Marc Webb (Exclusivo)

05/11/2009 17h23

Por Heitor Augusto



















Aos 34 anos, Marc Webb já assinou a direção de mais de cem videoclipes. Depois de uma jornada que começou em 1996 ao dirigir My Star, da banda The Shame Idols, o norte-americano estreia em um longa metragem, (500) Dias com Ela.

Nesta entrevista exclusiva ao Cineclick, concedida no Rio de Janeiro durante estadia para prestigiar o festival de cinema do local, Webb especialmente da sua motivação em fazer um filme sobre um garoto que se apaixona por uma menina que não acredita no amor. “O filme lida com a maneira que somos ensinados a ver o amor: vai haver só uma pessoa e, à medida que ela aparece, todos os seus problemas vão sumir”. Leia a íntegra da conversa:

Você dirigiu cerca de cem videoclipes. Como você fez a transição para o cinema? O que aconteceu no meio do caminho?
Eu sempre quis fazer um filme! Muitos diretores de videoclipes fizeram a transição para o cinema. Então, peguei um agente, comecei a ler roteiros. Li o de (500) Dias com Ela e me lembro de ter pensado “é este”...

Nenhuma outra história tinha te chamado a atenção antes?
Ah, teve outros roteiros, em especial Os Estranhos. Eu tentei ele, mas não me contrataram. Talvez tiveram outras duas histórias, mas nada que despertasse minha paixão. Demorou muito para me contrataram pra dirigir (500) Dias com Ela, um longo processo de campanha para conseguir o trabalho, depois outro ano para desenvolver o filme. Mais ou menos 14 meses.

O desfecho do filme não é nem traz extremo conforto ao espectador ou o joga no limbo do desespero. Mérito seu, como diretor, ou do roteiro?
Do roteiro! Só mudei um pouco a narração, mas a essência das duas últimas cenas é a mesma, e isso eu me lembro muito que, na hora que li o roteiro, achei que era o jeito certo de terminar.

Há uma série de bandas e canções citadas durante o filme. Você trabalhou com todas os grupos que você colocou na trilha?
Algumas canções já estavam no próprio roteiro, outras são de músicos com os quais eu já trabalhei. Por exemplo, nos créditos de abertura e na sequência realidade e expectativa, tem Regina Spektor [canções Us e Hero], e eu fiz vídeos para ela. O resto tem músicos que eu encontrei pelo caminho, uma colagem de músicas em eras diferentes.

O que eu queria mesmo fazer era um filme pop, o que, nos Estados Unidos, é uma palavra, digamos, feia. Pop, como um gênero, já foi imaginado e subvertido diversas vezes, tornou-se algo normal, trivial. A música teria de ser acessível e convidativa, mas também informar e completar a cena. Há um significado das letras.

Engraçado, porque no Brasil, pop não é necessariamente um problema...
Nos Estados Unidos é! As pessoas se acham legais demais para gostar de algo pop. Acho que na Europa e América Latina é algo diferente, a música é algo com o qual você pode dançar. Queria isso no filme: algo que te acompanhasse na dança. Engraçado, mas verdadeiro.

Há uma dicotomia no seu personagem, Tom, entre como ele gostaria que fosse um romance e como acontece, de fato. Esse é o elemento mais legal do filme, como você o desenvolveu?
Cara, é uma baita questão! É o tema do filme, que lida principalmente com a maneira que somos ensinados a ver o amor: vai haver só uma pessoa e, à media que ela aparece, todos os seus problemas vão sumir. Você vai conhecê-la e tudo vai dar certo, ela será interessante, inteligente, criativa. É uma mentalidade extremamente perigosa, porque é preguiçoso. Amor é responsabilidade, o que não o torna menos romântico.

Tom espera que a sua paixão simplesmente caia no colo e isso é uma coisa de garotos. No começo do filme, ele tem medo de convidá-la para sair. Acho que no fim do filme, ele passou por experiências quanto às suas expectativas, ele já consegue. Cresceu. Queria dar esperanças, mas não ser doce demais. Mostrar que se trata apenas de um capítulo dessa história, ela vai continuar.

Ou seja, você queria fazer um filme anti-clichê?
Não era anti nada. Pessoas tem me criticado porque fiz um filme que se pretende a subverter o gênero ou o amor e elas se surpreendem com um final que dá esperanças. Isso é besteira! Estamos rodeados de amor por todos os cantos. A ideia era tentar algo autêntico, esperançoso e um pouco mais real. Não buscava realidade, mas a verdade do filme.

Novamente uma pergunta relacionada ao roteiro: a história de Tom e Summer não é contada de maneira linear, em uma cena estamos no dia 59, na próxima vemos o dia 8...
Isso já estava previsto no roteiro, afinal, quando reconstruímos uma relação na nossa cabeça, não nos lembramos de maneira linear, né? Seja em relação às lembranças de uma relação, época da escola, uma batalha... criamos o signifcado comparando momentos opostos.

No filme é assim: em uma cena, ele conta uma piada que funciona. Tempos depois, a mesma piada não provoca risos em Summer, o que aconteceu no meio do caminho? O divertido em fazer um filme com essa estrutura é convidar o espectador a dividir essa emoção.

A sequência mais comentada do filme é sobre a viagem, em preto e branco, que Tom faz por filmes de arte, como a reprodução do xadrez com a morte de O Sétimo Selo. Como surgiu aquilo?
Bom, tem uma sequência no roteiro que traz Tom tentando superar a separação de Summer, uma espécie de “cinco passos de auto-ajuda”. Não conseguíamos encontrar uma saída sem ficar bobo. Foi uma coisa que encontrei junto com os roteiristas, de retomar o nosso sentimento de procurar significado nesses filmes. Lembro de quando assisti a O Sétimo Selo, quando tinha uns 21 anos, aluguei a fita, e fiquei impressionado com a capacidade de me conectar com um filme feito tantas décadas atrás.

Filmar em preto e branco foi divertido, vestir aquelas roupas...mas precisava funcionar na trama, fugir do tom indulgente aos nossos personagens. Queríamos nos expressar, sem nos levarmos muito a sério.

E o próximo filme? Algo em mente após (500) Dias com Ela?
Não sei, algo mais masculino, com mais músculo... Entende?. Não. É difícil de definir, não é um filme de ação, algo mais agressivo. Existem vários filmes agressivos, como Cidade de Deus, mas que não são de ação.