Luiz Bolognesi (As Melhores Coisas do Mundo)

13/04/2010 18h03

Por Heitor Augusto

Na sala de reuniões da produtora Buriti Filmes, do casal Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi, há uma grande mesa com tampo de mármore e um mural em uma das paredes. Lá, desde a produção de Bicho de Sete Cabeças, o casal – diretora e roteirista – discute o roteiro de todos os filmes que realiza.

Com as páginas distribuídas pela parede, Bolognesi circula com caneta marca texto laranja os principais plots . “Se os intervalos entre pontos de emoção estão muito grandes, opa, aí tem alguma coisa errada”, explica o roteirista ao Cineclick. Um trabalho conjunto de roteiro e pré-edição que resultou em As Melhores Coisas do Mundo, longa que estreia nesta sexta (16/04).

Em uma simpática e esclarecedora conversa de duas horas, Bolognesi deixa transparecer por que os filmes que escreve geralmente passam a sensação de verdade dos personagens. Todos são acompanhados de uma pesquisa dedicada e muito cuidados com a estrutura da história.

Como a conversa com a reportagem foi muito longa, decidimos publicar os principais trechos e dividir a conversa por temas. Confira a seguir:

Qual é a essência de As Melhores Coisas do Mundo?

Que pergunta difícil! Quando escrevi o texto de introdução do roteiro de Chega de Saudade, publicado na Coleção Aplauso, não tinha consciência objetiva. Lá, o que me levou ao interesse pelo filme, muito além do baile, é a sensação de morte quando ela bate à porta. É o fim da vida e tenho medo deste momento. Você tem 70 anos, ano-novo chega e você pensa: “menos um”. Você não acha que está envelhecendo, mas os outros te lembram a toda hora, vem um cara que te chama de “tiozinho” ou pede “posso guardar o carro para o senhor?”. A essência de Chega de Saudade tinha como conflito principal o seguinte: a tua vida foi um mar de alegrias e sofrimento, não necessariamente felicidade, a morte bate à porta e você consegue represar desejo de viver. Como? Como ter desejos adolescentes?

Qual é o momento da vida que é tão forte quanto a morte? A hora que a gente tira o pé da infância e põe no mundo adulto, mas não somos nem um, nem outro. A gente dá esse salto no meio do nada, com hormônios a mil por hora. Acho que este momento interessa fazer reflexão pelo cinema. Para mim, adolescente não é consumidor ou geração perdida na internet. Na verdade, é a gente tirando o pé dos sonhos e das representações mágicas da infância. Quando começa a botar o pé no mundo adulto, que é o espaço da tragédia, da consciência de que o ser humano não é tão legal, de que o planeta está acabando, muitos desencontros. Eu tentei representar esse momento de quem tem um pé na infância e outro no mundo adulto.

Adolescência é sinônimo de ruptura

A gente pode praticar a adolescência em várias fases da vida, pois é a possibilidade do rompimento. Quando alguém vem me dizer que precisa dar remédio para conter a rebeldia dos adolescentes, digo "não", está errado! A essência desse período é romper com o mundo que estava dado e partir para a transformação. Eu posso fazer isso com 20, com 30, com 40, com 60 anos...

Pesquisa surgiu nas escolas

Eu e a Laís fomos a diversas escolas e conversamos com grupos de adolescentes. Chegávamos para eles e perguntávamos que filme eles queriam. Eles nos falavam o que não queriam. O primeiro: não ser retratados como os grupinhos de filmes americanos. Segundo: não queriam que fosse um filme de jovens que só transam e se drogam. Claro que isso existe no mundo deles, mas não são isso, não está na essência. Outra coisa que escapava nas entrelinhas do discurso deles é a tentativa de entender “quem sou eu?”, “qual a minha inserção?”.

Acho que a grande característica dos jovens é o pavor de ser o "zoado" da vez, alvo do booling. A chacota sempre existiu, a diferença é o desenvolvimento da tecnologia, que intensifica o Vigiar e Punir de Focault. A escola virou um grande Big Brother.

Uma surpresa na pesquisa foi o tema do amor. Imaginei que eles não quisessem o afeto como retrato, mas é diferente. Eles “ficam” sim com várias pessoas, mas não transam. O beijo não significa nada, mas, não há escapatória, eles vão sendo empurrados pelos amigos a avançar.

Adultos em crise

A estrutura familiar tradicional já não existe mais. Os adolescentes convivem com diversos modelos e por vezes se relacionam melhor com madrastas ou padrastos do que com as próprias mães ou pais. Na separação, os filhos sentem-se traídos e sozinhos no mundo. Ouvi de muitos “me senti traído”, “não há o pacto de amor que vocês prometeram”, “não estou pronto para a separação”, “vocês me sacanearam”. Ou encaram ou "amarelam" [frase do personagem-guru de Paulo Vilhena no filme]. Por isso que o filme usa a metáfora do violão para Mano [o protagonista].

Eu acho o casamento uma instituição fadada a não dar certo que a gente luta para manter. Nas pesquisas, percebi que as mulheres ficam com a estrutura da casa e o dia a dia dos filhos. No filme, a mãe de Mano é uma intelectual travada.

Colégio cruel

A escola, no formato que conhecemos, é um grande presídio com “celas de aula”. Eu e Laís pensamos em filmar com os olhos de Vigiar e Punir, pois a escola tem todos os elementos do trabalho de Focault. Os jovens com quem conversei percebem que o conhecimento é empurrado. Eles elaboram, mas não têm o poder de quem está com 24 ou 44 anos. Como território institucional é um desastre.

Só que os métodos são sofisticados. A escola de hoje te corta em pedaços e te põe para produzir e entrar no vestibular. Enquanto isso, os jovens não querem ser os "zoados" da vez e tentam entrar no grupo do f... Se eles sofrerem o bullyng, não sobra uma gota de dignidade no dia seguinte.

Quais livros serviram de base?

O livro-chave é Vigiar e Punir, do Focault. Porém, onde mais busquei foram os blogs escritos por jovens de 15 a 25 anos. Existe muita coisa boa ali, de verdade, vida inteligente.

Como sobreviver ao mundo opressivo?

Como sobreviver a uma sociedade que pede o medíocre? Não tenho respostas! É o que diz o guru [Paulo Vilhena] no filme: “Estou abraçando o meu sonho, siga o seu”. Essa pode ser uma chave, alguns vão achá-lo um perdedor. Eu o acho um vencedor.

Talvez, uma segunda chave esteja na postura da personagem da Bruna Sapata [hostilizada no colégio por ser homossexual]: quando ela tinha a oportunidade de massacrar o Mano, ela o abraça. Ou seja, não reproduz a violência.