Marília Pêra

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

Quem nunca ouviu falar dessa grande mulher? Marília Pêra é uma das maiores atrizes do Brasil. Filha de atores, Marília nasceu no Rio de Janeiro, praticamente dentro de um palco de teatro. O resultado não poderia ser outro, ela é conhecida por sua versatilidade profissional: atua, dança, canta, produz, dirige, além de outros talentos.

Em seu currículo cinematográfico há grandes títulos como Pixote - A Lei do Mais Fraco (1980), Dias Melhores Virão (1988), Tieta do Agreste (1996), Central do Brasil (1998), entre muitos outros.

Desta Vez, Marília Pêra está ao lado de Miguel Falabella em sua estréia como diretor de cinema no longa-metragem Polaróides Urbanas. Adaptação da peça teatral Como Encher um Biquíni Selavgem, na qual Claudia Gimenez era a protagonista. Em entrevista ao Cineclick a atriz revelou como foi essa experiência e seus projetos futuros.

Como foi o convite para atuar em Polaróides Urbanas?
Chegou em casa um roteiro do Miguel com um bilhete da Paula Barreto pedindo para eu ler o roteiro com alguma urgência e para ler a parte das gêmeas Magali e Magda. Sabia que o filme estava sendo programado para ser feito com a Claudia Gimenez, mas ela não pode participar do filme. Então, recebi o roteiro em cima do começo das filmagens. Não sei exatamente o que houve e porque a Claudia não pode fazer. Soube que o roteiro já tinha ido para a Regina Case, que também não pode fazer. Ele chegou na minha mão no sufoco da produção, pois as filmagens iam começar e eles precisavam de uma atriz. Naturalmente, eles queriam alguém que tivesse uma carreira sólida no cinema, uma história para fazer as duas mulheres. Um nome que já tivesse tido entrada no cinema internacional. Achei a história engraçadíssima e fiquei louca pra fazer, eu aceitei imediatamente. Apesar de ser um momento em que estava fazendo mil coisas ao mesmo tempo, me empenhei para arranjar tempo, pois eu tinha muito interesse em participar deste filme. Também porque já havia deixado de participar de vários filmes da LC Barreto, nunca pude por causa de tempo e acabaram sendo grandes sucessos.

Com essa pressa para começar as filmagens, você teve tempo de preparação?
Tive pouco tempo, entre 15 e 20 dias. Foi o tempo para experimentar as roupas, para decidir o visual, o figurino. Eu trabalho muito na forma do personagem e quando vejo o jeito que usa o cabelo, um brinco ou mesmo o gestual dela. Parto muito da forma para dentro, por isso eu pedia muito para ele (Miguel Falabella) me dizer como elas eram, como ele as imaginava. Quando coloquei a peruca da Magda, baixou a personagem em mim. Quando comecei ver as roupinhas bordadas da Magali, com cores delicadas, aí veio aquela imagem de uma pessoa mais delicada, mais frágil, mais sensível, mais interessada em artes, louca pelo amor, para ser amada. A Magali quer muito ser amada, já a Magda quer usar todo mundo para conseguir as coisas que ela quer. Elas são muito diferentes. Eu tive pouco tempo de estudo, mas o Miguel estava todo o tempo ali, me dizendo como deveria ser. Mas não foi difícil não, foi puxado, pois tínhamos pouco tempo para fazer o filme, com horários complicados, com todos trabalhando em outros projetos. De vez em quando, me vinha à cabeça a Gimenez, que apesar de não tê-la visto no teatro, eu a conheço, admiro o trabalho dela e sei como ela faz. Às vezes, quando eu não sabia como resolver, imaginava como a Claudia Gimenez faria e tentava imitar.

Ela sabe disso?
Ela me mandou uma jóia de presente. Porque no Festival de Miami, ganhei o prêmio de Melhor Atriz e dediquei a ela.

O que você acha desse humor para tratar dos problemas cotidianos?
É um humor delicado. Não é escrachado em nenhum momento. Porque o escracho é muito usado no Brasil, mas o humor refinado é pouco usado. O Miguel sabe fazer isso, o personagem fica ali em um desequilíbrio entre o humor e o choro, são personagens patéticos. A Magali é completamente patética. A Lise, que é a personagem da Arlete Salles, é de dar pena, ao mesmo tempo em que você morre de rir. Os outros personagens são mais pungentes, o da Neusa Borges é mais concentrado, com muita sinceridade, com muita dor. O da Stella Miranda também é um personagem lindo.

Trabalhar com um diretor que escreveu o roteiro é mais fácil?
Não dá para generalizar. Há uma frase célebre que diz: "autor bom é autor morto", porque dessa forma não fica dando palpite, mas no caso do Miguel "autor bom é autor vivo". Ele é um diretor que tem a experiência de ator. E também se há algum mérito nas minhas direções esse é o meu maior mérito quando eu dirijo. Saber das fragilidades dos atores e não machucá-los, ajudá-los a sair dos nós que agente se enreda de vez em quando e ajudá-los a florescer. O Miguel tem isso porque ele é autor, é diretor, é produtor e ator. Ele sabe muito bem lidar. Ele fez um filme cheio de atrizes. Claro, tem atores maravilhosos, mas é um filme feminino e ele soube lidar com cada uma dessas mulheres, dessas atrizes, com cada uma dessas personagens, de forma delicada. Havia muito carinho, respeito, admiração entre nós. Então o set de filmagens era muito harmonioso.

A impressão que o filme passa é que estavam todos entre amigos e que foi divertido filmar. Foi isso mesmo?
A gente fez o filme em pouco tempo, mais ou menos em três semanas. Como eu entrei em cima da hora, eu pedi algumas coisas à produção, que me atendeu prontamente, para que tivéssemos conforto de ficarmos muitas horas sem sofrer. O Miguel é isso, ele tem esse clima de animador de auditório, meio chacrinha. Nas cenas que foram gravadas no teatro, com toda aquela figuração em volta, o Miguel toda hora ia lá, fazia uma piada, descontraia e todos ficavam contentes. O clima foi muito leve e criativo, não me lembro de nenhum momento nebuloso.

Você disse que queriam um nome internacional no filme. Sabe se há a intenção de lançá-lo comercialmente no exterior?
Eu não sei. Também não sei avaliar se é um filme que suporta carreira internacional. Em Miami, ele levou o prêmio do Júri Popular. Eu não tenho idéia de como o filme bate nas pessoas, mas acredito que queiram sim, o filme é feito para viajar, para rodar o mundo.

Você tem algum outro projeto ao lado de Miguel Falabella?
Sim, tem um musical do Ivaldo Bertazzo, chamado A História do Musical Brasileiro e que o Fernando Meirelles está envolvido para transformar em filme, o roteiro será do Miguel. Com os bailarinos do Ivaldo, eu e meu filho (Ricardo Graça Mello) fazendo Oscarito. A estréia é aguardada para agosto.

Leia também entrevista com o Miguel Falabella, diretor de Polaróides Urbanas.