Não queria um filme carola, diz Marcelo Yuka sobre documentário que trata de seu drama pessoal

Dirigido por Daniela Broitman, filme fala sobre desentendimento com o Rappa e vida após tragédia

29/11/2012 13h00

Por Roberto Guerra

Foto: Divulgação

Marcelo Yuka: "A verdade de um personagem não se alcança só mostrando virtudes" 

Filme repleto de honestidade, Marcelo Yuka no Caminho das Setas estreia nesta sexta-feira (30) levando ao público um retrato autêntico de parte da vida do ex-baterista e letrista do Rappa, Marcelo Yuka, vítima de nove tiros em 2000 após ficar em meio ao fogo cruzado de bandidos no bairro da Tijuca, no Rio. O revés urbano afastou o músico de seu instrumento e o prostrou para sempre numa cadeira de rodas. Enquanto ainda se recuperava, manteve-se ligado à banda, compondo e participando de alguns shows, mas, um ano depois, em meio a um episódio mal explicado, deixou o grupo. O documentário, dirigido por Daniela Broitman, esclarece em detalhes o que ocorreu e mostra também a barra pesada enfrentada por Yuka para se recuperar das sequelas físicas e mentais da tragédia. Neste bate-papo com o Cineclick, o artista, assim como no filme, não foi de meias palavras ao falar do longa e da vida.


O filme é muito honesto ao tratar de sua saída do Rappa, abrindo espaço para seus ex-companheiros de banda falarem a versão deles dos fatos. Isso o incomodou

A verdade de um personagem não se alcança só mostrando virtudes. Um bom personagem se faz valer também em suas fragilidades, seus erros. Eu, desde o início, falei para a Dani: ‘Você tem de ir atrás de pessoas que vão ter certo nariz torto pra mim’. Não queria um filme carola, dramático. Queria mesmo desconstruir essa coisa de herói, de célebre pela vitimização. Então, tinha que passar por essa história do Rappa por mais que seja indigesta. Não é uma coisa confortável pra mim, mas tinha que ter eles ali falando. Eles, nas certezas que apresentam no filme, me dão mais provas de que estava certo.

A questão foi grana mesmo, certo?
Fazia muito tempo que a gente já era bem pago por nosso trabalho. O Rappa não parou de fazer show. Tudo que eles alegavam naquele momento estava longe de ser uma coisa que não dava para sobreviver. Se tem uma coisa positiva é que está tudo na voz deles. E por mais que tenha sido difícil para mim, acho válido. E não precisa ser muito inteligente e nem muito sensível para ver que, no fundo, havia uma luta por poder e dinheiro, que não respeitou nem um cara que levou nove tiros, que tinha acabado de perder sua maneira de se expressar. É de uma pequenez humana muito grande. E o bom foi que eu não precisei contar isso. Por mais que eu fale alguma coisa ali, o que apoia mais meu ponto de vista são as declarações deles.

Neste longa você se expõe como raras vezes se vê alguém fazer num documentário. Foi difícil? Pensou em desistir?
Quando a Daniela falou sobre o filme o evitei durante um ano mais ou menos. Mas daí, quando não teve jeito mesmo, quando ela me convenceu, pensei que iria tirar de letra. Mas vi que não era nada disso. O cinema é muito incisivo, muito arrogante. Ele, como manifestação artística, na hora que se está produzindo, é muito prepotente. Pela desculpa do cinema você pode fechar uma rua e foda-se que está causando engarrafamento. A desculpa autoritária é sempre ‘Nós estamos fazendo um filme’. Pô, foda-se que está fazendo um filme! Por diversos momentos eu quis parar, parei mesmo. Se não tivesse um contrato assinado, não tivesse dado minha palavra, não teria feito. Teria começado, mas não teria acabado. É uma merda... A Daniela é muito espaçosa. Ela pode dizer que se preocupa comigo, mas ela se preocupa é com o filme dela, como todo diretor. Essa é a verdade.

Marcelo Yuka no Caminho das Setas não é um filme que dialoga somente com seus fãs ou do Rappa. É um filme com várias mensagens embutidas, de humanismo, de valorização da vida. Nunca dei tanto valor às minhas pernas, ao fato de poder andar, como fiz quando acabou a sessão...
Sinceramente, cara, é um motivo de orgulho. Você me envaidece quando fala o que você falou agora. Ainda assim, acho que o filme é da Daniela, um recorte dela sobre mim. Eu me vejo ali, claro, mas aí vem a coisa egocêntrica não só do artista, mas de qualquer um. Você vê uma vida de 46 anos resumida em 70 minutos. Vai tomar no cu! (risos). Eu sou melhor que isso isso aí. A gente está num momento em que fazer filme sobre uma pessoa me parece uma coisa meio Big Brother. Estamos num momento de muita celebrização das coisas. Então, esse filme me é desconfortável.

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No Caminho das Setas: artista se redescobre após tragédia

Como tem sido a acolhida do público? As pessoas vêm conversar com você sobre o filme? O que dizem?
Eu não vejo o filme com as pessoas. Assisti a esse filme duas vezes e as duas em casa. Pô, você está aqui e a pessoa está vendo sua vida do seu lado. Sou um cara muito desconfiado. Eu não chamo ninguém para ir num show que faço. Chamar pra mim é o mesmo que estar dizendo: ‘Vá lá assistir que eu sou foda, sou o tal....’ Minha família e amigos ficam putos com isso porque descobrem pela mídia. É que nem papo de camarim após um show. Ninguém vai chegar lá em você para dizer ‘Oi, Marcelo, tudo bem? Eu vim aqui para dizer que seu show é uma merda’. Então, sou sempre desconfiado com as opiniões e prefiro não ver junto do público.

Qual a diferença entre o Marcelo Yuka dos tempos de Rappa e o de hoje? O que mudou em sua perspectiva de artista depois da tragédia?
Passei por uma destruição física muito grande. Noves tiros é tiro pra caralho! Fora as feridas na alma. Eu aprendi muitas coisas nesse tempo. Como artista fiquei muito sensível a outras coisas. Também passei a duvidar muito mais do mercado. Claro, quero me expressar, quero continuar me expressando. Nunca trabalhei tanto, mas estou mais exigente. Posso tocar no posto de gasolina ali da esquina, desde que esteja amarradão em fazer isso. Ao mesmo tempo, tem uma porrada de lugares imensos, de festivais que eu não iria nem para assistir.

Esse novo Marcelo Yuka ainda é um artista pop?
Essa é uma nova fase minha como músico. O Rappa era pop. É pop. Eu queria ser, mas não sou tanto. Não tenho nenhum problema em ser pop. O problema é como ser. Eu tenho que me achar. Não estou a fim de me curvar ao mercado. Meu trabalho é mais pessoal agora. Estou procurando sempre outras linguagens, o tempo todo. Fico muito tempo fazendo um disco e, às vezes, tenho medo de lançar, de acabar. Tenho pavor de rádio, por exemplo. Aquela coisa do locutor chegar e falar todo animado: ‘Estamos aqui com Marcelo Yuka...’ Isso me mata, me dá uma depressão... O cara estava sério antes, daí vamos entrar no ar e pronto, o cara muda... Tudo é muito show... Quero cuidar de obras com começo, meio e fim. E, muitas vezes, o cara está interessado no fragmento de uma obra artística. É um direito dele, mas é um direito meu também querer fazer do meu jeito.