Miguel Falabella (Polaróides Urbanas)

25/05/2009 17h40

Por Livia Brasil

Miguel Falabella é conhecido por seus vários talentos, seja atuando, dirigindo, produzindo ou escrevendo roteiros nos mais diversos meios de comunicação como TV, teatro e cinema. Porém, Polaróides Urbanas é o seu primeiro longa-metragem como diretor. O filme é uma adaptação da peça teatral Como Encher um Biquíni Selvagem e foram 15 anos de luta para tirar o projeto do papel.

O Cineclick não poderia deixar de saber como foi transformar o sonho em realidade e entrevistamos Miguel Falabella, que contou tudo sobre o filme.

Quando você sentiu segurança para adaptar esse texto para o cinema?
Isso é curioso. Quando eu escrevi o Biquíni (a peça Como Encher um Biquíni Selvagem) foi uma encomenda da Claudia Gimenez. Ela foi na minha casa dizendo que adora fazer Escolinha (programa humorístico Escolinha do Professor Raimundo), mas que havia se transformado somente na Dona Cacilda e disse que queria fazer outra coisa, precisava abrir o leque. Ela pediu para eu escrever, disse logo "mas eu já escrevi". Eu sabia que queria fazer uma ciranda urbana da grande cidade. Isso foi em 1994. Por isso, eu digo que esse era um filme de um Miguel que eu não sou mais. Era para estar fazendo o meu quinto filme e não o primeiro. As dificuldades no nosso querido país são tantas e ainda peguei a pior fase, depois do Chatô fechou tudo.

Nesse tempo você conseguiu se preparar?
Não, definitivamente não. Eu sabia que eu queria fazer cinema, só não sabia se eu sabia fazer. Sempre fui cinéfilo, sempre gostei do cinema autoral, o cinema que tem uma assinatura, seja ela qual for, tem de ter um olhar. Caso contrário, não me interessa. Tinha muito medo de acabar fazendo televisão filmada, por causa dos meus anos de experiência, tive receio do meu olhar ter ficado engessado na telinha. Nada contra, adoro fazer televisão. Mas, será que eu consigo ir além do olhar televisivo, do plano e contra plano? Será que eu consigo ter uma câmera investigativa, inteligente, autoral? Criar uma estética minha? São questões que eu me colocava o tempo inteiro. Então, eu cheguei de mansinho. Possivelmente, não faria esse filme hoje, afinal foram 15 anos e nesse tempo eu já amadureci, envelheci, tive outras experiências. Mas não posso pular etapas. Falaram-me que está parecido com o estilo Almodóvar, por ser um filme feminino. É claro, somos da mesma geração, temos o mesmo foco, só que ele é europeu e eu sou brasileiro, aqui é mais difícil. Se você olhar os primeiros filmes do Almodóvar vai ver o quanto ele foi evoluindo, foi aprendendo.

Você acha que há preconceito sobre os filmes brasileiros?
É difícil fazer cinema no Brasil. Porque vivemos em um país onde a cultura é nada. Não há cultura.

O que precisa mudar?
Primeiro é preciso entender que uma civilização se faz com alicerces culturais. Não há um político nesse país que efetivamente se preocupe com cultura. Pois, se houvesse uma cultura, eles não estariam ali. São cômicos, parecem saídos de um programa vagabundo de comédia vagabunda. A política brasileira é uma comédia chula, não é uma comédia com sensibilidade. Os tipos são horrorosos.

Durante a produção do filme disseram que haveria muito merchandising. Mas isso não aconteceu. Você chegou a tirar?
Não, tem em alguns momentos. Tem de ter. O tempo inteiro as pessoas são filmadas e fotografadas com celulares, que é uma realidade nossa. Quando você vai ao teatro, as pessoas estão filmando e não são duas não, são quarenta apontando o celular para sua cara. Essa coisa midiática que o mundo se tornou, se por um lado nos aproximou, por outro nos isolou e expôs.
É uma violência. Às vezes, você está no restaurante e vem um monte de gente tirar foto enquanto você está comendo, mastigando. Outro dia estava no banheiro, um homem do meu lado veio tirar uma foto. O personagem da Arlete Salles deixa bem claro como é enfrentar essa situação, é uma situação violenta, ela não quer ser vista, "não me olhem, não me vejam mais".

Você sente isso? Mais do público ou da mídia?
Sim, o tempo inteiro. De todos, mas na mídia você não separa mais o trigo do joio. Conversando você vê quem é quem pela maneira que o repórter chega conversando. Dá pra saber quem é a pessoa pelo enunciado. Mas tem gente que não tem o menor preparo, pergunta qualquer besteira. Essa coisa da exposição, não há mais valores. As pessoas são famosas porque são. Por que é famosa? Fez o quê? As pessoas não têm mais nada para oferecer, querem expor a vida, eu me sinto violentado. Não estou interessado no que fulano está comendo, entendeu? Os valores se perderam. É como a Vanessa (personagem de Juliana Baroni) que é uma drogada doida que quer ser alguma coisa, mas não sabe o quê.

Até que ponto Daniel Filho, Paula e Bruno Barreto se intrometeram no filme?
Em nenhum momento. Foram muito elegantes. Uma única cena que eu gostava eles cortaram, pois acharam que não era cabível. Mas foi tudo conversado, em nenhum momento eles foram truculentos. Mesmo porque, eu largava tudo e iria embora, não tenho mais idade para isso e sempre deixei muito claro, ou eu faço o que eu quero ou não faço. Não ia mudar nada na minha vida fazer ou não fazer o filme.

Como você vê o cinema nacional de hoje?
Ele está buscando uma linguagem. Eu não saberia fazer esses filmes que estão na moda que mostra favela e violência, o "Brasil dos outros" como costumo chamar, que é Brasil para estrangeiro ver. Igual àqueles safáris na Rocinha. Têm gente que leva os gringos para passear na Rocinha e ganham uma grana com isso. Eu não consigo entender. A miséria é um zoológico humano, não saberia falar sobre isso por não ser o meu universo. Preciso falar do meu mundo, sou classe média, gosto de abordar as pequenezas da burguesia, da solidão das donas de casa, dos anseios. Acho que esses temas são tão contundentes quanto. A burguesia é inesgotável e é sobre isso que eu gosto de escrever, é o mundo que eu entendo, é para onde eu olho. Por exemplo, a Crioula é um personagem genérico, ela não tem nem nome. Ela é emoção, é a Crioula do Brasil representando as babás trancadas nas senzalas modernas que são aqueles quartinhos de empregadas. Mas que, de certa forma, gera um vínculo sensível. Eu mesmo tive muitas Crioulas na minha vida. Elas me ensinaram a andar, me ensinaram a falar, me ensinaram a ter um enunciado que, hoje em dia, me tornou o cômico popular que sou hoje. O meu enunciado chega ao grande público, no coração.

Como é transmitir pelo cinema essas relações interpessoais?
Acho que frustrei muitas pessoas que achavam que iria fazer uma grande comédia de verão. Mas é um filme sobre gente, gente que está aí. Na verdade é um filme sobre o nada. Sabe qual é a cena que eu mais gosto? Quando a Crioula está no ônibus olhando pela janela, meu olhar vai junto com ela.

Você é workaholic?
Não, eu sou um "workalover". Eu amo o meu trabalho. O workaholic é aquele que não tem tempo para se emocionar. Eu não, eu choro muito. Adoro sair com os meus amigos, namorar, adoro ser feliz. Eu trabalho com amigos sempre, trabalho com a minha turma.

Ainda falta alguma coisa para o profissional Miguel Falabella fazer?
Falta sim. Mas acho que a gente tem de ter espaço para isso. Você imagina que São Paulo é a quinta maior cidade do mundo e quantos teatros você tem para fazer uma grande produção? Apenas dois. Com o dinheiro que rola nessa cidade e tem apenas dois teatros. Atualmente, estamos importando técnicos da Argentina, pois o Brasil não forma mais técnicos. Os velhos estão morrendo e os jovens não sabem. Quero muito ter esse espaço.

Você está falando em ter um espaço seu?
Meu não. Eu não quero mais nada. Já tive tudo que eu queria nessa vida.

Que tipo de recepção você espera da crítica, principalmente sendo um cineasta estreante?
Eu acho que as pessoas não vão olhar para mim como um primeiro filme, mas deveriam. O fato de eu empreender demais incomoda as pessoas. Devem pensar "como é que ele faz tanta coisa?". É que eu sou persistente demais, espero dez anos para fazer o meu primeiro filme, eu não desisto, fico agarrado no galho e a onda não me leva. É aprender a apanhar, bater é fácil.

Você tem algum projeto futuro para o cinema?
Estou escrevendo um roteiro muito louco que não sei onde vai dar. Na verdade, são dois projetos. Eu tenho uma comédia alucinada que chama Deus Estava Dormindo, um pouco mais comercial. Que fala sobre uma família que morre já na primeira cena, mostrando que existe uma pós-vida, existe um céu. Só que Deus está dormindo desde a criação e os arcanjos superiores tomaram o poder. Então é uma loucura, são anjos com bolsa Gucci, óculos caros. Virou tudo uma loucura e ninguém acorda Deus. É como se isso aqui está do jeito que está porque Deus está dormindo. Essa família vai ter de acordá-Lo. Mas isso por enquanto é uma idéia, uma sinopse. Escrevendo mesmo, eu estou fazendo um roteiro chamado Num Barco Rumo à China que é a história de dois meninos do subúrbio carioca. Dois irmãos que vivem com o pai que virou travesti e com a avó. Um papel que escrevi para a Arlete, uma cabeleireira.

Leia também entrevista com a atriz Marília Pêra, protagonista de Polaróides Urbanas.