Matheus Nachtergaele

02/07/2009 17h37

Por Heitor Augusto

Conversar com Matheus Nachtergaele a respeito de A Festa da Menina Morta, sua estreia como diretor de cinema, é sentir que um ciclo iniciado há dez anos, quando o filme começou a ser escrito durante as filmagens de O Auto da Compadecida, está se encerrando.

Intenso e apaixonado, o ator – e agora diretor – imprimiu uma atmosfera de ritual em seu filme. “É uma história sobre o escândalo da fé e a nossa incrível capacidade de dar sentido ao que não tem”, afirmou ao Cineclick. Protagonizado por Daniel Oliveira (Batismo de Sangue), o filme aborda uma comunidade que acredita nos poderes santos de um garoto desequilibrado e em um vestido milagroso.

Em entrevista exclusiva ao Cineclick, Nachtergaele explica como se manteve ligado a um projeto tão longo, relembra o clima do set de filmagens, aos excessos do filme e sobre seu próximo trabalho como diretor. De sua casa, Nachtergaele atendeu à nossa reportagem por telefone. Confira a íntegra do bate papo:

Após mais de dez anos desde o início de projeto, você consegue olhar com distanciamento para o filme que fez?

A gente estreou em abril de 20008 em Cannes, saiu rodando muitos festivais tanto no Brasil como no exterior. E eu aprendi aos poucos o filme que eu fiz ou deixei de fazer. Realmente eu compartilho da sensação de que agora ele nasce mesmo para o mundo.

Apesar de a gente ter tido muitas sessões em muitos lugares diferentes, a gente sempre estava em festivais ou mostrar, público especializado, muito interessadas em cinema e olhos bem treinados. Acho que agora ele vai pra essa última etapa, para o público comum, de cinema mesmo. Eu estou ansioso, tentando não ficar nervoso. Até porque essa menina morta me trouxe tantas alegrias, né?

Você imaginava tudo isso, a seleção em Cannes, a repercussão em Gramado, os prêmios em festivais internacionais?

Não, eu acho que eu fui surpreendido. Claro que eu me dediquei muito, a todas as etapas do filme, mas eu fiquei surpreso com o fato de ele ter sido bem-vindo. Me sinto honrado, apesar de eu já ter feito muito cinema nos últimos anos e obviamente ter me envolvido com muitos diretores diferentes. Quando eu comecei a escrever, na verdade, não tinha certeza absoluta de que eu fosse chegar no fim deste filme. São dez anos, né? Fazer cinema no Brasil é uma travessia, juro! Tanta energia que tem de ser movida para o filme acontecer.

Como manter a energia durante esses dez anos?

Para mim foi até bom que a gestação fosse tão lenta, porque fiquei mais forte para dirigir. Trabalhei muito o roteiro com o Hilton [Lacerda], ensaiei quatro semanas em Barcelos [cidade no norte do estado do Amazonas onde o filme foi rodado]. Passei por cada etapa vagarosamente e, de vez em quando, por ser um ator, eu parava um pouco, de vez em quando eu sumia uns seis meses para fazer um outro trabalho, aí voltava mais maduro e a gente tocava o barco.

Quando Selton Mello fez as primeiras exibições de Feliz Natal, com o qual estreou na direção de um longa, ele afirmou que poucas vezes fez um trabalho tão sincero com sua personalidade. A Festa da Menina Morta representa o mesmo para você?

Olha, eu acho que consegui, de tempos em tempos, estar muito apaixonado pelos projetos em que eu estava e com diretores que eu admirava. Consigo me lembrar, de imediato, do Teatro da Vertigem [Nachtergaele iniciou a carreira na trupe paulistana e recebeu o Prêmio Shell em 1996 por O Livro de Jô]. Também tive um encontro bonito com Claudio Assis, que vem se repetindo [em Amarelo Manga e em Baixio das Bestas].

Acho que em O Auto da Compadecida eu também estava muito inteiro, tanto eu como o Selton. Nós estávamos muito dentro, quando acabou eu não queria tirar a roupa porque sabia que aquilo ia acabar, não teria mais. Eu fiquei sentadinho, chorando sentado com a roupinha do João Grilo. Foi um mergulho! Eu tive vários momentos em que tudo pareceu conversar e colaborar.

Mas e como diretor?

O set de filmagens foi muito gostoso. Apesar de que eram cenas muito trabalhadas, com planos-sequência longos e elenco grande em cena, marcados para que dessem certo os planos, era um set calmo, silencioso. Sempre começava com uma oração porque iríamos falar de coisas duras, nos dávamos as mãos e trocávamos olhares por um minuto para dar uma “astralizada” no set [em Gramado, Cássia Kiss já destacara a postura matura e calma de Nachtergaele como diretor].

Uma das coisas que eu mais gostei foi durante as filmagens, a trupe viajando, o elenco na frente da câmera. Eu ficava pensando “quanto trabalho deu para estarmos aqui e tudo está tão gostoso”.

Já que você citou a oração feita antes das filmagens, lembrei da sensação quando assisti ao filme pela primeira vez: um ritual, compartilhar com todos da sala um momento...

Eu acho que é isso sim. A gente trabalhou om roteiro para ele ser uma cerimônia, e acho que o filme em si é uma cerimônia de superação, de luto e de tentativa, pelo menos. A festa da menina morta está contida nele.

Pode ser mera curiosidade, mas a roupa azul que Santinho, o personagem de Daniel de Oliveira, veste, representa um pouco desse ritual. Como vocês a conseguiram?

Ah, graças a Kika Lopez [diretora de arte] que arrasou. No roteiro, tinha a ideia de que a cor era azul e, aos poucos, todas as cores da comunidade tendessem ao azul. Ela fez a roupa brilhosa. O Santinho tem uma fêmea dentro de si, passa todo o tempo tentando ser sua mãe, preencher a falta que sente dela, veste a roupa da mãe, é muito feminino. No momento importante do ritual, queríamos que ele ficasse um cara, então o vestimos de pastorzinho de igreja batista.

Seu filme tem uma clara presença barroca. Isso é uma influência na sua formação?

É um filme que dentro de si tem seus excessos, muitos escuros e sombras, índios com asinhas. Ele tem seus excessos para dizer a que veio. Uma coisa engraçada é que eu comecei a escrever o filme em Minas Gerais, em Rio Acima [cidade que servia de travessia no ciclo do ouro]. Ou seja, o universo inaugural da história já era barroco. Eu escrevi em igrejas com um caderninho, ficava observando e aquilo me inspirava a fazer um filme sobre o escândalo da fé. De certa maneira, isso está em A Festa da Menina Morta, o quão escandaloso é a nossa capacidade incrível de dar sentido ao que não tem.

No Festival de Gramado, após a primeira exibição do filme no Brasil, você disse que A Festa... era um grito e uma urgência em contar essa história. Você também afirmou que, naquele momento, estava no meio de outro grito. O que aconteceu com ele? Teremos mais um filme com a direção assinada por Matheus Nachtergaele?

Eu estou com um argumento muito forte na minha cabeça. Talvez ele ainda precise ganhar forma e, talvez, seja um filme. Se eu perceber que é urgente, sigo adiante com ele. eu só consegui fazer o anterior porque eu precisava muito fazer. Agora, me sinto cumprindo o ciclo da Menina Morta e, aí sim, talvez o outro grito saia. Provavelmente, nas próximas semanas eu vá sentir um certo vazio. Talvez eu escreva.