreditam que tem de ser feito e conseguiram. Primeiro ensaiamos a coreografia no estúdio, com cadeiras substituindo os carros, depois fomos ensaiar em uma garagem e mudou completamente. São outras dimensões, ensaiar com uma cadeira e depois mudar para os carros. De repente, uma corrida que ficava bonita com as cadeiras, quando foi feita nos carros não tinha nada a ver, uma confusão. No dia da filmagem, não havia tempo para ensaio. Anunciaram à população que iríamos fechar, foi em um domingo, mas foi tudo na paz. Quando chegamos lá, estávamos tão abismados com aquela história, uma sensação de Deus por ter fechado a Linha Vermelha. Mas foi uma cena engraçadíssima de fazer, todos enlouquecidos. Tanto que, quando estava valendo a filmagem, os meninos começaram a fazer a coreografia de dois meses atrás que já havia mudado tudo, foi um nervosismo geral. Outro aspecto muito interessante da Linha Vermelha foi a participação deles, as pequenas teatralidades foram todas sugestões deles. Eles tiveram a chance de expor o quanto se sentem atingidos pelo preconceito e fizeram um monte de brincadeiras como se estivessem "curtindo com a cara" da classe média.

E a escolha da trilha sonora?
Foi um longo trabalho, bem complicado, como tudo neste filme. Quando eu disse para um amigo que ia fazer musical ele disse: "Você está maluca, não sabe o que é fazer um musical". Pensei que seria tranqüilo, afinal fui bailarina, mas quando cheguei à metade do caminho eu dei toda razão. Tudo é muito trabalho e você tem algumas limitações. Algumas músicas são conhecidas como as do Rappa e outras eu achei que eram interessantes por, além de serem conhecidas também, cabiam perfeitamente no roteiro. Outra idéia foi substituir o coro grego por um grupo de rap (Nação Maré). Eles são da Maré e fiz um acordo com eles: entreguei o texto original e o roteiro e pedi para criarem poesias que entrariam em determinados lugares, depois acrescentamos na edição. Tinha o preparador de voz também, alguns atores já cantavam e eu não queria trabalhar com dublagem, acho que isso acaba com o esforço do filme. Queria que os meninos representassem realmente aquele mundo. O filme vai do Prokofief até o funk. Isso é conceitual, eu queria trabalhar com a diversidade.

O grande público brasileiro não está acostumado com musical, ainda mais nacional. Como você acha que será a aceitação?
A receptividade está sendo ótima, está criando uma expectativa muito grande. O filme consegue uma coisa muito difícil que é ser popular, sem deixar de ser sofisticado. Ele tem essa condição de falar à públicos diferentes.

O elenco, como foi a seleção?
Eu tinha preparado, desde o roteiro, a ter personagens que não dançassem. Esses eu colocaria para trabalhar melhor a dramaturgia e foram papéis que praticamente escrevi para eles. Particularmente o Babu (ator Babu Santana, que interpreta o traficante Dudu), que vai da extrema crueldade à extrema afetividade e, se não fosse bem feito, cairia no ridículo total. A Marisa (Orth) é uma atriz que eu já havia pensado e um aspecto que foi fundamental no filme é que ela tem uma ONG e logo já estabeleceu uma ligação afetiva com os meninos e vice versa. O (Vinícius) D´Black tem uma vantagem, já cantava, não era ator, mas cantava e dançava. Ele entrou em um teste de dança, além de ter um bom biótipo para o Romeu, é bonito. A menina foram várias tentativas. A Cristina (Lago) entrou no grupo por outras circunstâncias, ela não é de comunidade como os outros meninos. Foi fazer teste para o grupo de dança e dançava muito bem, de uma forma especial. A Cris tem uma expressão corporal muito bonita e encantou no primeiro teste, mas não havia pensando nela para o papel de Analídia porque tinha um jeito diferente do que eu estava pensando para o personagem. Depois de um tempo, ela estava se sentindo meio isolada e resolveu fazer um rastafari e, quando chegou ao ensaio, pensei na hora em colocá-la para ser a protagonista. Mudamos um pouco o roteiro, pois inicialmente o casal não seria inter-racial. Mas assim ficou com uma cara mais brasileira com essa mistura que o país tem.

Maré é bem colorido, alegre, bem diferente do que se espera de uma produção filmada na favela. Qual a importância de destacar essa vibração criada pelas cores?
Isso é difícil de filmar, mas se você entrar numa favela vai ver que é muito colorida, as pessoas usam cores fortes. Mas quando você filma só aparece tijolo, é uma coisa totalmente meio cinza. As ruas são pequenas, não tem luz incidente. Na verdade, foi um trabalho muito grande de fotografia e direção de arte, um conjunto.

Quais são seus próximos passos no cinema?
Férias, preciso recarregar a energia. Tenho vários projetos, mas depende de financiamento. Às vezes começo com um filme, mas acontecem outras coisas e acabo deixando para depois, assumindo outro. Como Maré, Nossa História de Amor, que achei que faria antes de Quase Dois Irmãos.