Marcos Bernstein (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Roberto Guerra

Marcos Bernstein, co-roteirista do premiado Central do Brasil, marca sua estréia como diretor com O Outro Lado da Rua, que traz Fernanda Montenegro e Raul Cortez como protagonistas. O filme, que entra em cartaz em circuito nacional em 28 de maio, ganhou vários prêmios, entre eles o de Melhor Filme da Sessão Panorama, na Mostra Paralela do Festival de Berlim, e o de Melhor Produção do Cine PE deste ano.

Bernstein deu início à carreira como roteirista de cinema há 10 anos, com o filme Terra Estrangeira, de Walter Salles e Daniela Thomas. Em 1998, foi co-autor do roteiro de Central do Brasil, dirigido por Salles, que ganhou mais de 50 prêmios internacionais. Ele também é o responsável, ao lado de Melanie Dimantas, pelo roteiro de O Outro Lado da Rua.

Como o Marcos Bernstein roteirista virou diretor?
Eu já pensava em dirigir quando comecei a fazer cinema. Queria, de alguma maneira, virar um profissional da área. Daí, me descobri roteirista, adoro escrever roteiros, mas sempre tive o desejo de participar de todo o processo. Sabia que, qualquer dia, teria de fazer isso para saber se era uma visão de fora ou se era realmente fascinante como pensava. Fui, então, me desenvolvendo como roteirista até o momento que achasse certo, tivesse a história certa.

O Outro Lado da Rua é um drama que flerta sutilmente com o humor e o thriller. Este era o tom imaginado por você desde o início?
Antes de começarmos a filmar, eu, a Fernanda e o Raul fizemos muitas leituras do roteiro, mas sem interpretar. Lemos e discutimos os personagens e as cenas. Quando partimos para os ensaios, buscamos vários caminhos, fomos amadurecendo nossa relação e achando um tom para o filme. Por exemplo, poderíamos ter muito mais humor. Mas queria um drama com humor e não uma comédia com ares dramáticos. Neste processo de amadurecimento, você começa a ter uma visão do todo. Se vai funcionar ou não você não sabe. Aos poucos, fomos chegando a uma progressão, que era a progressão que, no fundo, estava buscando.

A Fernanda Montenegro disse que o roteiro de O Outro Lado da Rua chamou sua atenção por fugir da tradicional retórica cinematográfica de explicar tudo detalhadamente. Você é contrário a este estilo de escrever roteiros?
Depende, porque tem filmes que são bem explicados e legais. É que quando fiz este roteiro, estava um pouco cansado desse negócio de causa e conseqüência. É difícil generalizar, porque depende da abordagem que você faz. Algo que me cansa um pouco hoje em dia é esta coisa "Freud-mal-analisada". Nesta linha, a Regina (personagem de Fernanda Montenegro) seria irônica porque aconteceu isso ou aquilo no passado. Não, a Regina é irônica porque ela é irônica! Nós somos como somos, não precisa ter uma origem, uma explicação. Então, me cansa essa coisa de ficar explicando o passado para poder entender o futuro. Isso eu tentei evitar um pouco; tentei dar um pouco da história de vida, mas a história de vida nem sempre é causa, é também conseqüência do nosso jeito de ser. Esta era a proposta: um filme de impressão, de percepção, que é o todo subjetivo na narrativa.

E como foi filmar no dia-a-dia das movimentadas ruas de Copacabana?
Nas cinco semanas que trabalhamos em Copacabana, tivemos muitos problemas com o barulho. Chegamos a fechar ruas para gravar os diálogos porque todo o som é direto. Foi bastante angustiante gravar em Copacabana de certa maneira. No filme, você vê que não evito o exterior nem a confusão. O filme é sempre filmado ao longo das ruas e nunca contra as paredes. Então, tivemos bastante trabalho para fechar ruas e botar figurantes, mas contamos com o apoio da Companhia de Engenharia de Tráfego da prefeitura.

O tema principal de O Outro Lado da Rua é a solidão?
Acho que a solidão é o ponto de partida do filme. São dois personagens solitários que se encontram numa situação das mais incomuns. A solidão embebeda os personagens, está ali dentro deles, mas acho que o tema principal do filme é a possibilidade de acontecer encontros em circunstâncias poucos usuais, como num bairro que não aproxima as pessoas. Este encontro pode resultar num final triste ou feliz. Se você é mais otimista, vai ver o encontro dos dois como um encontro feliz. Se você é um pouco mais descrente, vai enxergar apenas uma faísca que terminará numa solidão final. Eu assumo o risco de que alguns espectadores vão sair sem ter uma explicação precisa, apesar de eu não ter deixado o final aberto de maneira nenhuma. Talvez o filme levante algumas questões que as pessoas estejam acostumadas a verem conduzidas nos cinemas. O espectador pode se sentir desamparado por não ter sido conduzido nesse filme. Mas isso, no fundo, é bom.