Maria Luisa Mendonça (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

Maria Luisa Mendonça é intensa. Fala e ri alto, não tem medo de ser simpática (nem mesmo com os "temidos" jornalistas), olha nos olhos (mesmo usando óculos escuros). Sem pudores, mostra hematomas ganhados durante as cinco horas de encenação da peça Os Sete Afluentes do Rio Ota no final de semana anterior como uma forma de mostrar no corpo essa paixão pela atuação. A intensidade da atriz, no entanto, não chega perto da encontrada em Ana, personagem vivida por Maria Luisa no longa-metragem Jogo Subterrâneo. Sobre esse trabalho ela conversou com o Cineclick.

Você havia sido convidada para fazer testes para outro personagem. Por que, ao ler o roteiro, você preferiu Ana?
Primeiro, fiquei apaixonada pelo roteiro. Mas, mais do que isso, me apaixonei pela Ana. Disse ao Roberto que não poderia fazer o filme porque havia me apaixonado por outro personagem e não seria justo eu interpretar alguém querendo ser outra. Mas me ofereci, mesmo assim, para fazer um teste. Gostei muito desse mistério em volta da personagem, do espectador nunca saber exatamente quem ela é, e também o embate entre a dificuldade que ela tem em se relacionar com homens e o amor que começa a sentir por Martín. Todos esses elementos me instigaram em querer fazer essa personagem. Também estava me sentindo segura para trabalhar com um personagem sensual como a Ana, que tivesse essa dignidade que o filme tem. Senti-me muito acolhida por essa equipe e saber com quem eu estaria trabalhando também me deu vontade de estar nesse filme. Estava tudo certo.

Qual foi sua maior dificuldade para "entrar" no universo da Ana?
A maior dificuldade foi lidar com o fato da Ana não conseguir se envolver com um homem por conta do passado dela. Mesmo parecendo que a vida da Ana era boa, com um bom carro e um bom apartamento, ela ainda tinha a memória física perturbando. Criar essa atmosfera amarga e agressiva foi difícil.

Tem alguma coisa de Maria Luisa na Ana?
(depois de pensar um pouco) Não sei te dizer. As duas são mulheres.

Jogo Subterrâneo começa de forma a ser conduzido por regras e elas são quebradas co a chegada de Ana na vida de Martín. Você acha que a vida também é feita de regras quebradas a todo momento?
Claro, esse é um dos principais pontos que fizeram com que me apaixonasse pelo roteiro. Acho que o acaso acontece, sim. Inclusive, acredito muito em uma coisa que o Nietzsche* fala: "o conceito, a síntese, se esqueceu que também é metáfora". Então, essa coisa rígida não existe, a gente tenta ter o controle das coisas e isso é uma ilusão. É muito bacana você colocar um personagem que traça seus caminhos encontrando o caos falando "eu vou por outro caminho e, se você quiser, vem comigo". Isso fascina, você sair do próprio umbigo e ver que a vida é feita de porradas. Outro dia ouvi uma frase que amei: "o fundo do poço tem mola", e é exatamente isso. Você pode ir ao fundo, mas volta para a tona de outra maneira. A questão do acaso no filme é muito inteligente e isso me seduziu.

Quando você recebe um roteiro, uma proposta de trabalho, o que costuma te levar a aceitar?
"O que estou falando com isso aqui?" é minha pergunta para o diretor. Preciso entender o que quer o personagem e, também, o que quer dizer o filme. Depois é a equipe, quero estar em um time que eu acredito.

Você já conhecia o time de Jogo Subterrâneo?
Sim, o Lauro Escorel (diretor de fotografia), de quem sou fã, acho ele um excelente fotógrafo e pessoa. Isso sem contar que eu queria muito trabalhar com ele de novo (Escorel foi diretor de fotografia de Coração Iluminado, que tem Maria Luisa no elenco).

Como você define a Ana?
Não defino, ela é feita de camadas complexas. É uma personagem corajosa e honesta consigo mesma. Ela está em busca de um amor, do aconchego. Mas eu volto a lembrar de Nietzsche, não vou definir nada.

* Friedrich Wilhelm Nietzsche foi um filósofo que nasceu na Prússia em 1844. Morreu no último ano do século 18.