Luiz Bolognesi (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

O roteirista Luiz Bolognesi é parceiro da cineasta Laís Bodanzky (Chega de Saudade) não somente na vida familiar, já que são casados, mas profissionalmente também. Juntos, criaram filmes como o anterior da cineasta e As Melhores Coisas do Mundo, terceiro longa de ficção de Laís que ela roda na cidade de São Paulo. Foi numa desses finais de semana de filmagens que o Cineclick acompanhou o trabalho da diretora. Assim como nossa reportagem, Bolognesi também estava de "acompanhante", já que seu trabalho no filme já terminou.

As Melhores Coisas do Mundo é inspirado na série de livros Mano, escrita por Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto. A trama acompanha o dia-a-dia de um grupo de adolescentes e seus dilemas - a descoberta da sexualidade e do amor, a pressão pelo sucesso, os medos, o preconceito, o ambiente escolar, o peso das amizades e a relação com a família - abordados a partir dos acontecimentos na vida de Mano (vivido pelo estreante Francisco Miguez) e seus amigos.

Batemos um interessante papo com Bolognesi sobre o processo de concepção do roteiro do longa, que contou com extensa pesquisa junto a grupos de estudantes como esses retratados no longa.

As filmagens e a produção do roteiro foram antecedidas por uma série de pesquisas feitas junto a alunos da rede particular de ensino de São Paulo. Como foi para vocês se inserirem nesse mundo já tão distante de vocês, diferentemente do caso de Chega de Saudade, que, embora seja frequentado majoritariamente por pessoas bem mais velhas, vocês (Laís e Luiz) já frequentavam esse tipo de evento?
A distância que estou do povo do baile é mais ou menos a mesma que estou do povo do colegial, estou no meio do caminho entre os dois momentos. Mas a realidade dos bailes era até mais difícil para mim de pesquisar, a do colegial vivi intensamente, é uma época muito intensa na vida de todos nós. Você está com um pé na infância, outro no mundo adulto e está vivendo tudo pela primeira vez: a primeira viagem sozinho, primeira vez que você anda de ônibus, de metrô, primeiro beijo, primeiro namoro... Tudo é a primeira vez, é muito forte, então a gente não esquece. Ao mesmo tempo, é um período muito sofrido, teu corpo está em transformações, além de ter essa pressão muito grande entre liberdade e autonomia. Tem muita angústia nesse momento. Por isso, é um período da vida superinteressante da gente falar.

Além do exercício de memória, voltar para esse tempo exigiu uma pesquisa muito grande. Para fazer o roteiro, estive em sete ou oito escolas em São Paulo, me reuni com grupos de geralmente seis ou sete adolescentes e passava a tarde inteira conversando com eles, falando da vida: relacionamentos, amizade, família, ficar, drogas, angústias, desejos... Os temas a serem explorados no filme vieram desses bate-papos. Uma das coisas interessantes é que todos os grupos me pediam para não falar sobre drogas. Eles não agüentam mais filmes sobre adolescentes que giram em torno das drogas, como Kids e Aos Treze. Eles não aguentam mais se ver dessa maneira. Isso já era um pouco minha proposta, mas ficou absolutamente consolidado evitar esses clichês. É disso que surgiu o trabalho de roteiro.

Identificamos dois personagens principais no filme, dois irmãos, um de 15 e um de 17, e os dois meninos são os centro do filme. O de 15 é o Mano e o de 17 é o Pedro. O Mano ainda não viveu nada, está ansioso para viver tudo. O Pedro é um menino muito intenso, viveu um monte de coisas, tem experiências. É um menino denso, profundo, tem um blog de poesia, atua num grupo de teatro, toca violão, tem uma sensibilidade que cria dificuldades dele no ambiente um pouco hostil que é a escola. Tem muita perversidade, crueldade, maldade na escola. Isso está muito no filme. O Pedro é sofisticado, culto, que está nesse ambiente hostil. Já o Mano é um moleque de 15 anos totalmente easy going, nem aí pra nada, só quer curtir. Ele ainda está descobrindo que é, não tem valores morais rígidos, ou aquela angústia, aquela profundidade, ele é um cara que não está nem aí. As coisas vão acontecendo nesse jogo entre os dois irmãos, nas diferenças, e o filme é muito sobre a amizade sobre os dois irmãos. Eles são muito diferentes, têm atitudes e posições diferentes, mas o filme versa e corre muito na amizade que se fortalece entre eles em função das coisas que vão acontecendo. A família tem papel importante, os pais estão vivendo uma separação. Parece uma coisa banal, mas todos os meninos na pesquisa apontavam que, quando a separação acontece na primeira infância, é mais fácil, você cresce acostumado, mas, quando a família implode neste momento, é muito dolorido. Outro dado interessante é que o Mano também é músico, então a coisa da música está muito presente, existem muitas metáforas em torno do vilão, a música é muito presente no desenvolvimento dos personagens.

Como está sendo o trabalho em cima da trilha sonora?
Ela não será como em Chega de Saudade, que foi preparada antes. Estamos bem abertos com a trilha sonora, que está sendo produzida pelo Bid, que também foi responsável pela música de Chega de Saudade. Estamos fazendo uma pesquisa de músicas que os meninos ouvem hoje em dia, além de bandas novas ainda desconhecidas. Estamos ouvindo muitos CDs desses meninos pra eventualmente trazê-los para o filme. É um filme para adolescentes, queremos que eles venham ver; eles estiveram presente na criação do roteiro, no elenco e queremos também trazê-los para a trilha sonora.

O roteiro é baseado na série Mano, mas também houve muita pesquisa para a sua produção. Como ocorre o diálogo entre a série de livros e as pesquisas na versão final do roteiro?
Este trabalho é inspirado na série de livros, não é uma adaptação. A partir daquele ambiente de adolescentes de escolas particulares da classe média, me inspirei para buscar novas tramas com os meninos. Até porque a idade dos meninos nos livros do Dimenstein é um pouco mais nova, eles têm 12, 14 anos; jogamos a idade mais para cima.

Por quê?
Porque resolvemos apimentar um pouco. Para cinema, deu uma vontade de apimentar um pouco mais a história. Demos uma subida na faixa etária e descobrimos novas tramas, novos desenhos de personagens nessa pesquisa com os meninos.

Nessa pesquisa, você percebeu que os jovens de hoje em dia são muito mais diferentes do que você era?
Acho tudo muito parecido. O ambiente tecnológico mudou, assim como o acesso à informação, mas os desejos, as angústias e as violências são parecidas. Como na minha época tinha essa crueldade de pegar alguém que é diferente e fuzilar, isso continua acontecendo, só que a tecnologia permite que sejam feitas coisas mais violentas.

Como filmar, difundir mais essas violências por meio da internet...
Exatamente. Tem muitos casos nas escolas de imagens de meninas seminuas, transando com o namorado que de sacanagem o cara filma e põe na internet. A vida da pessoa vira uma tragédia. Orkut com informações maldosas... Tem um mundo um pouco tenso e isso surgiu na pesquisa como uma coisa infernal.

Era algo que você já observava antes de fazer essa pesquisa?
Na minha época isso também existia, mas a tecnologia acabou potencializando isso. Virou um certo Big Brother do mal, tomou formas mais perversas, maquiavélicas. A grande mudança que senti é que, na minha época, tínhamos muito claro essa coisa de direita e esquerda, certo e errado; a esquerda é certa, a direta errada porque os militares estavam no poder, então tinha um certo maniqueísmo. Percebi que eles são menos maniqueístas que a minha geração. Portanto, são mais complexos no pensamento. Eles podem não ter uma atuação política tão engajada e simplista de direita e esquerda porque, de uma certa forma, essa fantasia se acabou, tem muito mais tons de cinza na vida deles. Eles não têm esse engajamento político inocente da minha geração, mas percebi que isso não significa ser apolítico, mas sim que essa fantasia se perdeu e eles têm um pensamento mais complexo do que na minha época. O mundo político deles é mais sofisticado. Ao mesmo tempo que a alienação existiu, ela ainda existe, mas tem também a galera engajada, artista, que faz música... Tem tribos que fazem de tudo. No Brasil, as pessoas transitam entre diversos grupos; o cara que joga futebol também pode andar com os caras que curtem rock'n roll, não é como nos EUA. Temos mais molejo, as pessoas transitam mais. Então, tivemos o cuidado de fugir desse clichê de pequenas tribos e isso percebi nos bate-papos que tivemos.

Nessas conversas vocês chegaram a conversar com eles sobre cinema brasileiro e o que, afinal, eles gostam no cinema? Eles estão acostumados com o cinema norte-americano e é difícil, para o cinema brasileiro, levá-los a ver filmes nacionais.
Eles realmente falam que vêem poucos filmes brasileiros, a média é de dois por ano. Eles vêem os filmes evento, como Meu Nome Não É Johnny, e eles mesmo falam que não vêem filmes brasileiros. Muitos deles nem ouvem música brasileira. Essa colonização cultural continua igual. Independente da nacionalidade, a questão é: como fazer esses moleques entrarem no cinema e se sentirem devidamente retratados. O desafio é fazer com que eles não achem o filme bobo, fora da realidade. Nossa busca é fazer um filme que eles queiram assistir, comentem, conversem com os amigos, mas que também haja algo perturbador. Quero fazer filme de público, mas há situações que incomodam. Ele chama As Melhores Coisas do Mundo porque tem essa busca do que é bom, mas várias angústias e dúvidas estão jogadas com bastante força no filme. Nem tudo tem solução no filme, ele deixa um pouco de coisas penduradas no ar. O cinema que eu e a Laís gostamos de fazer é de público, mas ele tem de continuar nas conversas, na reflexão do espectador. É legal o cinema que faz a pessoa refletir depois que o filme acaba. Essa é nossa pretensão.

Por que vocês deixaram em aberto para o público escolher o nome do filme por meio de enquete na internet?
Estávamos com várias possibilidades de nome e não batíamos o martelo. Daí, nosso parceiro, o presidente da Warner Bros. João Carlos Oliveira lançou a ideia. Achamos uma ótima ideia. Não foi um golpe de marketing, mas algo absolutamente coerente com tudo que fizemos. É um filme feito com não-atores adolescentes de escola, o roteiro foi concebido com eles. Por que não pegar os títulos que escolhemos e jogarmos pra ver o que acham? E deu o título que eu queria, que mais gostei.

Leia entrevista com Laís Bodanzky e galeria de fotos da filmagem.