Lui Mendes e Thiago Martins (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

Integrante do grupo Nós do Morro, Thiago Martins estreou no cinema em 2000, com apenas 12 anos, no filme Kinderraub in Rio, uma produção alemã do diretor Jörg Grünler. Em 2002, interpretou o personagem Lampião em Cidade de Deus, de Fernando Meirelles e Kátia Lund. Recentemente, protagonizou Era Uma Vez..., ainda em cartaz nos cinemas. Show de Bola, filmado em 2005, traz o ator de volta ao contato com um realizador alemão; no caso, Alexander Pickl, que o escolheu como protagonista de sua estréia na direção de um longa-metragem. Ele conversou com o Cineclick sobre este trabalho ao lado de seu amigo e colega de elenco Lui Mendes. Confira:

Como vocês se envolveram inicialmente com o filme, que foi filmado em 2005?
Thiago Martins
: É uma produção alemã e este filme é a visão de um gringo observando o Brasil e toda essa história de todo menino sonhar em ser jogador de futebol. O diretor chegou ao grupo Nós do Morro e me procurou, ele veio ao Brasil uns meses antes e havia me visto na novela (Da Cor do Pecado). Nessa segunda vez, ele veio direto a mim e me convidou para fazer o personagem. Por coincidência, o nome dele já era Tiago. O filme trouxe uma vivência muito boa pro Nós do Morro, a maioria dos atores é do grupo. O Luís Otávio Fernandes está no filme, um ator da mesma geração que a minha, mas não tão bem aproveitado pelos outros meios de comunicação. Graças a Deus, o filme deu ao Luis Otávio a oportunidade de mostrar o trabalho dele, que é ótimo ator.
Lui Mendes: Na verdade, o Thiago já vem de uma safra de atores que vê sendo formado do grupo Nós do Morro, sob a direção do Guti (Fraga, diretor artístico e fundador do grupo), nosso professor e a gente o chama desse jeito pelo carinho que ele vem orquestrando essa coisa do teatro dentro das comunidades carentes. Show de Bola foi feito quando o Thiago estava saindo de uma novela, estava num sucesso enorme na outra (Belíssima) e veio a calhar esse convite por ele ser não somente um cara que gosta e joga bem futebol, mas pelo trabalho dele como ator. O personagem Tubarão era pra ser do Cauã Raymond, mas o Thiaguinho sugeriu meu nome pro cineasta. Fiz o teste por indicação dele (Martins), fiz o teste e estava entre mim e o Cauã, mas fui escolhido também por termos vindo de um laboratório grande feito em Cidade de Deus. Somos amigos há muito tempo, então foi simples. Meu personagem realmente existe na favela, é um cara que vive no mundo do tráfico, mas tenta ajudar as pessoas que têm possibilidades maiores na vida. O filme tem muito disso, torço muito pelo sucesso dele (Martins) e no que ele precisar também o apoio. Show de Bola amarrou muito bem com o que temos na vida pessoal.

Lui, você vez alguma espécie de laboratório para compor o papel?
Lui Mendes
: Não, o Tubarão veio mais da minha vivência. Também venho de uma comunidade carente, da Cidade de Deus, e a gente já tem esse conhecimento na natureza, na pele, já é nato, então a gente foi meio no olho. Um alemão veio com essa idéia na cabeça e a gente teve de orquestrar esse roteiro. Nossos roteiristas tentavam tirar da cabeça dele suas idéias e as traziam para nós.
Thiago Martins: O Lui vem com a preparação que Cidade de Deus nos deu. Tivemos milhões de aulas com a Fátima Toledo, que nos ajudou muito, e teve muito também da vivência. Quem mora lá sabe o que é.

Quer dizer então que vocês ainda aproveitam o trabalho iniciado com a Fátima?
Lui Mendes
: Na verdade, é um conjunto do estudo que tivemos com uma série de cineastas ao longo de nossas carreiras, que nos lapidaram e seguem fazendo isso. Show de Bola vem com esse mar de filmes feitos falando de temas parecidos, bem antes de Cidade de Deus.

O que vocês aproveitaram desta experiência de serem dirigidos por um alemão em Show de Bola?
Lui Mendes
: Trabalhamos com um dos melhores diretores de fotografia do mundo, ele é excepcional, a montagem deste filme é ágil, dinâmica, cortes concisos. Na verdade, a proposta inicial de Show de Bola era ser um documentário, o cineasta queria fazer um documentário sobre futebol no Brasil. O roteirista transformou a idéia do autor, levamos a história adiante. Mostramos para os gringos que o Brasil não é como eles imaginam, mostramos como é a realidade e isso foi o que mais nos acrescentou, pudemos mostrar o Brasil de outra forma.

Provavelmente, foi ele quem saiu ganhando neste trabalho, então...
Lui Mendes
: Acho que sim!
Thiago Martins: É sempre bom trabalhar com pessoas diferentes, especialmente neste caso, com um diretor alemão, são outras portas que se abrem.
Lui Mendes: Agora ele tá querendo fazer outro filme com a gente, sobre boxe...

Pra filmar aqui?
Lui Mendes
: Sim. Ele já perguntou se estamos dispostos a fazer outro trabalho com ele.
Thiago Martins: Tem de ter essas parcerias não somente com diretores brasileiros, mas também alemães, ingleses... É sempre uma oportunidade bacana de mostrar nosso trabalho em outros países.
Lui Mendes: Me parece que o filme foi muito bem-recebido internacionalmente (o longa estreou antes na Alemanha e outros países europeus). Estamos tendo uma oportunidade incrível de mostrar nosso trabalho. Os longas atuais estão sendo orçados em R$ 5 ou 6 milhões, a gente fez um filme com R$ 1 milhão. Dá para ser feito. O bacana de estamos falando de Show de Bola é que foi feito com dinheiro próprio. Quem disse que não dava? Tem a possibilidade de fazer esses filmes.

Trabalhar com o diretor alemão, falando em outra língua, trouxe alguma espécie de dificuldade para o trabalho de vocês?
Thiago Martins
: Tivemos uma equipe muito boa... A Erika foi uma das grandes responsáveis por este filme ter saído, ela era o maestro da equipe, ela fazia desde coisas como arrumar um carro pra você ir embora até definir onde a câmera ia ficar. Ela foi incrível.
Lui Mendes: Ela se preocupou muito com que a gente poderia precisar. O diretor, que vinha numa proposta de fazer documentário, não estava muito preocupado com continuidade, figurino, e ela se propôs a tomar este cuidado talvez por já ter uma visão do que poderia ser o longa. A Erika amarrou tudo bonitinho.

Onde Show de Bola foi filmado?
Lui Mendes
: Numa favela chamada Tavares Bastos, que fica perto do Bope. Lá não tem traficantes, é uma favela física, mas não tem movimento criminal.

Ou seja, o fato de ter sido filmado na favela não trouxe nenhum tipo de risco ou complicações mais graves à produção.
Thiago Martins
: Não. Muito pelo contrário, o Bope também deu um apoio.

A impressão que tive é que a história é bastante pessimista. O que vocês acham disso?
Thiago Martins
: A cada dez brasileiros que nascem, nove vão querer em algum momento ser jogadores de futebol. Existem pessoas que acabam caindo no mundo da criminalidade da mesma forma que existem os que mudam de rumo, assim como tem as que desistem e as que conseguem chegar lá. Show de Bola mostra o olhar de um alemão sobre uma pessoa que não dá certo, ele mostra que a violência conseguiu tirar o menino deste sonho. É o olhar dele, mas é claro que existem pessoas que dão certo, o que mais temos é exemplo.
Lui Mendes: No final, mostra uma criançinha. O cineasta quis dizer que todo mundo tem um sonho; ao encontrar uma chance, ou você se agarra a ela com unhas e dentes ou a perde. A proposta do filme é fazer uma trama que, por mais que seja levada pelo lado do pessimismo, tem conflito e é isso que o ator busca. É mais emocionante ter um final como este.
Thiago Martins: O filme não tem vilão. A vida é a grande vilã nesta história.

Vocês têm acompanhado a recepção do filme internacionalmente, já que ele foi lançado lá fora antes?
Lui Mendes
: A repercussão tem sido muito boa. O filme foi assistido pelos jogadores de futebol Zé Roberto, o Kaká e a esposa dele - todos são amigos do Alex. O Kaká é um cara religioso, que tem um padrão de vida que poderia se chocar ao tipo de filme, mas o diretor nos mandou e-mail dizendo que todos eles se sentiram no Brasil ao ver o longa, o Zé Roberto chorava como criança e o Kaká disse ter se lembrado de um colega com quem jogou no São Paulo cujo irmão foi assassinado; o cara largou o futebol novo pra ir atrás do homem que matou o irmão. O Lúcio também assistiu, todos do Alex Pickl que moram na Alemanha.
Thiago Martins: Quem um dia sonhou em ser jogador de futebol vai se identificar com este filme.

Leia também entrevista com o roteirista Renê Belmonte e o produtor Julio Uchôa.