Murilo Salles (Exclusivo)

25/05/2009 17h40

Por Roberto Guerra

O cineasta, fotógrafo e roteirista Murilo Salles faz parte da história do cinema brasileiro desde 1970. Autor do premiado Como Nascem os Anjos (1996), também dirigiu Nunca Fomos Felizes (1984), Faca de Dois Gumes (1989) e o documentário Todos os Corações do Mundo (1995). Seu quinto longa, Seja o Que Deus Quiser, que chega às telas paulistas na sexta-feira 26, é uma comédia de erros insólita que promete despertar amor e ódio entre os espectadores. Rodado no morro do Alemão, no Rio, e em São Paulo, a produção tem no elenco Marília Pêra, Rocco Pitanga, Caio Junqueira, Ludmila Rosa e Débora Lamm, além das participações especiais de Nicete Bruno e Marcelo Serrado. Na entrevista que segue, o diretor fala da nova empreitada e também de suas perspectivas para o cinema nacional.

Seja o Que Deus Quiser é um filme carioca ou paulista?
Certamente, é um filme brasileiro. Um filme que surgiu das minhas mazelas criativas, de notar, cada vez mais, essa radicalização das diferenças sociais, que é uma coisa que me intriga muito no Brasil. O País é maravilhoso, mas tem uma das maiores diferenças sociais do mundo. E não é invenção de artista, são dados sociológicos. Comecei, então, a pensar e buscar qual seria o extremo dessa diferença. Pensei no Rio de Janeiro - porque sempre começo no meu umbigo-, morro do alemão, um rapaz negro... Depois, na capital de São Paulo, o Estado mais rico do Brasil, uma VJ - que é uma coisa meio mitológica do cool, do bacana, do sofisticado. Pensei: 'Colocar uma VJ e um negão do morro do alemão num caldeirão deve dar feijoada.'

Você começou a trabalhar esse roteiro depois de lançar Como Nascem os Anjos?
Na verdade, esse projeto surgiu muito rápido. Eu estava tentando fazer um outro filme, O Silêncio da Chuva, que não consegui captar. Aí teve esse concurso de baixos orçamentos do Ministério da Cultura. Quando li sobre o concurso no site do Minc, faltavam a apenas 40 dias para o final. Foi um filme que criei em 40 dias. Mas como todo cineasta, tenho um caldeirão no qual guardo minhas idéias, lá no inconsciente. Daí, a partir dessa composição do negão do morro do alemão e da VJ de São Paulo, fui desenvolvendo o Seja o Que Deus Quiser.

E por que essa história emergiu desse "caldeirão de idéias" nesse momento?
Eu estava com vontade mesmo de "dar um chute no pau da barraca". No filme, todos são culpados e ninguém é inocente. Nem o PQD (personagem interpretado de Rocco Pitanga), que todo mundo fica dizendo que é bonzinho e tal. Ele também está lá se dando bem; foi cooptado para aquilo voluntariamente. Ele não é nada bobo e tinha lá as razões dele. Ao mesmo tempo, queria tratar essa questão da ética no Brasil, que está ligado a algo mais amplo que é o problema da justiça. O Brasil é um País sem justiça. Até acho que nos últimos 20 anos demos alguns passos legais e importantes politicamente. Mas o que ainda pega aqui é a justiça e a moral. A justiça no Brasil é algo em que o brasileiro não acredita, ninguém acredita, um cara sério não pode acreditar. Por exemplo, se acontece alguma coisa com minha filha e ela vai parar numa delegacia, vou logo tentar arrumar meu esquema, como todo mundo. Isso é um absurdo. Seja o Que Deus Quiser discute isso seriamente, sem querer dar lição de moral.

Você o considera um filme pessimista?
Eu não acredito que Seja o Que Deus Quiser tenha uma visão pessimista. Como Nascem os Anjos talvez tenha sido pessimista, escrito na tragédia. Como não queria trabalhar nessa clave da tragédia novamente, fiz uma reversão total nesse filme. Apesar disso, o filme é muito crítico, uma grande sátira ao Brasil. Mas se você mergulhar um pouquinho na trama vai enxergar uma esperança, um toque de saída.

Seu filme é bem diverso no cenário cinematográfico brasileiro. Você acredita que produções como Seja o Que Deus Quiser contribuem para tornar nosso cinema mais abrangente e presente no cenário cultural do brasileiro?
Essa eu acho que é a principal característica do filme, que acredito que deva gerar curiosidade nas pessoas. Eu mesmo me espanto, às vezes, porque nunca vi um filme brasileiro como Seja o Que Deus Quiser. Ele é muito próprio, tem muita personalidade, tem toda uma tentativa de escrever uma dramaturgia própria. É uma história bastante singular, não um "plotezinho" comum. É um filme muito interessante. Acho legal estar estreando esse filme num momento muito positivo do cinema brasileiro. A gente tem filmes completamente diversos, o que é fundamental. É fundamental você ter um Amarelo Manga, um Carandiru, um Cidade de Deus, um Dois Perdidos (Dois Perdidos Numa Noite Suja), um Homem que Copiava. Ter filmes comerciais ótimos como Lisbela e o Prisioneiro... Isso é muito bom. O cinema brasileiro chegou a uma maturidade e isso está se revertendo em números; é concreto, não é papo de intelectual que sai no jornal. É a realidade da bilheteria.

Como você se relaciona com os atores de seus filmes?
Eu gosto muito do trabalho com o ator. O ator pra mim é a pessoa que vai entregar a vida dele, a sensibilidade dele, a emoção dele para aquela maluquice que eu estou inventando. E não é um processo simples isso. É um processo intenso, às vezes, doloroso; mas muito prazeroso também. O momento que eu mais sofro num filme é na hora da escolha dos atores. Quando você escolheu um ator, determina completamente o perfil daquele personagem.

E o que você queria que esses atores levassem para a tela em Seja o que Deus Quiser?
A gente procurou uma certa histeria. A palavra que eu usaria seria histeria, a coisa da banalização. É aquela banalização que a gente precisa fazer no Brasil para conseguir viver neste País tão cheio de contradições. É aquilo de eu estar no carro, ver uma cena de violência e ter de banalizar porque senão você pira. Só que isso tem um custo, vai te deixando louco, vai te tornando esquizóide. Isso acaba gerando uma histeria comportamental nas pessoas. Existem pessoas como aquelas do filme, por mais que se ache que não, apesar de eu ter feito uma composição artística e nada sociológica. Em nenhum momento a gente procurou um tom naturalista. Em nenhum momento eu quis fazer sociologia, antropologia cultural. Fiz a composição dos personagens num nível de histeria social gerada por uma banalização diante da violência.

O que você achou do discurso do ministro Gilberto Gil no último Festival de Gramado, sobre as pretensões do governo em relação ao cinema brasileiro?
Um discurso maravilhoso e impossível... 'Over the Rainbow'. Se o ministro conseguir realizar 10% do otimismo dele já está muito bom. A gente começou essa entrevista falando da riqueza desse momento do cinema brasileiro, da diversidade, da qualidade dos filmes. Acho que para fazer cinema sério no Brasil, temos de produzir muito mais. Principalmente, temos de atacar a questão da distribuição e da exibição. Sem isso, não adianta nada. Eu, por exemplo, não tenho uma TV Globo por trás. Não sei o que vai acontecer com esse filme, apesar de ter certeza que tenho um filme bom em mãos. Fiz o meu trabalho, mas não sei se ele vai chegar ao público que merece; por falta de verba, de cadeia exibidora. Nos complexos de cinema que dão muito dinheiro o cinema brasileiro ainda não entra.

Como será o esquema de distribuição do filme no País?
A gente está começando aqui em São Paulo, porque achamos que o filme funcionou muito bem aqui; as pessoas riem muito, se divertem muito. Depois, vamos estrear no Rio de Janeiro, Salvador e Recife. Antes disso, o filme estréia em Brasília. Nesse meio tempo, o filme chega a Porto Alegre e Belo Horizonte.