Mike Cachuela

24/07/2009 18h37

Por Ana Martinelli

O Anima Mundi sempre traz convidados para conversar com os amantes na animação nos Papos Animados em suas edições. Em 2009, o festival trouxe o diretor de desenvolvimento do estúdio Laika, Inc, Mike Cachuela, cujo último trabalho foi na supervisão do storyboard e desenvolvimento da produção de Coraline e o Mundo Secreto


Em sua primeira visita ao Brasil, Cachuela veio ministrar o workshop A Criação de seu Filme para uma platéia de animadores profissionais, inscritos com antecedência. Formado pela CalArts (California Institute of the Arts), umas das faculdades de Artes mais respeitadas do mundo, o animador tem 15 anos de experiência no mercado. O curta-metragem Spacegirl, de 1991, feito quando estava no segundo ano da faculdade, rendeu-lhe convite para trabalhar na Pixar. No estúdio, desenhou Edna, a estilista engraçada, de Os Incríveis e fez também o storyboard. Mais, recentemente, fez Ratatouille

Mike Cachuela mostrou-se muito interessado e impressionado pelo tamanho de São Paulo e quis saber se quem mora aqui conhece todos os cantos da cidade. Disse que gostaria de ficar pelo menos uma semana para explorar como não-turista e falou sobre animação. Confira o bate-papo exclusivo de Mike Cachuela com o Cineclick:

Você veio ao Brasil para ministrar um workshop, chamado A Criação de seu Filme, para animadores iniciantes. Nele, aborda três passos: a chegada à sua história, preparação para a produção e ser fiel ao conceito, mas fazer concessões necessárias. O que é fundamental nesse processo?
O workshop é uma combinação de palestras que já fiz anteriormente e do que aprendi nesses anos de experiência, trabalhando com animação como roteirista, desenhista de storyboard e animador. A inspiração pode vir de uma situação ou de um personagem. É uma combinação de fatores que faz com que sua ideia vire um filme, mas o mais importante é sempre a história que você quer contar. Depois, vem como você vai realizá-la, mas ela tem de funcionar de cara, no roteiro. Por isso, temos de trabalhar as situações para que funcionem visualmente, o ritmo e quais são as melhores técnicas para sua história. E não importa em qual estágio da produção você está. É preciso lembrar constantemente o que você quer contar. Se você não for verdadeiro consigo e ao ler sua história, o roteiro não te entreter, então, provavelmente, não conseguirá atingir seu público.

Na animação tudo é construído, desde as expressões inventadas, a ação até o mínimo ruído em cena, para a fantasia. Fazer parte do processo diminui a magia?

Sem dúvida. Quando eu assistiCoraline e o Mundo Secreto finalizado pela primeira vez, comecei vendo erros e coisas que poderíamos ter feito melhor, mas depois de um terço do filme, entrei nele, na fantasia e, então, quando o filme acabou, eu estava tomado por ele. E pensei 'é realmente muito bom’. Acho que só assim é possível saber se é muito bom, quando é verdadeiro para quem faz também... Eu conheço todo o processo e fui capaz de me envolver: ainda há a magia.

Você já trabalhou em vários filmes conhecidos como Os Incríveis, Ratatouille, Formiguinhaz, só para citar alguns. Você pode contar mais sobre o processo?
Costumo chegar bem no começo do projeto, na fase do desenvolvimento, justamente por ter trabalhado em projetos como esses. Hoje, posso entrar em contato as pessoas que conheço na indústria e falo que eu quero trabalhar no projeto, e quase sempre acontece. Atualmente, tenho esta sorte. Muitas vezes, as coisas ainda são muito abertas: os personagens ainda não estão afinados, então, fazemos o desenho físico e afinamos os traços de sua personalidade. Às vezes, há uma história bem básica, o que é sempre muito legal, porque rola um processo de preencher os brancos, planejar como os diferentes personagens vão agir. É como um quebra-cabeças gigantesco que vai definir o que os personagens fazem, quem são e como são. Tentamos descobrir o que os personagens querem nessa história. Normalmente são coisas básicas do ser humano como ser aceito, ser o melhor naquilo que eles fazem ou conquistar o amor de alguém. Definido o que eles querem, tentamos achar na vida real como fazer essa história e os conflitos funcionarem de forma que também sejam divertidos, entretenham.
Esse estágio é muito divertido: você trabalha com os diretores, roteiristas, os artistas nesse quebra-cabeça.

Neste momento, você está trabalhando em algum projeto?
Sim, estou trabalhando num projeto próprio. É o mesmo processo, só que desta vez sou eu que estou coordenando todo esse trabalho. É um longa-metragem e espero que seja para todos, mas acho que é mais adulto porque tem violência. 

Você pode contar mais sobre o filme?
Não. Ainda não posso... Está muito no começo, mas o estúdio e os executivos que já conversei gostaram da proposta. Não quero falar nada antes de saber se vai mesmo acontecer, porque pode ser que não aconteça. O máximo que posso dizer é que tem a ver com o circo.


Apesar de ter como alvo principal as crianças, as animações hoje em dia têm a preocupação de contemplar também os adultos, independentemente de serem pais. O que você acha disso? As animações estão ficando menos infantis?
A animação tem esse estigma, mas acho que era porque algumas pessoas que criavam as histórias, especialmente no passado, achavam que sabiam do que as crianças gostam. Às vezes funciona, mas acho que não vem do lugar certo: do coração. Acho que tanto animações como os filmes live action, que vêem do lugar certo, funcionam, em geral, para todos os públicos, têm o poder de atingir as pessoas. Por sorte, diretores, animadores e produtores têm isso cada vez mais como um objeto e feito filmes que eles também querem assistir e, talvez, que eles queiram mostrar para os próprios filhos. Criar um filme somente para criança e criar um filme para você são coisas bem diferentes. Eu acho que quando você faz pensando e se divertindo, traz toda sua experiência e talento para dentro do projeto, é muito estimulante, sem deixar de pensar ou ter o cuidado de deixá-lo acessível à audiência mais jovem. Foi o que George Lucas, Steven Spielberg começaram a fazer seus filmes em Star Wars e E.T. – O Extraterrestre, ou a Pixar, que conseguiu a reputação que tem hoje. Nós queremos fazer filmes divertidos, que temos vontade de ver. Isso é fundamental. Porque, no final das contas, todos sentimos que é genuíno.