Milhen Cortaz (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

O rosto do ator Milhen Cortaz é um dos mais presentes no cinema nacional desde 2000, quando participou de seu primeiro longa-metragem, Através da Janela. Atuações em filmes como Carandiru (2003), A Concepção (2005) e Tropa de Elite (2007) são responsáveis pelo rosto forte, o porte atlético e a voz grave de Cortaz tenham tornado o ator reconhecido pelo grande público. Em Encarnação do Demônio, ele interpreta um padre que quer vingar a morte de seu pai, assassinado pelo lendário Zé do Caixão. Cansado, bocejando bastante - talvez conseqüência dos muitos trabalhos que Cortaz vem acumulando nos últimos meses -, o ator conversou com o Cineclick sobre sua carreira e, claro, como foi trabalhar com José Mojica Marins.

Como você foi parar em Encarnação do Demônio?
Vim de uma seqüência de filmes. Todo mundo trabalha muito, é uma equipe muito grande, mas pequena. O Dennison (Ramalho, roteirista do filme) conhecia há muitos anos atrás, em Porto Alegre, a gente ficou muito amigo, muito admirador do trabalho um do outro. Trabalhei diversas vezes com o Paulo Sacramento e os Gullane (Caio e Fabiano, irmãos sócios da produtora Gullane Filmes) me lançaram. Desde Através da Janela, venho fazendo teste pra todos os filmes que eles produzem. Fiz a maioria dos filmes deles. Então, a gente tinha uma campanha muito grande quando eles começaram a escrever o roteiro e escrever um personagem pra mim. E foi lá que eu conheci o Mojica, quem ainda não conhecia. Neste primeiro encontro, ele ficou muito encantado com a minha voz. Ele achava que nosso duelo seria como do trovão e a trovoada. Depois, fiz testes com outros atores. O Mojica simpatizou comigo e achou que a idéia deles era genial. Na verdade, eu ganhei um presentão dos meus amigos, né? E não ganharia se não tivesse uma admiração mútua e recíproca de ambas as partes. Foi assim que consegui chegar nesse filme, que queria muito fazer. A gente nunca consegue fazer nada sem a ajuda de ninguém, né? Minha mãe disse há pelo menos oito anos, chegou o século 21 e ela falou: "meu filho, aquele que tem humildade tem que saber pedir". Então, tudo o que eu fiz foi ligar e pedir. Acho que o único filme na minha vida que eu não pedi e não fiz teste foi Tropa de Elite. O resto... Fiz teste pra todos. Fiz teste agora pro Condomínio Jaqueline, do Roberto Moreira. Nada na minha vida, no caminho da arte, foi fácil. Nada. E eu acho que a escolha é sua. Lá no início, quando todo mundo queria me lançar, escolhi ser bom ator, aos meus 20 anos. E, a partir do momento que eu fiz essa escolha, Deus escutou e falou assim: "você escolheu o mais difícil? Então vai lá. Tem que ser, mas vai se f*** pra vencer".

E hoje em dia ainda assim?
O tempo inteiro.

Você se considera um vencedor?
Não me considero um vencedor, me considero um cara que está ta aí, trabalhando. Acho que sou um sortudo. Estou sempre em bons projetos por mérito meu, né? Por uma série de coisas, mas... Muita sorte, né? Vencedora é minha avó que tem 93 anos, que viveu tudo isso que não vivi. Eu me acho um operário padrão aí que tem oportunidade de trabalhar num lugar que é tão difícil né?

Como foi trabalhar com o Mojica?
A gente tem toda essa idéia dos filmes dele, né? Que ele divulga tão bem, que não é trash, nem nada. Tão pouco, com cenários precários e tudo. Um cara que não tem recurso pra fazer efeito especial, corta o negativo e cola purpurina em cima do filme, é um cara que tem solução. Eu fiz teste com um ator, cujo nome não vem ao caso dizer quem era. Enfim, o cara tinha Mal de Alzheimer, O cara não conseguia decorar o texto.

Pra esse filme?
Pra esse filme. Um ator muito das antigas. Ele falava o texto e não lembrava a frase seguinte. No processo evolutivo da doença. O Zé ficou muito triste do cara não assumir. Aí, o ator parou uma hora, teve um lapso de consciência e falou: "olha, vou fazer papel ridículo, nunca passei por isso e estou me sentindo humilhado, não sou mais capaz de ser ator".

Triste.
E eu ali, novato no meio. Eu não tava acreditando. O Zé chorou muito... Ele falou: "Milhen, queria que ele fizesse mesmo com esse problema, a gente faz take a take, frase a frase."

Curioso que o único papel pro qual você não fez teste foi pra Tropa de Elite, seu papel de maior destaque...
Esse daqui eu até fiz teste.

E foi um papel escrito pra você, né?
Foi um testinho, mas eu tinha que mostrar pro Zé como trabalhava e tudo. É um papel de mais destaque sim Tropa de Elite. É que combinou uma série de fatores. Primeiro, o José Padilha (diretor do filme) já tinha escolhido o elenco inteiro e não tinha conseguido escolher esse personagem e aí alguém soltou o meu nome. Eles estavam prestes a começar a preparação toda do elenco e falaram: "Puxa, lógico que ele é fenomenal, ele é o Milhen". Então foi o momento certo, na hora certa. Foi mérito com sorte. Eu digo que sou um cara muito sortudo.

Como foi filmar os dois longas simultaneamente? Porque são papeis totalmente diferentes...
Começaram a captar este projeto quando comecei a ensaiar o outro lá. Não tive tanto problema porque o papel era pra mim, a equipe toda me queria muito, eles fizeram de tudo pra se virar pra me ajudar a conseguir terminar Tropa de Elite porque estava muito no fim do outro também... Tanto que neste filme estou careca porque no fim do outro fiquei careca. Minha grande luta era pra ter calma, era comigo mesmo. Como sou "caxias", gosto de fazer tudo. Foi até um prazer porque sofri tanto pra fazer o outro filme... Sofri de verdade, aqui era o meu parque de diversões.

Você mencionou que Encarnação do Demônio mudou a sua vida, a tua forma de ver a profissão do ator. Como assim?
Faço coisas muito intensas. Para mim, todos os meus personagens têm um depoimento muito próximo a mim, do que eu estou a fim no momento, o que penso sobre aquela história. Para chegar a isso, no prazer depois, de fazer e lá no final assistir, tem de sofrer muito. É sempre muito dolorido. O que o filme do Zé me trouxe a entender não é orgânico, está na minha cabeça, que tenho de me esforçar. Que você pode chegar à mesma qualidade do trabalho, só que se divertindo.

Era uma coisa que você não via antes?
Transformou a minha vida. Este trabalho ensinou a me divertir mais, levar as coisas mais na esportiva, mais na boa, menos compromisso com tudo isso. Estava muito estressado, aprendi com o Mojica a ser mais relaxado. E é engraçado porque cheguei no filme do Mojica no final do ano, num período muito complicado de trabalho, fiz cinco longas naquele ano, uma novela e uma peça... Tudo junto. Estava sem criatividade nenhuma. Eu lia a cena e não conseguia ser criativo porque já tava cansado do trabalho. Tinha acabado minha energia. Vou te dizer, gosto muito do resultado do meu trabalho. É um lado egoísta mesmo, mas não sou satisfeito, devia ter feito muito melhor, devia ter me divertido mais. Estava um pouco bobo de cansaço. Fiz o trivial, dentro do risco que achei que estava correndo por falta de força. Mas aprendi que não dá pra fazer muitas coisas ao mesmo tempo. No meio, aparece algo que você sempre esperou; você está até preparado, mas não está inteiro.

Hoje em dia, que tipo de desafio você espera em sua carreira?
Não posso achar que tudo o que eu faço é bom. Olha pra mim e fala: "ótimo, mas não dá pra fazer isso, não dá pra fazer diferente não? Faz a mesma coisa, mas diferente porque esse caminho já foi". Daqui em diante, o que eu espero é o que eu fiz.

E você nunca encontrou nenhum diretor que tenha te dito isso?
No teatro, encontrei vários. Passei sete anos sem nenhum e no cinema encontrei o Zé Eduardo Belmonte, o único que não me deixa ir pelo mesmo caminho. Porque o cinema é muito imediatista neste sentido, né? Tempo é dinheiro, é tudo muito rápido. Aí hoje, na pequena sabedoria dos meus 35 anos, tento humanizar cada um de forma que consiga contar a mesma história de uma maneira diferente, entendeu? Que daí, eu trabalhando com ele fazendo isso, no próximo filme que ele me chamar, a gente vai ter uma amizade e eu posso falar pra ele: "agora você confia amigo?" Acho que até agora não me decepcionei comigo ainda assim. Só tive que me vender na hora que tive que me vender, mas soube me preservar e seguir a coerência do meu raciocínio.

Você acha que é possível para um ator brasileiro viver somente do cinema, ficando alheio à TV, se ele escolher?
Não... Estou com uma mente diferente pra televisão. A televisão não tem profundidade, ela não sugere, ela te dá.

Você se refere à composição dos personagens?
De compor as emoções. O cara te sugere a uma emoção, ela tem de ser clara. Amanhã é outra coisa. As pessoas estão acostumadas com o bem e com o mal. Com um que está sofrendo, o que está feliz. A televisão não te dá profundidade, nem aprofundamento em nada. Ela é achatada. Então, é um outro olhar, é um outro jeito de pensar a arte. É muito mais técnico do que emotivo. Esse negócio da sugestão é genial. O público pode interpretar da forma que quiser, acho que essa é a grande função da arte, deixar aberto. É o mais próximo da literatura, né? Que é quando a gente viaja mesmo. Cada um enxerga aquela história de um jeito e eu acho que o cinema faz isso. Na TV não dá. Ela não tem de sugerir, tem de te entregar. A coisa mais difícil pra mim é fazer televisão.

Você começou a carreira artística aqui, viajou pra Itália e aí começou profissionalmente a trabalhar como ator lá. Você tem a pretensão de ter uma carreira internacional?
Tenho. Tenho muita vontade. Estudo pra isso. Estudei fiz quatro anos fora. Não fiz mais porque meu inglês é muito ruim, mas tenho muita vontade. Não é uma coisa que eu persigo como meu objetivo de vida, mas tenho vontade de um dia... Agora então, encoraja a gente, o mercado está tão aberto para os estrangeiros lá fora. Essa possibilidade está muito mais próxima. Já fiz quatro filmes americanos, dois italianos... Já fiz uns filmes fora, todos levados pelo cinema brasileiro. Aprendi muito com tudo isso. Mas tenho vontade sim.

Para onde sua carreira aponta em relação ao cinema?
Tenho um monte de filme pra estrear e tenho alguns projetos pra fazer, que eu não sei se até o final do ano. Também tenho um filme suíço pra filmar no final do ano lá em Brasília, que é uma ficção cientifica de um maluco que mora no Japão.

Um cara suíço que mora no Japão e vai filmar aqui?
Aqui. É, ele gosta muito de Brasília. Ele sabe muito de Brasília. Aí tem o projeto do Philippe Barcinski ano que vem, tem dois que os Gullane acabaram de me falar e já me pediram pra fazer. Mesmo depois de ter feito dois filmes este ano - o Augustas, do Chiquinho (Francisco César Filho), e Plastic City, do Yu Lik-wai -, o grande projeto pra mim este ano é minha filha, que nasce em setembro. Estou preocupado mesmo é em ser pai.

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