Michel Gomes e Marcello Melo Jr. (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

Os atores Michel Gomes e Marcello Melo Jr. não são muito conhecidos do público. Sem novelas ou outros filmes no currículo - em exceto por Gomes, que teve um pequeno papel em Cidade de Deus e participou de alguns episódios de Cidade dos Homens -, têm atuações de destaque em Última Parada 174, em papéis obtidos depois de anos de experiência em teatro em grupos de comunidades cariocas. A dupla conversou com exclusividade com o Cineclick sobre a experiência de serem dirigidos por Bruno Barreto. Confira:

O que vocês estavam fazendo quando o ônibus 174 foi seqüestrado, em 2000?
Michel Gomes
: Na época, tinha 11 anos e não me lembro, imagine que meus pais me colocariam na frente da TV para assistir a uma tragédia daquelas, mas meus familiares lembram.
Marcello Melo Jr.: Assisti à tragédia no dia, ao vivo, estava almoçando com meu pai. Foi um pouco assustador porque estudava ali, perto do Jardim Botânico, passava por aquele caminho todos os dias e fiquei impressionado, eu ou algum parente meu poderiam estar num naquele ônibus. Foi assustador. Mas procurei assistir e não julgar toda aquela situação.

Diferentemente do Sandro, interpretado por Michel, seu personagem é fictício. O que lhe deu base para sua composição?
Marcello Melo Jr.: Meu personagem é baseado no rapaz todo encapuzado que dá depoimento no documentário do (José) Padilha (Ônibus 174). Ele parece ser um rapaz bem cruel. Minha preparação foi mais intensa do que a do Michel porque entre três semanas antes de começarem as filmagens, mas a preparação do Ricardo e do Rogério Blat foi maravilhosa, porque são bem generosos e entendem as necessidades do ator. Foi uma coisa de cumplicidade, tivemos a liberdade de poder trabalhar o texto e improvisar as cenas. Tínhamos as cenas, mas o roteiro não era completamente fechado, não tinha as falas em si. Pra mim isso foi bacana, faço parte do grupo de teatro Nós do Morro há 12 anos e sempre tive essa espontaneidade do improviso. Também busquei algo nas intenções do personagem, algo mais agressivo, diferentemente do Sandro, que acaba sendo induzido pelo meu personagem, o mentor dessa crueldade dele que o leva ao seqüestro. Meu personagem quer passar para Sandro o que ele vivenciou.

E a sua preparação, Michel?
Michel Gomes: Fiz o primeiro teste aos 17 anos e o segundo duas semanas depois, quando tinha feito 18. Costumo dizer que sofri muito mais do que o Marcelo, que foi selecionado duas semanas depois do teste; demorou um ano para que eu fosse chamado pra fazer o filme, ou seja, fiz 20 vezes mais testes do que ele, então sofri muito. Queria muito fazer o personagem, trabalho desde os meus dez anos, trabalhei em três longas, fiz sete episódios de Cidade dos Homens, sempre fiz teatro... Então, sabia da importância deste personagem, sempre soube que é um personagem difícil, que mexeu com o Brasil e também sabia da importância de protagonizar um filme de Bruno Barreto, então queria muito. Quando fui selecionado, fiquei muito feliz, de coração. O Sandro tem muitos problemas psicológicos, perdeu a mãe quando era muito jovem, sobreviveu à chacina da Candelária, era um cara que, como o Marcello costuma dizer, aprendeu com a vida. Depois de tomar tantas pauladas no passado, ele resolveu dar as suas no futuro. Ele seguiu um caminho errado, mas não o vejo como uma pessoa monstruosa. Se ele fosse um monstro, faria mais uma chacina dentro daquele ônibus. Foi uma atitude totalmente errada, mas, no geral, todos nós perdemos: o Brasil parou durante aquelas quatro horas de negociação, que terminou com duas tragédias. Fico um pouco triste porque de repente essa história poderia ser outra, mas espero que a justiça seja feita nos próximos casos como este. É triste ver duas pessoas morrerem ao vivo na frente da televisão, é um soco no estômago que mexe com o coração.

O que vocês sentiram na primeira vez que assistiram ao filme pronto?
Michel Gomes: Vimos poucas cenas durante a montagem e ficávamos ansiosos para assistir ao filme. No dia, meu coração ficou a mil, estava muito nervoso. Quando a gente faz um trabalho, não quer se ver na tela, queria ver o Sandro. Em algumas cenas, fiquei surpreso comigo mesmo. O Marcello é totalmente oposto do personagem dele, é um cara calmo, extrovertido, feliz da vida e faz um personagem psicopata no filme. Na verdade, o psicopata é o Alê Monstro, não o Sandro. Mesmo assim, também me diverti durante o filme, com algumas falas engraçadas. Quando o filme acabou ficou um silêncio, todo mundo pára para refletir. Fiquei feliz não só com meu trabalho, mas de todo o elenco, a iluminação está muito boa... Pelo que estou vendo, as pessoas também estão saindo muito felizes do filme. Quando fazemos um trabalho, pensamos em agradar as pessoas. Não trabalho com a intenção de ganhar prêmios, primeiramente quero agradar ao set, o diretor. O Bruno (Barreto, diretor do filme) nos elogiava muito, mas queríamos comprovar e, particularmente, fiquei muito satisfeito com meu trabalho. Eles fizeram a escolha certa para o elenco.

Quais cenas te surpreenderam?
Michel Gomes: A do ônibus foi filmada em alguns dias e foi difícil de ser realizada. Sou um cara puro, verdadeiro; estar dentro daquele ônibus, focado em maltratar as pessoas, ouvindo 200 e poucos figurantes gritando "lincha ele!", sabendo que aquilo aconteceu de verdade naquele local, foi muito difícil, mas sempre tivemos apoio do Bruno sempre se preocupava se estávamos cansados. Então, quando a pessoa te motiva você sempre tem vontade de trabalhar mais. Me surpreendi muito com essa cena, ficou bem punk. Também gosto de outras cenas, mas essa é a favorita também por ser a mais forte do filme.
Marcello Melo Jr.: Foi engraçado porque estava mostrando para meu pai e minha mãe também. Meu pai é ator e era bacana que eu via no olhar da minha mãe aquela satisfação em ver o filho dela, independente do cinema, feliz com o trabalho. Fiquei muito nervoso. Vim do teatro, onde se tem um trabalho muito expressivo. Meu amigo Thiago Martins estava acabando de filmar Era Uma Vez... e ele me deu um toque para que procurasse me movimentar menos possível porque é cinema, todos os movimentos ficam maiores na tela de cinema. Foi um conselho bom que levei para o set. Gostava de assistir às minhas cenas no decorrer das filmagens, mas foi muito gratificante ver o trabalho final. É gratificante ter esse retorno das pessoas quando elas vêm parabenizar, porque trabalhamos muito para isso. Procuramos não somente interpretar os personagens, mas vivê-los inteiramente. Para mim foi chocante pelo fato de experimentar o sentimento de outro ser humano, uma coisa totalmente oposta à minha. Teve uma cena na qual eu tinha de esfaquear um rapaz no presídio. Particularmente, não me senti bem quando a cena terminou e vi o sangue falso em minhas mãos. A primeira pessoa que vi na minha frente foi o Michel e pedi pra ele segurar o estilete que eu não estava conseguindo. É uma coisa que mexe muito. Nós, de boa índole, que costumamos fazer as coisas sempre certas, podemos ficar com as emoções muito à flor da pele nestas situações, porque, de qualquer forma, estamos mexendo com a alma de outra pessoa. Para mim foi bacana porque é uma oportunidade única. Tendo esse retorno, vejo que aproveitei cada suor que caiu no set.

Vocês sentiram algum peso ou responsabilidade ao atuarem num filme baseado num fato verídico e tão fresco na memória do brasileiro?
Marcello Melo Jr.: Senti sim uma responsabilidade. Querendo ou não, o filme levanta mais uma vez a questão da violência e o despreparo da sociedade. Isso me trouxe uma responsabilidade muito maior, além do fato de estar trabalhando com Bruno Barreto, um dos maiores nomes do cinema nacional. Além disso, ser de comunidade e interpretar este personagem faz com que eu seja um ponto de referência. É bacana a gente assumir esse personagem porque mostramos um lado da nossa realidade, por mais que não seja positivo. Estamos ali, lutando, fazendo teatro, correndo atrás para que isso mude. Temos de ter mais paciência e respeito em relação ao outro ser humano para que não tenhamos mais finais trágicos. Acho que é mais "responsabilidade" a palavra neste contexto todo.
Michel Gomes: Lembrar dessa tragédia não é fácil para muitos, quem viu realmente não esquece. A gente tem essa responsabilidade de trazer o passado do Sandro, apesar de não ser totalmente verdade, tem seu lado ficcional. De qualquer forma, vai chegar um ponto que todos conhecem, no ônibus. Uma mulher que mora no Jardim Botânico disse que não ia querer ver este filme quando nos viu filmando dentro do ônibus porque assistiu na vida real e não esquecerá mais disso. São opiniões, respeito, deve ser difícil. Ao mesmo tempo, trazer esta história na ficção pode despertar interesse das pessoas que viram o Sandro como um monstro. Não acho que ele seja um monstro, é alguém que seguiu a vida da melhor maneira que pôde. Muitas pessoas que assistiram ao filme conversaram comigo, com o Marcelo. Uma moça veio chorando lamentar que não pudemos mudar essa história. Até porque o teatro que ele fez no ônibus fez com que ele fosse visto dessa forma. Não há pessoas totalmente monstruosas, mas sim ruins ou más, mas "monstro" é uma palavra muito forte. No fundo, todos têm sentimentos.

Vocês chegaram a acompanhar a exibição do filme em Toronto (Última Parada 174 teve sua primeira exibição ao público no festival canadense)?
Michel Gomes: Eu e o Bruno fomos. Toronto abraçou o filme, o reconhecimento do público foi muito bom, elogiaram muito nosso trabalho. Me emocionei quando subi no palco, o público aplaudiu de coração, foram quase dez minutos de aplauso, dava pra ver no rosto de cada um a felicidade por ter assistido ao filme, por te ver no palco. No Festival do Rio, graças a Deus, a repercussão também foi boa. Agora é esperar a estréia e ver o que o público vai achar.

Assista ao vídeo exclusivo sobre o filme

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