Nelson Pereira dos Santos

25/05/2009 17h40

Por Angélica Bito

Nelson Pereira dos Santos é um dos cineastas mais importantes na história do cinema brasileiro. Seu primeiro filme, Rio 40 Gaus (1956), tornou-se um marco ao apresentar uma divisão de águas entre o que era feito e o chamado Cinema Novo - diretamente influenciado pelo neo-realismo italiano. Após 50 anos de carreira, depois de 10 anos sem filmar um longa de ficção, Nelson Pereira dos Santos volta ao gênero que lhe trouxe ao mundo do cinema com Brasília 18%, uma crônica de mistério, romance e drama filmada nos palcos dos interesses políticos na cidade que dá nome ao filme. Simpático, com fama de generoso entre os atores, Nelson bateu um papo exclusivo sobre Brasília 18% com o Cineclick. Confira.

Os atores de Brasília 18% costumam deixar claro em entrevistas sua generosidade na direção. Como você vê seu relacionamento com eles?
Cada ator tem seu tipo de formação, eu respeito os métodos de cada um. Dou explicações básicas sobre os personagens presentes no roteiro e cada um cria o seu, com total liberdade de criação. Fico ali fora apenas para dizer se é muito ou pouco. Procuro filmar bem, eles me dão o que é mais importante no cinema: o ser humano vivenciando o personagem, o acontecimento. Isso é o mais difícil porque mexe com o próprio ser, o corpo, a cabeça, o sentimento. Sempre prometo que filmarei isso o melhor possível.

A Karine Machado é estreante no cinema, mas seu papel é protagonista no filme. O senhor não ficou com medo de dar esse papel tão importante para ela por conta dessa inexperiência? O que ela tinha de Eugênia?
Achei que ela tinha mais condições para interpretar o personagem.

O senhor entrevistou muita gente?
Bastante. E a Karine foi perfeita. Na minha vida profissional, nunca tive problemas de usar atores não-profissionais, desde o primeiro filme (Rio 40 Graus) tenho muita tranqüilidade em relação a isso. No final sempre dá certo.

O senhor é um dos cineastas mais experientes que ainda estão na ativa dentro do cinema brasileiro. Como o senhor vê o cinema brasileiro hoje em comparação ao que era feito no começo de sua carreira?
Hoje as coisas estão muito melhores. Tem mais gente fazendo cinema, fazendo muito bem. Há muitos talentos e mais recursos, embora não sejam suficientes para tantos projetos. Hoje, o cinema brasileiro tem um momento de grande vitalidade, há produções em quase todas as partes do Brasil, de Pernambuco ao Rio Grande do Sul, passando por Brasília, Bahia, Minas Gerais... Existe um cinema bastante plural e representativo.

Brasília 18% foi exibido em Brasília em uma pré-estréia. Como foi a reação dos espectadores de lá?
Foi boa. Houve muita discussão, mas nada especial aconteceu. Na verdade, deve ter havido, mas ficarei sabendo daqui a pouco (risos). Na hora foi tranqüilo.

Rio 40 Graus foi um divisor de águas dentro do cinema brasileiro. O senhor apontaria alguma obra que, atualmente, também seja um divisor na produção nacional?
Tem tanta coisa acontecendo... Rio 40 Graus foi um divisor de águas porque, naquele tempo, fazia-se cinco filmes por ano; hoje se faz 40, 50, então é mais difícil apontar algo. Mas o que eu posso ver eu vejo de cinema brasileiro e acho que é uma produção valiosa. Você viu Cinema, Aspirinas e Urubus?

Sim...
É muito bonito, né?

Nossa, é demais. Esse é um dos seus filmes favoritos hoje em dia?
Pode se dizer que sim, é um dos filmes dos novos diretores brasileiros que gostei.

O senhor já tem novos projetos?
Vou fazer um documentário sobre Tom Jobim, um retrato afetivo e, depois, a apresentação da obra do compositor. Começo a rodar no fim do ano, assim que terminar as obrigações com este filme.