Miguel Faria Jr. (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Roberto Guerra

Inspirado no best-seller homônimo de Jô Soares, O Xangô de Baker Street é, antes de tudo, um filme tecnicamente bem-acabado. A esmerada produção salta aos olhos e serve para destacar o bom nível técnico do cinema brasileiro dos dias de hoje. Um dos responsáveis por isso é o diretor Miguel Faria Jr., que fala com exclusividade ao Cineclick.

Como surgiu a idéia de filmar O Xangô de Baker Street?
A idéia surgiu quando estava na Bahia fazendo a produção executiva do filme Tieta do Agreste. Eu já havia lido o livro, gostado, me divertido, mas não tinha pensado em fazer um filme. Então, o Bruno Stroppiana, que estava produzindo Tieta, leu o livro e me perguntou se eu não queria transformá-lo num longa. Aí reli o livro pensando no filme e confesso que fiquei com um pouco de medo, pensando nas dificuldades que surgiriam para adaptar a trama. Mas, aos poucos, visualizei a possibilidade de dali sair um filme e comecei a desenvolver o projeto.

E quais foram os desafios em adaptar o livro para as telas?
Deu muito trabalho para adaptar. Literatura e cinema são duas coisas bem diferentes. Eu ouvi muita gente dizendo que o livro do Jô tinha uma narrativa bem cinematográfica, que era um filme pronto. Mas não é assim. Você só nota isso quando começa a levar uma rasteira atrás da outra. Na verdade, o que deu trabalho, entre outras coisas, foi achar um tom para contar a história, o meu tom. Porque se você der aquele livro para vinte diretores diferentes filmarem, vão sair vinte longas completamente diferentes. Então, eu levei um tempo para encontrar o meu olhar sobre a história. As coisas foram surgindo aos poucos, primeiro com o roteiro, depois com figurino, maquiagem, ambientação e os ensaios com os atores. Uma hora que deu para ver o filme com clareza, visualizar o tom, foi quando fiz os ensaios com o Marco Nanini. Na verdade, esse processo todo é bastante intuitivo.

Quais foram os critérios para a escolha do elenco?
Os critérios foram muitos, desde o tipo físico para encarnar determinados personagens até a disponibilidade para filmar na época. O mais difícil mesmo foi escolher o ator que iria interpretar Sherlock Holmes, o personagem principal. Porque tinha de ser um inglês que falasse português de Portugal. Foi o Jô Soares que indicou o Joaquim de Almeida, que realmente caiu do céu. Para interpretar a Sarah Bernhardt nós pensamos em contratar uma atriz francesa, mas então apareceu a Maria de Medeiros, que além de uma semelhança física muita grande com Sarah, estudou na França e fala francês fluentemente.

Além de ter indicado o Joaquim de Almeida para o papel principal, o Jô contribuiu mais de alguma forma?
A sugestão de chamar o Joaquim surgiu por acaso quando comentei o assunto com o Jô. Mas desde que comprei os direitos para o filme, fiz um acordo com o Jô de que daria um papel para ele na trama e daí em diante ele só veria o filme depois de pronto. Porque, senão, ele ia querer defender a originalidade de sua história e eu perderia a liberdade de criar. Mas pelo jeito ele gostou do resultado. Ele fez vários elogios ao filme, inclusive publicamente.

O Xangô se passa no ano de 1886. Como foi o processo de reconstituição de época?
Essa foi a parte que demorou mais. Foi uma pesquisa enorme, feita por uma equipe enorme comandada por Marcos Flaksman, nosso diretor de arte. O processo foi muito trabalhoso porque a preservação da memória histórica aqui no Brasil é um caso sério. Desde a arquitetura até a história dos costumes muito pouca coisa é preservada. Para você ter uma idéia, vou dar um exemplo: o autor escreve lá no livro que o assassino vem andando pela rua do Ouvidor em 1886. Isto é uma frase. Mas fazer um cena do assassino andando pela rua do ouvidor é outra coisa. Você tem de pesquisar qual é a roupa, o sapato, o tipo de chapéu que se usava na época. As lojas, como era o calçamento, a iluminação pública etc. É uma série de detalhes impressionante, que têm de ser pesquisados, por isso um filme demanda muito mais esforço.

Por que você optou por não usar músicas da época na trilha sonora?
Um dos motivos foi a vontade de não distanciar o público da obra. Uma coisa que costumo notar em filmes de época feitos no Brasil é o distanciamento, o não deixar o espectador penetrar na história. Eu poderia colocar a Chiquinha Gonzaga tocando piano, o Ernesto Nazaré, que é lindo, é bom, mas tem aquela cara de época, que distancia. Por isso, trabalhamos meses a fio a questão da música, para que ela funcionasse dramaticamente para o filme, tivesse referência de época, mas que não fosse a música da época. Isso é o que eu defino como tom.

Quais são suas expectativas para o lançamento?
O filme fez uma estréia muito boa no Rio de Janeiro e agora estou ansioso para ver o desempenho em São Paulo, que é o maior mercado brasileiro, decisivo para a carreira de qualquer filme. Eu fiz Xangô pensando no público; meu objetivo é de que o espectador goste de Xangô. Não estou preocupado com festivais, prêmios, carreira internacional, nada disso. O que quero é que o público brasileiro goste. Daí em diante o que vier é lucro.