Luiz Villaça

06/08/2009 17h44

Por Angélica Bito

Em 2002, o cineasta Luiz Villaça descobriu Roberto Carlos Ramos, pedagogo mineiro conhecido como um dos maiores contadores de história do mundo. Sete anos depois, lança O Contador de Histórias, no qual mistura realidade e ficção para contar a história desse menino de rua que, literalmente, venceu na vida.

Com formação publicitária, dirigiu mais de 500 comerciais entre 1990 e 2005. Em 1999, estreou como cineasta em Por Trás do Pano, protagonizada pela mulher, Denise Fraga, com quem voltou a trabalhar novamente em 2003 no segundo longa-metragem, Cristina quer Casar; Denise somente produz e faz uma ponta em O Contador de Histórias.

O Cineclick esteve ao lado de outros jornalistas numa conversa com Villaça, no qual ele contou melhor sobre a concepção do filme e suas pretensões. Confira:

Você descobriu o Roberto [Carlos Ramos] por meio de um livro dele?
Foi. Era um Natal e minha sogra, mãe da Denise (Fraga), deu para meus filhos um livro de histórias infantis. Li quando os coloquei para dormir e, quando eles dormiram, vi que a última história do livro era A História do Contador de Histórias, a história do Roberto Carlos Ramos em duas páginas. Quando terminei, percebi que era uma história necessária que queria contar. No dia 2 de janeiro, procurei o Roberto falando que queria fazer a história dele. Isso porque, dez dias antes, um cara tinha dito a ele a mesma coisa. Era um sinal que deveríamos ir em frente. A história começou assim.

Como foi o trabalho de construção do roteiro sobre uma pessoa ainda viva?
Tinha um acordo muito sério com o Roberto desde o início: queria fazer um filme baseado na vida dele, não um documentário. Então, propus um acordo: queria tê-lo disponível para várias entrevistas, levantei muito material sobre ele e, a partir daí, a relação deveria ser na base da confiança. Prometi somente que assistiríamos à primeira cópia do filme juntos. E foi assim: ele realmente me ajudou, foi um instrumento de pesquisa mesmo depois de ter o roteiro pronto. Há quatro meses, a primeira cópia ficou pronta; mandei as passagens para assistirmos juntos. Assistimos os últimos minutos de mãos dadas, chorando (risos)! Mas foi uma relação de muita confiança.

O primeiro contato que você teve com o livro foi em 2002. Porque demorou tanto para o filme ficar pronto, da gênese até agora?
Tem uma relação curiosa porque, no mesmo momento que tive isso, a Denise teve com [a peça teatral] A Alma Boa de Setsuan e são dois projetos que demoraram muito tempo para sair e saíra juntos. De certa forma, ambos falam de coisas próximas. O mais difícil nesse processo todo foi a captação, foi muito difícil levantar dinheiro para o projeto. Por um lado, foi bom para mim, porque fomos amadurecendo cada vez mais como contar essa história e entender um pouco mais qual era o caminho que devia ser feito. Também teve Retrato Falado [quadro no programa de TV Fantástico] no meio do caminho, foi como um estágio. Tanto que é a mesma turma do Retrato Falado que escreveu O Contador de Histórias.

A Maria de Medeiros parece ser a pessoa perfeita para o papel. Como foi chegar até ela?
Exatamente! Quando o produtor Francisco Ramalho confirmou que tínhamos o dinheiro para filmar, começamos a pensar em atrizes francesas que falassem português. Foi quando chegamos na Maria de Medeiros. Mandamos o roteiro e, três ou quatro dias depois, ela me procurou para dizer que tinha amado o roteiro, mas tinha um problema de datas. Mesmo assim rolou e foi linda a relação. Fui para a França, fizemos uma filmagem-ensaio e no primeiro dia vi que ela conhecia o roteiro melhor do que eu! Era um entendimento fantástico do texto, ela realmente sabia mais do que eu, que tinha escrito junto. É um talento. Ficamos lá uma semana, ela veio para cá e ensaiamos mais um pouco . Foi uma delícia. Ela veio do jeito que a Margherit veio: uma européia que vem ao Brasil e se encanta com o povo, a música, a comida, com os meninos, o talento, a criatividade... Ela me fez gostar mais ainda do Brasil. Era o tempo inteiro aquele encantamento com a gente. Não poderia ter sido melhor, ela trouxe essa carga de Europa. Acho genial esse jeito clownesco dela, algo que ela trouxe pro personagem e acabou sendo fundamental para o filme.

Isso também ajudou na relação dela com os meninos, que não são atores profissionais...
Ajudou bastante. Ficamos os dois de braços dados para trabalhar com esses meninos que nunca tinham feito nada como atores. Ela foi fundamental na relação com os meninos.

Demorou para essa facilidade na relação aparecer na tela?
Demorou... Tive a ajuda de uma atriz que chama Lais Corrêa, ela me ajudou na seleção dos meninos e depois trabalhou com eles no sentido de entender o que eles iam fazer, quem era o Roberto Carlos, como ele agia. Foi um trabalho longo, que durou mais ou menos um mês e meio depois dos testes. Nos primeiros dias, você vê que tem a estranheza, mas logo eles acabam se soltando. Até refiz as cenas que havia filmado nos primeiros dias porque achei que era um momento de adaptação, principalmente com o menor, Marco Antônio Ribeiro, de sete anos. Foi uma direção na intuição, muitas cenas eu tava de braço dado com ele, no meu colo... O filme fala muito de amor e também teve muito amor na feitura, foi uma relação de afeto, cumplicidade. Na verdade, é essa a história do filme. Quando me perguntam o que é o filme e é uma história de amor, comprometimento, disponibilidade para você estar com uma pessoa.

O que você acha desse encantamento vir de um olhar estrangeiro?
Tem uma coisa que me encanta ao contrário: é mais uma vez alguém de fora se encantando com nosso talento. Na verdade, foi isso que aconteceu. Mas entendo isso que você fala. Ao mesmo tempo, tem a relação das duas [da personagem Margherit e a Pérola, psicóloga diretora da Febem vivida por Malu Galli] que é fundamental no filme. Em nenhum momento ele se propõe em fazer uma defesa de que crianças de rua devem ser levadas pra casa, como a Margherit faz. Isso não existe.

O filme tem duas cenas “editoriais”. Uma é quando o personagem do Chico Diaz diz “o que importa é a história”; para mim, é isso, o que importa é a história. A segunda é quando a Pérola e a Margherit estão fumando um cigarro. É a história de duas amigas, ambas especialistas no que fazem, cada uma defendendo seu lado e nenhuma das duas tem razão. No meio, elas percebem isso e preferem ficar em silêncio. Não achamos a solução para menores abandonados até hoje e adoraria que esse debate apareça. Se o filme servir para que a educação seja verdadeiramente debatida, acho ótimo. Não tenho experiência nenhuma para falar nisso, mas adoraria que acontecesse.

O apoio da Unesco é fundamental nisso. Fizemos duas sessões em espaços Criança Esperança e eles mostraram uma relação muito interessante, completamente diferente das outras sessões que fizemos. Quando a gente assiste ao filme, é pela ótica dela [Margherit]; quando vamos a uma comunidade, eles assistem pela ótica dele [Roberto Carlos]. O filme percorre o caminho do humor, seguindo também pelo drama, e muitas vezes as risadas se invertem. Por exemplo, a cena do estupro, que pra gente é forte, pra eles não é nada, é algo que está no dia-a-dia deles. São reações bastante diferentes. E quero que role mais sessões assim, por mim passava o filme em praça pública. Quando a gente parar de colocar a economia em primeiro plano e colocar a educação, não precisaremos mais falar de economia; educados, temos uma economia melhor.

O Contador de Histórias traz uma história dura, porém trabalhada principalmente por meio de uma abordagem mais lúdica. Como foi trabalhar num roteiro assim e por que essa escolha? No processo, você teve vontade de pedir ajuda do Roberto na hora de contar essa história?
Como nos baseamos no jeito que ele conta as histórias, o filme ficou fiel à sua narrativa. O Roberto só é um contador de histórias hoje porque ele precisou usar a fantasia para aceitar a própria realidade. Tudo que ele passou, ele conta fantasiando. Ele pode contar a maior tragédia, mas mesmo assim você ri. Com o tempo, ele foi se abrilhantando nisso e era o que eu queria contar no filme. Ele foi usando a fantasia para a aceitação da própria história e nisso ele virou craque. E é lindo de vê-lo contando histórias.

Você optou por esse lado “vitória do homem”...
Minha decisão foi fazer um filme de amor. Esse documentário que está acontecendo já foi feito, em Pixote – A Lei do Mais Fraco, Cidade de Deus, enfim. Essa opção já foi feita. Neste sentindo, O Contador de Histórias é contracorrente. Não estou contra estes filmes, os admiro, mas não me interessava discutir a Febem, precisava falar dela para o entendimento do que aconteceu com o Roberto Carlos, mas minha busca maior era falar do comprometimento [entre ele e Margherit], essa disponibilidade de duas pessoas absolutamente estranhas uma a outra que de repente têm suas vidas transformadas uma pela outra. Ela entrou para fazer uma pesquisa e saiu de lá completamente transformada.

Também conversamos com Roberto Carlos Ramos.