Não penso em Oscar, penso em fazer bons filmes, diz Anna Muylaert

Em Mãe Só Há Uma, o jovem Pierre descobre que foi roubado na maternidade

19/07/2016 16h54

Por Daniel Reininger

Anna Muylaert é uma das principais cineastas brasileiras e faz filmes de qualidade há muito tempo, como Durval Discos e É Proibido Fumar. Com Que Horas Ela Volta? entrou na briga pelo Oscar e ficou conhecida do grande público. Agora com seu novo longa, Mãe Só Há Uma, volta a tratar de questões importantes como intolerância e o verdadeiro significado de família.

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Na trama de Mãe Só Há Uma, o jovem Pierre descobre que foi roubado pela sua mãe na maternidade e precisa aprender a viver com sua verdadeira família, seus pais biológicos, que esperaram dezessete anos para encontrá-lo. Só que essa reunião está longe de ser tranquila. Leia a crítica.

Confira o bate-papo abaixo:

O seu novo filme mostra as dificuldades de adaptação numa situação extrema, mas também mostra a intolerância das pessoas com as diferenças e individualidades de cada um mesmo em situações do dia a dia. Comente um pouco sobre isso.

Anna: Acho que o filme tem cores fortes para falar disso, tudo aqui é superlativo. Os pais esperaram dezessete anos pela volta do filho e ele não corresponde minimamente às expectativas deles. Todos estão sofrendo, todos estão tentando entender como superar suas expectativas.
 

Fale um pouco sobre como encontrou Naomi Nero e o porque de colocar Daniela Nefussi como as duas mães de Pierre/Felipe.

Anna: Fizemos testes e Naomi apareceu. Chamou atenção pela sua figura longilínea e andrógina e ganhou o papel. Fizemos muitos ensaios, terapias de choque e improvisos para que ele chegasse ao set já preparado.

E o título do filme "Mãe Só Há Uma" tem uma dose de ironia, pois justamente conta a história de um menino que tem duas mães. Mas quando eu tive essa ideia de usar a mesma atriz para os dois papeis o título começou a ganhar novos sentidos. Eu achei que criaria uma estranheza visual interessante, afinal o menino vive um drama por largar uma mãe e, quando conhece a outra, depara-se com a mesma, que não é a mesma. Essa escolha é também uma espécie de anedota freudiana.

Cena de Mãe Só Há Uma


 

Mesmo que não tenha acontecido com Que Horas Ela Volta?, como você encara a possibilidade de vencer um Oscar em sua carreira?

Anna: Não penso nisso. Penso em fazer bons filmes.
 

As mães de seu novo filmes são pessoas realistas, que poderíamos encontrar em nossas vidas. Você acha que o cinema brasileiro ainda falha em representar as mulheres?

Anna: Acho que o cinema mundial ainda falha nessa representação, afinal a grande parte dos diretores do mundo são homens e eles criaram um imaginário para a mulher que já está cristalizado e ultrapassado há muito tempo, mas que ainda é o padrão que rola na maioria dos filmes.
 

Como vê o cenário cinematográfico atual brasileiro, dominado por comédias rasas, mas também com obras de qualidade começando a chamar atenção do público em geral?

Anna: Ano passado participei de uma mesa de diretores no festival de cuba e todos eles falaram que o mercado de cinema é "bipolar": a divisão entre comédias rasas e filmes de arte acontece em todo o mundo. Ao mesmo tempo, existe o que gosto de chamar de "filmes do meio", os quais têm condições de dialogar com o público e ao mesmo tempo de fazê-lo pensar.
 

O que mudou na sua vida pessoal e profissional após Que Horas Ela Volta?

Anna: Nossa, tudo na minha vida mudou. Parece que passou um tsunami. Passei o ano viajando para lançar o filme no exterior, conheci muita gente e muitas outras formas de trabalho. Viajei para debater o filme pelo Brasil, o que me fez conhecer muita gente também e ouvir histórias humanas de Jéssicas e Fabinhos que encontrei. Tudo isso me fez crescer. Agora estou exausta, preciso descansar.
 

Cena de Mãe Só Há Uma

O que mudou na forma de fazer cinema no Brasil na comparação entre Durval Discos e seus dois últimos longas?

Anna: Acho que amadureci muito tanto no roteiro quanto na direção. Minhas histórias agora estão mais simples e meu modo de lidar com os atores cresceu depois que passei a filmar em digital. Mas há também pontos em comum. O deslocamento do papel da mãe, a presença da criança sequestrada e outros elementos já vêm desde Durval discos.
 

E agora, qual é seu próximo projeto?

Anna: Estou começando a escrever um filme sobre machismo, mas ainda está muito no início do processo.

Veja o trailer do filme: