Maria de Medeiros

07/08/2009 09h59

Por Angélica Bito

A primeira coisa que se repara em Maria de Medeiros (é seu sorriso largo, uma simpatia e doçura únicos. Ela observa tudo com seus grandes olhos castanhos esverdeados e sempre tem um sorriso pronto para as respostas. Assim como Margherit, sua personagem no longa brasileiro O Contador de Histórias, Maria é apaixonada pelo Brasil. Tanto que gravou um disco com canções de Chico Buarque, trabalhou com músicos brasileiros no seu segundo disco – que será lançado no começo de 2010 – e planeja dirigir um longa-metragem por aqui.

O Cineclick conversou com a atriz ao lado de outros jornalistas sobre essa paixão e, claro, O Contador de Histórias, longa dirigido por Luiz Villaça. Confira:

O que te atraiu no roteiro de O Contador de Histórias?
Achei o roteiro lindo, muito bem escrito, ri e chorei muito ao lê-lo, as mesmas emoções que acho que se tem quando o filme é visto.

O que te move a aceitar um roteiro?
Geralmente é nessa primeira leitura, é quando você está virgem para o projeto, a primeira impressão e a intuição jogam muito. Tem vezes que li roteiros dos quais gostei muito, mas logo percebi que não era para mim. Esse primeiro contato é determinante e, neste caso, fiquei maravilhada.

É um processo intuitivo?
Sim, penso que boa parte disso é intuição. Mas é engraçado porque, no início de nossa carreira de ator, sempre parte da gente isso de fazer ou não um filme mas, na medida em que o tempo vai passando, são os realizadores que sentem isso no ator. Cada vez sinto mais que são encontros, projetos como este não chegam em minhas mãos por acaso. Alguém já pensou em mim antes.

Você prefere os personagens que são mais próximos ou mais distantes de você?
Nunca pensei nessa questão. Parto do princípio que a personagem sempre é distante de mim e acaba sempre sendo próxima.

O Luiz Villaça comentou que a Margherit que você compôs é como é principalmente porque você mesma é uma estrangeira apaixonada pelo Brasil. Conte um pouco sobre essa sua paixão.
É verdade. Tenho uma relação muito antiga e fundamental com o Brasil que vem realmente de longe. Cresci na Áustria e voltei para Portugal com dez anos, na Revolução dos Cravos. Nessa época, descobri um novo mundo, meu próprio país e tudo que estava ligado à minha língua, inclusive o Brasil.

Com a Revolução dos Cravos, houve uma avalanche de cultura brasileira em Portugal também com a entrada das telenovelas, o que foi muito determinante para mim porque os atores brasileiros são os melhores do mundo e aprendi muito vendo telenovelas. A primeira que chegou a Portugal foi Gabriela e o contatos com esses atores – inclusive, Gabriela era recheado de atores extraordinários – fez com que eu os admirasse. Temos muito a ideia que os atores anglo-saxões são os melhores, inclusive na minha família, e de repente chegam os atores brasileiros com um nível absolutamente extraordinário, com a mesma intensidade dos ingleses, só que em nossa língua, o que foi muito fundamental na minha formação. Mesmo na França, as pessoas não entendem. Tive uma formação muito clássica, mas sempre falo que aprendi com os atores brasileiros.

Também foi nessa época que descobri que a melhor música do mundo, a brasileira, é na minha língua! São os melhores poetas – Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Vinícius de Moraes – e foi um deslumbramento descobrir a música brasileira, pois eu vinha de uma formação clássica, ouvindo Mozart, Beethoven, meu pai é músico clássico e vivia nesse meio em Viena. A música brasileira foi fundamental para mim, assim como os atores.

Quais detalhes te encantavam nos atores brasileiros?
A graça, a inteligência que você sente neles. São completamente entregues ao papel, ao mesmo tempo que tem um brilho no olhar, uma graça extraordinária. Sou péssima dando nomes, mas são muitos os que eu admiro, como Fernanda Montenegro, Marieta Severo, José Wilker...

Como essa sua relação com a cultura brasileira é vista em Portugal? Isso te cria algum problema?
Não porque, de alguma forma, isso também é uma homenagem a uma geração do país que cresceu com música brasileira. De alguma forma, meus amigos da minha geração se identificam da mesma forma com a música.

A Margherit não vive mais e não está tão vivida na memória do Roberto. Isso te deu mais liberdade para criá-la?
Sim, uma liberdade total. Deu para entender que havia pouco material sobre a personagem. Ela se tornou uma personagem da imaginação dele, o que me deu uma grande liberdade criativa.

Foi melhor?
Não sei, é uma dificuldade diferente. Mas, neste caso, a criamos completamente. O Luiz foi a Paris e foi quando construímos a personagem. Tem uma particularidade da Margherit que é uma homenagem a uma amiga, que está sempre a perder tudo, vive perdendo os óculos. Foi uma coisa que propus e está muito presente. Ontem (dia 3/8, na pré-estreia do longa em São Paulo) descobri o filme e achei bom que isso ficou.

O fato de trabalhar principalmente com um ator não-profissional acabou influenciando na composição da personagem?
Sim por conta da disponibilidade que eu teria de ter. Desde o início estava previsto que eu atuaria com uma criança que nunca havia atuado antes e sabia que ia ter de me adaptar. E eu adoro este trabalho! Me diverti também falando brasileiro com sotaque francês.

Você não participou da seleção dos atores, né? Quando você sentiu que já existia uma proximidade até para poder encenar mais livremente?
Há um processo que Saint-Exupery descreve em O Pequeno Príncipe, que é preciso sempre domesticar, ir seduzindo o outro e foi mais ou menos a mesma coisa. Gosto muito de trabalhar com crianças. É engraçado que na França os atores dizem que detestam trabalhar com crianças e animais (risos)! Mas é um exercício que sempre gosto, é uma bela aventura por esse processo recíproco de conquista, de domesticação. A disponibilidade das crianças é sempre muito bonita.

O que você gosta de fazer quando vem para o Brasil?
Fazer amigos é a melhor coisa de se fazer no Brasil! O Luiz e a Denise [Fraga] são algumas das pessoas mais maravilhosas que encontrei na minha vida, foi um encontro milagroso. Muito antes, existe essa profunda amizade pelo Leon Cakoff e a Renata [de Almeida] [diretores da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo], foi por causa deles que aprendi a amar São Paulo. E eu adoro São Paulo, para a perplexidade de algumas pessoas estrangeiras. Tenho muita paixão pela cidade graças também ao Leon e a Renata, que me fizeram descobri-la. Fico fascinada com a vida urbana, o dinamismo estritamente urbano que há nesta cidade, tão grande, com tanta gente. Curiosamente, há um grande civismo por aqui em comparação com a Europa. Lá, há tantas regras, tão antigas, que as pessoas esquecem da simplicidade que é ser cívico, poder comunicar umas com as outras. Com essa história de muitos códigos, as pessoas não se comunicam mais e em São Paulo, uma cidade que pode ser tão assustadora, sempre tem comunicação.

E essa sua relação com Brasil renderá novos frutos futuros?
Oxalá! Gravei um novo disco que só sairá em fevereiro na Europa. Tem nos presença brasileira, mas tem vários músicos daqui, o Bocato tocando trombone, o Edmundo Carneiro, um grande percursionista, e fizemos versão de uma música do Lenine. Também estou preparando um filme para dirigir no Brasil, mas não posso falar mais sobre ele. O roteiro está escrito sobre uma história brasileira que aconteceu nos anos 60, no Rio de Janeiro, e não vou atuar. Mais fica para nossa próxima conversa!

Também entrevistamos Roberto Carlos Ramos e o diretor Luiz Villaça.