Manfredo Caldas (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Celso Sabadin

Estrelado por Luiz Carlos Vasconcellos, o belo e intrigante documentário O Romance do Vaqueiro Voador, do cineasta paraibano Manfredo Caldas, faz uma denúncia contra as péssimas condições de trabalho dos operários que construíram Brasília, na virada dos anos 50, ao mesmo tempo em que desenvolve uma linguagem repleta de simbologia e poesia raramente vista no cinema brasileiro dos últimos anos. O diretor conversou com o Cineclick. Confira:

O Romance do Vaqueiro Voador tem um estilo todo próprio, metade documental, metade poesia. Seria o precursor de um "documentário poético" ou algo no gênero? Como surgiu a idéia?
Quando conheci o poema de autoria de João Bosco, foi amor à primeira vista. O Vladimir Carvalho me falou que o Bosco, quando assistiu ao filme Brasília, Segundo Feldman, ficou tão impressionado que escreveu o poema O Romance do Vaqueiro Voador. Folheando o livro sobre o impacto de um visual riquíssimo (fotos, xilogravuras, a diagramação do texto), senti que ali estava um filme. E o que era filme virou livro e depois voltou a ser cinema. Daí a linguagem metalingüística assumida. Daí, o próprio livro que está sendo adaptado para o cinema ser incorporado como elemento de cena. Naturalmente a narrativa desse filme incorpora todos os elementos da cultura nordestina, de certa forma já transposta para o contexto da Capital Federal. Seria muita pretensão minha ser o precursor do cinema poético. Apenas resolvi experimentar tomando partido desse caldeirão cultural que é Brasília. O personagem é individual e coletivo ao mesmo tempo. Tentei uma viagem no universo mítico do nordestino e me chagando a ponto de me expor completamente.

Você, como nordestino (paraibano) radicado em Brasília, identificou-se com a figura do Candango? Há quanto tempo você está em Brasília?
Brasília esta no imaginário de qualquer pessoa. Eu, ainda jovem, fiquei muito impressionado com a construção de uma cidade inteira e do jeito como foi feito. A frase "50 anos em 5" nunca saiu da cabeça do adolescente que vivia na Paraíba. Depois que cheguei em Brasília, foi um fascínio só. Não só pela sua arquitetura como também pelo seu povo, composto na grande maioria por nordestinos. Então foi muito fácil uma certa identificação. Até que em 1994 venho morar definitivamente em Brasília. Talvez por isso eu me exponha por inteiro no filme.

Este é o seu terceiro longa, numa carreira de mais de 20 anos de curtas, médias e documentários. Mesmo depois de tanto tempo, ser cineasta no Brasil ainda é uma aventura?
O meu primeiro longa foi Uma Questão de Terra, documentário sobre os temas agrários e violência o campo, realizado entre 1983 e 1988. Este filme foi consagrado no Festival de Brasília, onde conquistou quatro prêmios: Melhor Filme, Direção, Roteiro e Música Original de Marcus Vinícius, o mesmo compositor de O Romance do Vaqueiro Voador e outros curtas meus. Recebeu a Margarida de Prata em 1989.

Em 2005, concluí a montagem de outro longa em processo digital, um documentário sobre uma comunidade quilombola aqui no interior de Goiás. Chama-se Kalunga, Um Povo do Cerrado. No Brasil, existe uma cinematografia que anda sobrevive com o estoicismo de seus realizadores. Sempre que se inicia um novo projeto, é como se fosse o primeiro da sua vida. O que você fez antes não significa absolutamente crédito para que e possa dar continuidade à sua produção. Ou seja, sempre estamos partindo da estaca zero.

Como foi a escolha do Luiz Carlos Vasconcellos para o papel principal do filme? Havia outros em mente?
Não foi difícil escolher o ator para ser o Vaqueiro Voador. Luiz Carlos, além de ser um extraordinário, é também um grande amigo. Nos conhecemos ainda em João Pessoa, há muito tempo. Nunca tínhamos trabalhado juntos e a oportunidade chegou quando resolvi fazer este filme. O personagem é talhado pra ele, não podia ser outro ator. Inclusive eu falo isso no filme: "Quando li o poema, eu pensei na imagem de Luiz Carlos".

Quais seus próximos projetos?
Ainda não cheguei a definir o meu próximo projeto. Posso adiantar apenas que será outro documentário dentro da mesma linha deste, só que inteiramente rodado na Paraíba.