Mauro Lima (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

Meu Nome Não é Johnny é o primeiro longa-metragem dirigido por Mauro Lima voltado ao público jovem. O diretor paulista começou a dirigir filmes publicitários antes de estrear no cinema em 1993, na co-direção de Kafka - O Outro Processo e Impala 60. Em 1997, levantou polêmica com Loura Incendiária, que, num momento de retomada da produção de filmes nacionais, foi bastante discutido pela imprensa por ter custado cerca de R$ 10 mil.

O primeiro trabalho de Lima para o grande público foi em 2004, com Tainá 2 - A Aventura Continua, que o credenciou a ser convidado para dirigir Meu Nome Não é Johnny. O diretor conta ao Cineclick fomo foi esta experiência. Confira.

Seu primeiro longa-metragem, Loura Incendiária, custou R$ 10 mil. Dez anos depois, você dirige Meu Nome Não É Johnny, com orçamento de R$ 5,5 milhões. Como é trabalhar em produções com orçamentos tão distintos e o que mudou de lá para cá?
Loura Incendiária foi uma historia engraçada e até hoje me lembro de páginas inteiras nos jornais, foi uma polêmica danada. Na época que o filme passou, nem tantas pessoas foram ver, somente duas cópias rodaram algumas capitais. Nunca tive idéia de gerar polêmica com o longa, a idéia surgiu, na verdade, de um amigo meu que dirigia peças de teatro e queria fazer um curta-metragem com uma lata de filme em preto-e-branco que ele tinha. Dei a idéia de transformá-lo em longa como se fosse um estudo filmado, tendo como referência diretores B dos anos 70. O mais legal deste filme seria, em algum momento da nossa existência, ver como o fizemos. Seria mais interessante do que o filme em si. Foi difícil convencer as pessoas que não era um libelo contra as produções brasileiras caras. Olhando em retrospecto, a pergunta não tem uma resposta cronológica. Quando diz Loura Incendiária, já trabalhava com os orçamentos carésimos da publicidade, não era exatamente um cara que começou a fazer longa, já lidava com dinheiro. Então, não existe muito essa comparação.

Quando surgiu o convite pra trabalhar em Meu Nome Não é Johnny, você já conhecia o livro?
Comprei o livro quando tinha acabado de ser lançado; na mesma noite, o João (Guilherme Estrella) e Guilherme Fiúza (autor do livro que originou o longa) estavam sendo entrevistados na TV. Eles comentaram que os direitos de adaptação haviam sido comprados. Pouquíssimos dias depois, vim a São Paulo para lançar Tainá 2 - A Aventura Continua e jantei com uma amiga minha da Columbia. Na ocasião, ela comentou que a adaptação deste livro era a minha cara. Liguei pra Mariza (Leão, produtora) e, um tempo depois, ela me ligou querendo me encontrar. Foi quando entrei para o projeto a principio somente para dirigir, depois que veio minha participação no roteiro.

O João interferiu em algum momento no roteiro?
Não. Ele é muito solícito, mas pouquíssimo invasivo. Quando achava necessário, ligava pra ele e esclarecia algumas questões da história. Ele foi muito útil, mas não pegava no pé com detalhes.

Foi mais complicado trabalhar com uma história de personagens reais?
Neste caso não. Já fiz documentário, então conheço essas complicações deste gênero, mas nunca havia feito um filme romanceado em cima de uma biografia. Não encontrei com muitas das pessoas retratadas ali. Mais complicado foi a criação de coisas de época. Parece que seria fácil, mas não foi. Filmar na rua era o mais complicado. As grades dos edifícios do Rio de Janeiro foram totalmente modificadas de 2001 para cá, por exemplo. Achamos algumas ruas que tinham grades anteriores e tal. Agora, não tive nenhum problema para lidar com seres humanos.

O que você acha que o filme tem que o faz dialogar com públicos de idades distintas?
A história do João Guilherme era possível acontecer nos anos 80 e 90, hoje a figura é completamente diferente. Ele é o caso dos garotos de classe média presos com ecstasy; tem um João Guilherme por semana nas capas de jornais, só que eles estão ligados a essas novas drogas sintéticas que substituem a cocaína como droga social. Ou seja, este é um assunto ainda muito atual, acontecendo o tempo inteiro. O João Guilherme é um embrião desse fenômeno conhecido como o tráfico de "drogas do asfalto", como se convencionou chamar. O jovem do morro que vai pro tráfico tem razões totalmente ligadas ao social enquanto que jovens como João Guilherme enveredam para este caminho graças aos excessos da juventude abastada brasileira. Sempre se teve alguém com problemas de drogas por perto. Essa é a discussão que talvez chame a atenção de gerações tão distintas.

Como foram as exibições feitas antes do lançamento do filme?
Foram sempre seguidas de debates e fizemos, basicamente, em escolas e faculdades, mas com públicos de idades distintas. O filme é absolutamente eficiente junto aos jovens, o que já percebemos desde a primeira exibição, realizada na PUC do Rio de Janeiro. Quando começamos a fazer debates fora de universidades, vemos pessoas de mais idades de outras esferas da sociedade que aderem à produção por outros motivos, entendendo aquilo como uma história interessante.

Você apontaria algum acontecimento realmente surpreendente nessas exibições?
Não, só coisas prosaicas, como um cara que perguntou que substância eles cheiravam no filme. Às vezes é a primeira pergunta e somente em universidade. Mas nenhuma me pegou de calças curtas. O que mais me deixou admirado foi saber o quanto o filme emociona. Nunca achei que teria controle sobre esse lado emotivo. Na hora de fazer o roteiro, tinha um pretenso controle sobre o humor e nas partes dramáticas, tentava me controlar para que o filme não caminhasse pro maniqueísmo; o mais importante era não vitimizar nem satanizar os personagens. Essa era minha maior preocupação. Quando vi pessoas chorando, fiquei impressionado. A primeira exibição fora da ilha de edição ocorreu para 20 pessoas e, no fim, vi várias pessoas chorando, pessoas envolvidas com o filme e isso me surpreendeu. O Selton também viu na casa dele e me ligou chorando, todo mundo me ligou chorando!

Nem montando você teve idéia disso?
Não porque você cria um distanciamento muito grande daquilo tudo de tanto ver. Nunca trabalhei para ser assim e nem achava que tinha domínio, não me dediquei a isso de uma maneira estudada. Cheguei a dar umas pequenas emocionadas durante a filmagem. Quando filmamos a cena na qual a grua percorre a frente da casa quando o pai morre, peguei o IPod e selecionei C'Est La Vie, do Emerson, Lake & Palmer - uma música da minha adolescência e provavelmente do João Guilherme também. Coloquei um fone na minha orelha e outro na do diretor de arte. Era um plano-seqüência, então a emoção crescia junto com a música. No final, eu estava arrepiado, com o olho cheio de lágrimas, e o diretor também estava emocionado. No tribunal, também fiquei emocionado porque as interpretações foram muito reais. Apesar de ter sido improvisada, algumas falas estavam previstas sim no roteiro, mas o realismo da cena emocionou a galera que estava lá. É engraçado como as cenas funcionam. Em Búzios, encontrei uma senhora que sei ser católica, tem nove filhos e vai à missa três vezes por semana. A principio, seria o perfil de uma pessoa que rejeitaria facilmente o filme, mas ela mesma estava emocionadíssima. Agora, no Cinusp (sala de cinema da USP), teve um cara que deixou um bilhete acusando o filme de ser um hino ao narcotráfico! Um louco qualquer dentro da USP, ao mesmo tempo em que uma senhora católica ficou emocionadíssima dizendo que seus nove filhos e não sei quantos netos assistam. Ou seja, não há um público claramente definido que se emocionaria com o filme. Não inventei uma coisa pra convencer ninguém, aquilo realmente aconteceu.

Você tem planos para dirigir o próximo longa?
Sim, vai ser Dias de Ira, também baseado numa história real.

E você não tem medo de começar a ficar marcado por filmes baseados em histórias reais?
Tipo o Oliver Stone? (risos) Não, este é um projeto antigo, de 2001, e agora o desengavetei enquanto estava fazendo Meu Nome Não É Johnny. Tudo indica que o próximo filme também seja baseado uma história real, mas não é uma carona neste projeto.

Veja especial sobre Meu Nome Não É Johnny e entrevista com Selton Mello, protagonista do longa.