Marco Altberg

25/05/2009 17h40

Por Celso Sabadin

Marco Altberg começou a trabalhar em cinema aos 16 anos; foi montador, roteirista, continuísta, diretor de produção e produtor executivo em vários filmes antes de realizar seus primeiros longas-metragens, Prova de Fogo (1980). Em 1986, produziu e dirigiu Fonte da Saudade, inspirado na obra Trilogia do Assombro, de Helena Jobim, com trilha sonora de Tom Jobim; o trabalho recebeu os prêmios de Melhor Música e Som no Festival de Gramado, além de Direção e Roteiro no Festival de Brasília. Em 2007, voltou à produção e direção de cinema com o documentário Painair do Brasil. Ele conversou com o Cineclick sobre este longa-metragem. Confira:

Para toda uma geração, Panair é apenas uma música do Milton Nascimento. Como surgiu a idéia de levantar este tema?
Na verdade, foi o tema que me pegou da seguinte maneira: em 1997, um amigo levou à minha produtora uma moça (Maiza Figueira de Mello) que queria fazer um filme sobre a Panair do Brasil. Ela era neta do principal acionista da empresa, Celso da Rocha Miranda. Bom, a gente acabou se casando, tivemos três filhos e só depois de muitos anos o filme ficou pronto. Interessei-me pelo tema e aprendi muito nesse processo. Eu também pouco conhecia dessa incrível história de injustiça.

O filme traz imagens preciosas da época. Como foi a pesquisa?
A Maiza já tinha participado da edição de um livro de arte sobre a Panair, para o qual havia sido realizada uma extensa pesquisa envolvendo documentos, fotos, textos. A partir dessa pesquisa, ampliamos ainda mais a busca de imagens para o filme, que por sinal foi realizada pelas mesmas pesquisadoras - Marcia Ismério e Nair Palhano.
Ao longo destes anos, fomos registrando depoimentos em vídeo que serviram de pesquisa e muitos deles foram utilizados no filme. Algumas das pessoas entrevistadas vieram a falecer antes do filme ter ficado pronto. Muitas das imagens já eram conhecidas da pesquisa para o livro e outras foram encontradas no processo de realização do filme.

No filme, fica claro que a empresa foi prejudicada pela ditadura militar da época, mas não conta exatamente os motivos pelos quais isto aconteceu. Você poderia especificar mais?
Optamos por não intervir em nada além do que os depoimentos indicam. A narração em off (na voz de Paulo Betti) é pontual e informativa, à exceção da interpretação da crônica do Drummond para o Jornal do Brasil, Leilão do Ar. Acho que o filme indica claramente através da edição dos depoimentos as circunstancias do fechamento da Panair pelo regime militar. Se você perguntar qual a motivação por trás dessa perseguição, diria que a Panair representava o poder civil que não apoiou o golpe militar que deu origem a ditadura a partir de 64. Mais que isso, os acionistas majoritários da empresa - Celso da Rocha Miranda e Wallace Simonsem - eram, respectivamente, ligados ao Juscelino Kubitschek e ao Jango e havia a possibilidade do JK se candidatar em 65, antes dos Atos Institucionais. Isso tudo associado às relações da Varig com o então Ministro da Aeronáutica, Brigadeiro Eduardo Gomes. Com a ordem constitucional suspensa no país, o caminho ficou livre para a perseguição a esses empresários. Perseguição que, por sinal não se limitou à Panair, mas às outras empresas do grupo.

E toda esta trajetória acabou agora indo parar no cinema...
Na verdade, este filme foi concebido originalmente para TV, porém devido ao interesse que o tema suscita, ele foi selecionado para o Festival do Rio do ano passado e a distribuidora de filmes brasileiros Downtown se interessou em distribuir o documentário no circuito digital.