Moacyr Góes, Lucy e Luiz Carlos Barreto

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

Seis jornalistas disputam 15 minutos do tempo do diretor Moacyr Góes e os produtores Lucy e Luiz Carlos Barreto. Os entrevistados, que representam alguns dos nomes mais prolíficos dentro do cinema brasileiro atual, encontraram a imprensa nesta verdadeira gincana que foi lidar com o tempo e a quantidade de assuntos a serem abordados na ocasião do lançamento do longa-metragem O Homem que Desafiou o Diabo.

Mesmo com o tempo apertado (e disputado), falou-se bastante principalmente sobre a concepção do longa-metragem, adaptação do livro As Pelejas de Ojuara, de Nei Leandro de Castro. Confira o resultado:

Quão fiel foi do roteiro ao livro?
Moacyr Góes: Senti-me absolutamente seguro em relação à adaptação em dois momentos: quando o Luiz Carlos e a Lucy gostaram porque ambos estavam no projeto há bastante tempo e quando o autor do livro gostou, o que é quase impossível de acontecer. Isso me deu uma certa segurança. Conheço a obra há algum tempo e me debrucei sobre ela, tentando, principalmente, pegar o espírito do personagem, a estrutura episódica do livro e os personagens mais significativos dessa trajetória de Ojuara. Também criei outros personagens que pudessem enriquecer esse universo. A única maneira de você ser fiel à literatura é sendo infiel, desde que se mantenha o espírito da obra. No caso de Ojuara, ele é um herói justo, ao mesmo tempo cheio de humor e desejo, profundamente humano, sem nunca perder essa essência heróica.

Antes de entrar em contato com Luiz Carlos, você já havia pensado em adaptar esta obra ao cinema?
Moacyr Góes: Quem me apresentou a esta obra foi meu irmão, Leon Góes, que também é ator e participa deste filme. Ele me disse que eu ia adorar este livro, pois ele tem duas coisas que gosto: sacanagem e erudição, o que me deixou curioso. Leon também me revelou que os direitos de adaptação tinham sido comprados por Luiz Carlos Barreto, com quem encontrei e contei sobre essa minha loucura de levar o livro ao cinema, a mesma que ele tinha. Lembro-me até hoje a ocasião, foi num restaurante e, na véspera, passei a noite inteira relendo o livro todo, de cabo a rabo; vi o dia amanhecer lendo para ter todas as idéias frescas na cabeça na hora de conversar.

Quais foram as referências que você juntou para a realização deste roteiro?
Moacyr Góes: Evidentemente, há referências de literatura produzida sobre o picaresco, a comicidade. Cabeça de diretor é muito complicada, a gente vê um filme prestando atenção nos ângulos, enquadramentos, não no filme como um todo. Alguns ficaram na minha mente muito claramente, como os dirigidos por Sergio Leone, mas sem a dimensão trágica que ele apresenta. É difícil falar sobre isso: O Homem que Matou o Diabo não é produto dessas referências, é todo um contexto, é um universo com toques que vão desde a comicidade de Rasputin até Mazzaropi, sendo que uma coisa não tem nada a ver com outra, ao mesmo tempo em que o próprio filme não tem nada a ver com nenhuma das duas coisas. Sempre tive muito claro que minha maior referência era o roteiro, os personagens e o livro, não outro filme ou autor. A gente cria tudo isso também a partir do que viveu, mas a obra é autônoma. Todo filme tem uma maneira própria de contar uma história, também por meio dos planos eleitos pelo diretor. Então, cada plano é uma idéia, não é solto no tempo. Este longa não foi feito intuitivamente e o que eu mais gosto é que isso não transforma num produto "cabeça", hermético, ele é para ser gostado.

Lucy Barreto: Para mim, o filme também tem um pouco de Dom Quixote, apesar de não ser a mesma história. É muita coisa, mas tem aquela identidade profunda do nordeste brasileiro.

Luiz Carlos Barreto: O Homem que Desafiou o Diabo não é o decalque de outra produção; apesar das possíveis referências, as imagens são absolutamente autônomas, conseqüência do roteiro e o ambiente. O roteiro é uma coisa, que pode ser diferente quando você se depara com o ambiente. O critério de escolha para as locações durou dois meses, principalmente de visitação à região de Caicó, onde o filme se passa.
Ele vai se formando na cabeça do diretor e dos produtores na medida em que as paisagens física e humana vão sendo identificadas. A Lucy - mais do que eu porque ela gosta de discutir o roteiro - e eu costumamos conversar com o diretor para chegar num filme que seja de comum acordo para todas as partes, seja num projeto trazido pelo diretor ou vice-versa. O cinema é feito de projetos. O Moacyr tinha um conhecimento daquela realidade sócio-cultural por ter nascido e sido criado ali; o ambiente estava depositado nele. O sentimento, portanto, veio espontaneamente, é uma ligação telúrica. O filme não se constrói somente intelectualmente e o Moacyr tem um domínio muito grande de dramaturgia, tanto que seu trabalho no teatro é um dos mais importantes do Brasil.
A grande dificuldade que os roteiristas encontravam em adaptar o livro era lidar com a saga do personagem e seus obstáculos e reviravoltas dramaturgias; isso o Moacyr soube encadear muito bem com seu conhecimento de teatro clássico e moderno. O filme foi construído a partir de todos esses elementos.

No material de imprensa, você afirma que esta é a primeira vez que você consegue mergulhar profundamente no universo de um filme. Porque isso só se deu em seu nono longa-metragem?
Moacyr Góes: Por um lado, encontrei um universo absolutamente fascinante para mim. Por outro, concebi um filme que também estava na cabeça da Lucy e do Luiz Carlos Barreto. Eles me deram condições para fazê-lo, por isso, me senti muito à vontade. Nunca houve nenhum tipo de desentendimento entre aquilo que eles pensavam e o que estava em minha cabeça, onde este universo permanece vivo.

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