Maria Zilda (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Roberto Guerra

Minha Vida em Suas Mãos é fruto do projeto que a atriz Maria Zilda Bethlem amadureceu durante 19 anos e somente chegou às telas em 2000. O filme é centrado em dois personagens: Antonio (Caco Ciocler), músico frustrado e endividado que trabalha como vendedor de planos de saúde e tenta desesperadamente mudar de vida, e Júlia (Maria Zilda), uma professora universitária carente em busca de um grande amor. Em entrevista exclusiva, Maria Zilda conta como foi a experiência de conciliar as funções de atriz e produtora.

O que te chamou a atenção no roteiro de Minha Vida em Suas Mãos e por que o projeto demorou tanto a se concretizar?
O que mais chamou meu interesse no roteiro foi a personagem Júlia que eu achava que era um desafio. Porque eu gosto de personagens difíceis, não difíceis de interpretar, mas de cabeça complicada. Personagens que são muito lineares são muito fáceis de serem feitos, já personagens que têm mais dualidades, confusões mentais são mais gostosos de fazer. E outro motivo que me atraiu foi achar que faltavam filmes desse gênero no cenário cinematográfico brasileiro, filmes de ação que não fossem só violentos, filmes que tivessem também a coisa do amor, da paixão, do sexo, mas tratada de forma delicada, discreta, elegante. E também um filme dirigido ao grande público, uma produção comercial, popular, mas de qualidade, nos padrões do cinema norte-americano, que é o que faz sucesso. E ao longo desses anos eu fiquei pensando nisso, em fazer um filme para o meu público, para o público que gosta da Maria Zilda. O filme demorou a se concretizar por uma série de motivos. Na época eu estava grávida, estava fazendo uma novela e depois vieram outras e sempre fazendo teatro ao mesmo tempo. Depois em 90 o cinema acabou na época do Collor, em suma, diversos contratempos e muito trabalho. Só em 97 eu comecei a amadurecer a idéia de que já tava na hora de eu fazer porque tava ficando velha e daqui a pouco eu não poderia ficar mais nua, aí falei: "Pessoal, vamos correr enquanto ainda dá para mostrar porque daqui a pouco ia precisar de dublê de perna, dublê de bunda, dublê de peito..."(risos). Sem brincadeira, eu achei que este era o momento, estava numa fase de tranqüilidade, de amadurecimento na minha vida e, então, tive tempo de me organizar durante um ano e meio para poder realizar o filme.

Como foi dividir as funções de atriz e produtora?
Foi uma barra pesada. Foi duro, muito duro. Foi preciso muita fé, muita paciência, humildade, mas principalmente fé. De cada obstáculo, de cada dificuldade, de cada erro eu dizia pra mim: o obstáculo que me derruba vai me apoiar na hora de levantar. Esmorecer jamais.

Qual foi sua reação quando assistiu ao filme? Você é muito autocrítica? Achou que algo poderia ser melhorado?
Olha, eu sou muito perfeccionista. Mas acho que o filme atendeu aos objetivos precípuos: a fotografia não podia ser melhor, o som, toda finalização feita em Dolby Stereo lá no México, a revelação. Em suma: a qualidade técnica do filme, assim como o elenco não podia ser melhor. Agora o problema todo foi o pouco dinheiro. É claro que se eu tivesse mais R$ 500 mil, R$ 100 mil teria feito algumas coisas diferentes. Por exemplo, o final do filme eu teria feito em Olambra por causa das plantações de margarida. (A cena final do filme se passa numa plantação de margaridas). Eu liguei para o prefeito de Holambra, pedi apoio, disse que seria uma boa propaganda para a cidade mas ele não se comoveu. E eu não tinha dinheiro para levar toda a equipe do Rio de Janeiro até Holambra, principalmente porque no final do filme está o elenco inteiro. Por isso se você me perguntar o que eu mudaria seria esta cena, porque na minha mente ela deveria ser feita em meio a uma grande plantação de margaridas, um mar de margaridas. E, na época, comecei a pesquisar e descobri que as plantações de margarida ficavam em São Paulo. Mas mesmo sendo filmado no Rio de Janeiro, numa plantação pequena, o resultado foi tecnicamente satisfatório.

Como foi compor a personagem Júlia?
A personagem era muito difícil e era isso que me seduzia. Eu não tive dificuldade em compô-la porque tive muito tempo para pensar nela, desde 1981, portanto, posso dizer que ela já era minha íntima.

Durante as cinco semanas que duraram as filmagens, vocês enfrentaram algum tipo de dificuldade?
O problema sempre foi a falta de grana. Tudo tinha de ser muito economizado. Era uma coisa de uma precisão financeira exata para poder cumprir todas as etapas porque dinheiro na mão é vendaval. É muito difícil você ter R$ 800 mil no banco e não gastar. A vontade é gastar. O problema foi sempre esse: fazer uma coisa de qualidade com pouca grana. Este foi nosso grande desafio. Por isso, tem de ter criatividade, porque com muita grana tudo é mais fácil. E também tenho que agradecer por ter tido uma equipe muito coesa, que trabalhou com bastante harmonia, porque se nestas cinco semanas alguém tivesse dado ataque de estrelismo, alguém tivesse faltado tínhamos parado o filme e talvez até não recomeçássemos mais. Foi este esforço conjunto, está união, esta gana que fez o filme ficar pronto.

Quais são suas expectativas em relação ao lançamento do filme?
A minha expectativa é que o público diante de toda essa luta e sabendo que vai ver um filme lindo, que não vão se decepcionar, levantem os bumbum das cadeiras e vão assistir ao filme na primeira semana. Porque é bom que o público saiba como funciona o processo de exibição de um filme brasileiro. O distribuidor bota o filme no cinema; se na primeira semana o filme não alcança um valor x de bilheteria, eles tiram e o substituem por um outro de quinta categoria americano. Então, vamos correr para o cinema gente, pelo amor de Deus. Esta é a prova de amor que eu peço para o público, que foi pra quem eu fiz o filme.

Como você vê o momento atual do cinema nacional?
Está lindo. Nós temos uma safra de filmes maravilhosa e eu acho que nós estamos caminhando para formar uma indústria cinematográfica. Para isso, a gente precisa ter qualidade e quantidade. Porque não pode parar, não podemos lançar um filme de dois em dois meses, de seis em seis meses. Tem de ter uma produção continua de filmes, que dêem retorno financeiro para o investidor, porque qualquer empresário no sistema capitalista quer retorno financeiro. Então, se nós começarmos a fazer filmes em quantidade e com qualidade, que o público vá assistir, goste e aí cada vez mais vá, a gente vai fazer dinheiro. Fazendo dinheiro há retorno para quem financia e quem financia vai financiar mais formando um círculo, uma espiral pra cima em vez de uma espiral pra baixo.