Marcos Jorge (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

O cineasta paranaense Marcos Jorge estreou na direção de uma produção em ficção em 2002: o curta-metragem O Encontro é um dos curtas mais premiados no Brasil. Infinitamente Maio, de 2003, recebeu 17 prêmios em festivais nacionais e, em 2004, Jorge realizou o documentário O Ateliê de Luzia.

Estômago é o primeiro longa de ficção dirigido pelo diretor curitibano. A comédia de humor negro recebeu quatro prêmios no último Festival do Rio - Melhor Direção, Ator (João Miguel), Menção Especial ao coadjuvante Babu Santana e Melhor Filme (público). Em São Paulo para promover o longa na 31ª Mostra Internacional de Cinema, o diretor conversou com o Cineclick. Confira:

Como foi a concepção da história do filme?
O roteiro de Estômago foi inspirado no conto Presos Pelo Estômago, do Lusa Silvestre, e narra a história de alguém que cozinha na prisão. Primeiramente, pensei em transformar esse conto num curta-metragem por que o texto é muito breve. Quando surgiu um concurso para inscrição de roteiros em longa, trabalhamos e escrevemos todo o roteiro em pouco mais de um mês. Esse período foi muito rico, pois concebemos toda a história fora da cela, que não existia no conto. Até o final do filme é totalmente diferente. Isso foi três anos atrás. Depois de pronta a primeira versão do roteiro, fomos elaborando-o até durante os ensaios com os atores.

Estômago é resultado de uma série de obsessões minhas, como a parte italiana, que veio de uma época que morei na Itália. Quando falávamos de comida, meu conhecimento era um pouco restrito, levando quase sempre à culinária italiana. A Íria nasceu como um personagem feminino com referências ao cinema italiano. Foi muito interessante e natural.

Já no princípio do roteiro, já queria misturar os dois momentos do personagem, confundindo um pouco e fazendo com que os períodos conversassem entre si também para falar da evolução do protagonista. Ele é um cara que chega na cidade diferente do que chega na cela e eu queria que conversassem entre si. Ele é prisioneiro em ambas as situações; a única liberdade que ele experimenta é a amorosa, o romantismo dele com a Íria, mas é um prisioneiro, fora ou dentro da cela. Por isso, escolhi realizar o filme de uma maneira muito caustrofóbica, quase sempre de noite...

Você pensou em ter João Miguel como protagonista desde o início?
Inicialmente não, porque pensei num nordestino um pouquinho mais estereotipado, mas depois abandonei essa idéia e comecei a pensar em outros atores. Foi quando surgiu a idéia de chamar o João Miguel não somente por causa de Cinema, Aspirinas e Urubus, mas, sobretudo, por uma pontinha que ele faz em Cidade Baixa. Quando vi aquela cena, percebi que havia um grande ator ali, que pode viver o que quiser. Resolvi convidá-lo e, sem dúvidas, ele trouxe uma evolução no roteiro. Trabalhar com ele foi muito prazeroso. Costumo muito ensaiar e isso faz o roteiro evoluir.

João Miguel é o mais conhecido no elenco de Estômago. Como você selecionou o restante do elenco?
Há um ano, quando filmamos, ele era mais conhecido do público cult, que acompanha o cinema brasileiro. Inclusive, a escolha de Cinema, Aspirinas e Urubus para ser o representante brasileiro Oscar ocorreu durante os ensaios de Estômago. Desde o início, queria que os personagens tivessem certa "virgindade" em relação ao público. Quando o João Miguel entrou no filme, fiquei mais convencido que deveria trabalhar com atores desconhecidos. Depois de ter feito um casting muito grande pelo Brasil inteiro, acabei apostando numa atriz de teatro, a Fabiula Nascimento.

O cinema brasileiro tem esse problema dos atores de TV ficarem muito marcados junto ao público, o que não ocorre no cinema europeu, por exemplo. A Catherine Deneuve está somente nas telas, ela não está todos os dias na sua casa. O João não tinha esse tipo de antecedentes, com exceção do Paulo Miklos, que já havia feito um bandido no cinema. Aliás, essa cena é uma homenagem a um certo tipo de cinema, especialmente O Invasor, do Beto Brant. Quando escrevi o roteiro, logo pensei no Paulo Miklos por essa homenagem. Os outros foram se agregando ao longo da produção.

Em nenhum momento do filme se deixa claro de onde o protagonista vem ou em qual cidade ele está. Cita-se Ceará e Paraíba, é possível reconhecermos locais de São Paulo, mas nunca fica explícito. Isso foi proposital?
Eu queria brincar com o preconceito crítico que se tem no Sul em relação aos nordestinos. No filme, isso ocorre principalmente com os dois personagens que mais exploram Nonato, Bujiú (Babu Santana) e o Giovanni (Carlo Briani), tratam ele indiferentemente de suas origem, chamando de "paraíba", cearense, "Parmalat"... É preconceito puro. Para os sulistas, pouco importa a origem da pessoa, sobretudo que ele venha do Nordeste, pobre e fácil de ser explorado. Isso também evoluiu com a chegada de João Miguel, trabalhamos essa falta de identificação de seu personagem para que a história adquirisse um tom de fábula. Não se sabe de seu passado - muito embora tenhamos ensaiado cenas que mostram o que teria acontecido antes dele chegar na cidade. Escolhi misturar externas em São Paulo e Curitiba justamente para que ninguém reconhecesse os locais; filmei de uma maneira a não estabelecer com clareza a procedência geográfica. É a história de um homem miserável que vive sua história numa grande metrópole no Sul do Brasil. Mas ele poderia ser acreano, amazonense... Ele carrega uma ingenuidade típica de uma pessoa que ainda enfrentou a cidade grande e ele aprende a enfrentar. Depois que comete seu crime, ele percebe a realidade numa cidade grande de "comer ou ser devorado".

Claro que São Paulo é muito importante para mim como referência dessa mistura. Por isso, queria muito que, quando ele chega na metrópole, mostrasse partes na cidade. A cultura paulista é isso, é a reunião de elementos vindos do país todo, é aceitar e trabalhar com a riqueza desses encontros.

Como você trabalhou os elementos estéticos para diferenciar as tramas que caminham paralelamente em Estômago?
Em nenhum momento, quis deixar muito claro por meio da fotografia a passagem entre os momentos. Queria que o espectador percebesse que são dois momentos diferentes da mesma história, mas que demorasse um tempo para descobrir o que vinha antes e depois. Isso está no projeto do filme.

Estômago é feito de duas histórias que correm paralelas. Queria duas linguagens distintas, mas que não coincidissem. Ou seja, uma linguagem muito crua e realista da vida prática do Nonato e outro aspecto, quando ele entra na cozinha e mostra seu talento. Quando ele cozinha, sai desse mundo cruel e domina a situação. De fato, queria um registro diferente da preparação da comida em si. Por isso, o estilo da música também muda. No momento em que Nonato põe a mão na massa de pastel, descobre que sabe fazer isso; por aquilo, ele poderá ser reconhecido como ser humano. É como se começasse um filme diferente. Quando Nonato encanta com a comida, a música nos recoloca nesse mundo mágico, encantado pelo personagem.

Apesar dos alimentos serem preparados em condições higiênicas precárias, queria que meu filme causasse apetite no espectador. É o primeiro filme que fala da baixíssima gastronomia: o feijão, a coxinha, o pastel... Não há filmes que falam das comidas que as pessoas comem todos os dias.

Quais eram suas expectativas para a primeira exibição em público do filme, realizada no último Festival do Rio? Como foi a recepção dos espectadores?
Quando se trabalha muito tempo num filme, perde-se a noção e as referências. Você chega a odiá-lo por que, a partir de certo momento, só se vê os defeitos, as arestas que não foram possíveis serem acertadas, não mais as qualidades. De repente, acontece essa coisa mágica de apresentar um filme para o público e ele responder com uma energia incrível. No Rio de Janeiro, no momento da projeção, tive a sensação maravilhosa de ter o público do meu lado, curtindo o que fiz e rindo nos momentos que imaginei que ririam; também com aquele sorriso amarelo que não é bem uma gargalhada, mas sim uma auto-ironia; sobretudo se emocionando ao levar a pancada final. Já ouvi até palavrões quando chega na cena final (risos). Por que este filme também deve bater o recorde panamericano de palavrões no cinema brasileiro desde a pornochanchada! Quando o Nonato se mete a falar, ele tenta explicar algo que não sabe e inventa histórias sobre algo que ele havia ouvido falar.

Francamente, estava incerto em relação ao Festival do Rio. Tinha certeza do trabalho que havia feito; depois de ver o filme milhões de vezes, cheguei num processo de saturação. A surpresa maior foi ter agradado ao público e crítica, o que foi muito legal. O projeto tem diversas leituras e tem um roteiro inteligente, sem querer contar vantagem. Descobri que ele realmente funciona.

Todas as críticas que recebi na época captaram muito bem o espírito da produção, citando referências à comédia italiana. Hoje mesmo, um crítico comparou uma das cenas com O Cozinheiro, O Ladrão, Sua Mulher e o Amante (1989), de Peter Greenaway. Essa seqüência é uma homenagem mesmo ao cinema do diretor, que adoro - sobretudo nessa primeira parte de sua carreira -, e esse filme é referência para mim em se tratando de longas sobre comida. A comparação me deixou lisonjeado. As críticas captam sutilezas que normalmente o público menos cinéfilo não percebe.

É muito difícil fazer coisas novas, já se falou quase sobre tudo, mas acredito que a originalidade deste filme está principalmente na história.

Você fala bastante sobre suas referências em relação ao cinema internacional. Quais você apontaria entre filmes brasileiros?
Bem, falei de O Invasor, né? Quase Dois Irmãos também merece ser citado. Aliás, foi por este filme que descobri o Babu Santana. Quando o vi no filme, notei que ele tinha tudo para interpretar um grande personagem. Quando o testei, o Babu ganhou o personagem automaticamente.

Estômago tem muitas referências do cinema europeu, principalmente italiano, principalmente no modo que lida com a comédia, fazendo com que as pessoas reflitam sobre sua própria existência por meio do riso. Considero que ele é uma arma extremamente aguda na discussão artística da condição humana. Isso fica muito claro na comédia italiana, principalmente dos anos 70. A pornochanchada também é uma referência muito clara no meu filme, nos palavrões, o modo como os personagens se relacionam... A Íria mesmo é ao mesmo tempo "felliniana" e fruto da pornochanchada, muito brasileira. Eu sou assim. Morei muito tempo na Europa, mas sou muito brasileiro: moro em Curitiba e São Paulo; semana passada, filmei em Belo Horizonte, Porto Alegre e São Paulo num prazo de dez dias. Meu pai era caminhoneiro e rodei o Brasil na boleia de um caminhão. Sou profundamente brasileiro, faço o que a cozinha faz: misturo elementos de maneira harmônica de uma forma profundamente brasileira. Tanto que os italianos que viram o filme reconhecem as referências do cinema da Itália e também da cultura brasileira.