Marcos Palmeira

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

Marcos Palmeira é um dos atores mais populares na TV brasileira, mas, em cinema, seu rosto tem sido menos mostrado nos filmes atuais, apesar de ter sido premiado no Festival de Gramado em 1988 (Dedé Mamata) e 1990 (Barrela, Escoa do Crime). O Homem que Desafiou o Diabo marca sua volta às telonas brasileiras como Ojuara, um personagem com pinta de herói e a fanfarronice típica do homem brasileiro. Ele conversou com jornalistas sobre este desafio. Confira:

Como era o Zé Araújo/ Ojuara que você imaginava no momento em que leu o roteiro?
O roteiro deixava muito claro a mente daquele personagem, minha dúvida era como compor o personagem. Na primeira leitura, logo decidi que queria trabalhar no filme; na segunda, pensei o que fazer. Esta é a primeira vez que filmo uma produção na qual estou em 100% das cenas. Se em cinco minutos o espectador não torce pelo personagem, o filme está fadado ao fracasso.

Sempre quis que ele tivesse barba no final e a primeira coisa que me salvou foi que deixei a barba crescer antes de me encontrar com o Barretão (Luiz Carlos Barreto) e a Lucy (Barreto) no show. Logo eles disseram que aquele visual era do Ojuara; sugeri, então, que começássemos filmando as partes dele. Eles acharam que isso poderia ocasionar problemas na produção, mas "nego" sempre "aperta" pra resolver isso. Imagina se eu fizesse o filme inteiro com barba postiça, aquele verniz que cola naquele calor... Eu estaria ferrado! Isso foi uma das coisas que me ajudou. Outra foi de partir de uma simplicidade.

Esse personagem tem tanta coisa e, se eu quisesse representar tudo que ele tem, viraria um monstro. Busquei a alma desse cara: ele é simples, bem-humorado, apaixonado pelas mulheres; por mais que tenha conceitos machistas, não é um machão, é um homem sensível que sé fica com uma mulher - mesmo prostituta - se ela quiser. A relação dele com as putas não é baseada no poder; elas são as mulheres mais próximas a ele. Então, fui pela simplicidade e foi isso que me salvou. Temos a tendência de representar tudo que ele é e quase caí nesta cilada, mas basta contar sua história.

Mantive-me distante do personagem para poder contar sua história. Fiquei bastante feliz com o resultado, fiquei feliz ao me ver no filme. Quando fiz, não tive preocupação, mas, antes de ver, fiquei pensando se ele pareceria o João Pedro, de Renascer (novela), o Tadeu do Pantanal (novela) e, na verdade, não tem nada a ver com nenhum deles. Pude me soltar como ator. Pelo Moacyr já me conhecer há muitos anos, ele já conhece minha verve cômica naturalmente. Minha carreira foi enveredando para outro lado, mais voltada aos personagens românticos. O Ojuara me permite fugir disso; ali não tem nada de galã, de heróico, no sentido da força da palavra. Ele é um herói porque acredita na força da vida, mas pessoas, é um libertário.

Normalmente, sou muito crítico, não gosto de nada que faço, sem falsa modéstia. Em geral, os atores tem isso; acho que todo mundo, até vocês, quando escrevem uma matéria., É isso que faz a gente crescer. Mas fiquei satisfeito com este filme. Foi rodado em cinco semanas quando precisaria de 12 por ser um épico, não dava para esperar muito. Acho que a gente conseguiu. Essas informações não estarão num manual na porta do cinema, o povo quer simplesmente ir ao cinema e se divertir, sem querer saber desses detalhes. Pelo tamanho, foi um dos filmes mais apertados que fiz; em tempo foi Dom (também de Moacyr Góes). O lúdico está ali, as brincadeiras, as fantasias... A participação do Helder (Vasconcelos) também é fantástica, ele faz um "cão miúdo" que foge do óbvio, é charmosinho com aquele olho e aquele chifrinho... Este é o filme mais autoral do Moacyr, foi quando entrou mais em contato com ele mesmo e com o cinema. Ele vem fazendo muitos filmes de encomenda; este também é, mas ele que construiu a história, é um universo dele e marca sua volta à terra natal.

Você acha que Ojuara está no inconsciente do homem brasileiro?
Acho que sim. Essa coisa da farra, festa, mulher... O sentido da nossa vida é festejar e procriar, os índios vivem disso: ou eles fazem festa, guerra ou procriam. Ojuara é um pouco assim, ou ele está brigando, festejando ou "trepando". É um pouco dessa coisa nordestina, o espírito nordestino é muito mais liberal do que o nosso, os sulistas. Eles falam palavrões na frente das crianças e nem por isso ela cresce sendo tarada ou algo assim. Aqui não, tudo é muito intelectualizado e às vezes se deixa o afeto de lado por causa disso.

Este filme é muito afetivo. Eu mesmo me emocionei em algumas passagens. Isso pra mim foi um bom termômetro, a produção tem tudo para pegar nessa veia de um filme de entretenimento, divertido. Mesmo que o espectador não saia da sessão falando sobre ele o tempo inteiro, vai dar uma vontade de tomar uma cachaça, uma cerveja, de ir a uma festa. O longa dá uma libertada; mesmo depois de algumas tragédias, o personagem ainda acredita que a vida continua, que ele vai chegar nesse paraíso que ele busca.

E é esse mais ou menos o espírito do brasileiro...
Sim. Vou fazer um filme no Sul em janeiro que chama Quase um Tango Argentino (dirigido por Sérgio Silva, com quem Palmeira trabalhou anteriormente em Anahy de Las Missiones, em 1997). É sobre um plantador de batatas e é exatamente esse seu espírito: o cara sofre e ele segue tendo esperanças; todos à sua volta também sofrem por ele, que segue acreditando que dará um jeito. O brasileiro tem essa capacidade. Sua história quase vira um dramalhão, só que ele consegue reverter isso.

Por que você ficou tanto tempo afastado do cinema (seu último filme lançado foi Dom)?
Eu não tinha tempo... Depois de Dom e O Homem que Desafiou o Diabo, também fiz um filme do Cláudio Torres, Largando o Escritório, que ainda não estreou. Parece que eu estava recusando tudo por falta de tempo e não é bem por aí, não sou tão convidado assim para fazer as coisas, mas fiz novela (Celebridade), especiais para a TV... É um pouco isso. Quando você se liberta um pouco da televisão, pode ter mais tempo para se dedicar a outras áreas, como cinema e teatro.

Leia também entrevista com o diretor Moacyr Góes e os produtores do filme, Lucy e Luiz Carlos Barreto e com as atrizes Fernanda Paes Leme e Livia Falcão.