O Segredo dos Diamantes: Helvécio Ratton fala sobre carreira, influências e a dificuldade de produzir longas de aventura no Brasil

Longa estreia hoje nos cinemas pelo país

18/12/2014 12h03

Por Iara Vasconcelos

Com críticas positivas da imprensa e exibição na Mostra Internacional de Cinema, O Segredo Dos Diamantes é considerado uma grata surpresa em meio à tantos genéricos de aventura americanos que enchem as salas de cinema atualmente.

Sem medo de arriscar Helvecio Ratton mostra que, apesar do gênero não possuir tradição no país, é possível criar um longa nacional com elementos de ação e emoção, sem deixar de lado o "jeito brasileiro de ser" e abraçar elementos da nossa cultura. 

Pensando bem, o resultado não poderia ser diferente. Ratton sempre se mostrou um cineasta versátil ao abordar assuntos pesados da nossa história, como em Batismo De Sangue, que aborda as atrocidades cometidas na ditadura, e no documentário Em Nome da Razão, que mostra o Higienismo Social que ocorreu contra os pacientes do Hospital Colônia de Barbacena.

Aliás, essa não é a primeira vez que ele volta seu olhar ao público infanto-juvenil. Já em 1995 ele dirigiu Menino Maluquinho: O Filme, baseado no livro do cartunista Ziraldo. Mas em O Segredo Dos Diamantes, ele parece lançar um olhar mais sério em contraposição com o tom lúdico.

O Cineclick bateu um papo com o diretor sobre as dificuldades de se produzir aventura no Brasil, suas inspirações para o novo longa e sua trajetória no cinema. Confira:

É bastante evidente a falta de tradição do cinema brasileiro em produções do gênero aventura, principalmente aventura voltadapara o público infanto-juvenil. O que o levou a embarcar na produção de um filme do tipo?

Quando chega a hora do lançamento é que percebo a ousadia que é fazer uma aventura infanto-juvenil no Brasil. Eu embarquei nessa aventura porque curti muito esse tipo de histórias na infância e adolescência. Devorei os clássicos da literatura sobre tesouros e piratas, histórias em quadrinhos, Tio Patinhas, por exemplo, e ouvi muitas histórias sobre tesouros escondidos em Minas. Filmes infanto-juvenis são a galinha dos ovos de ouro do cinema americano, mas os filmes feitos aqui dirigidos a esse público são considerados filmes menores. Fico na dúvida se este pensamento vem de setores comprometidos com essa ocupação do mercado pelos filmes norte-americanos ou se é burrice mesmo.

Por falar em público infanto-juvenil, você já dirigiu O Menino Maluquinho, baseado no clássico do Ziraldo, mas também tem experiência com produções mais sérias, como O Batismo de sangue. Como é transitar por esses dois mundos tão diferentes?

Pra mim é algo natural. Gosto de gêneros variados no cinema, gosto de dramas, aventuras, documentários, animação... O que me excita é poder transitar por territórios diferentes, experimentar outros formatos. Meu próximo trabalho será um documentário, "Holocausto Brasileiro", sobre o hospício de Barbacena. Depois desse documentário, quero muito entrar no território do fantástico, que tem me atraido muito. Sou um cineasta de gostos ecléticos e meu cinema expressa isso.

O livro A Divina Comédia tem um papel bastante importante na trama de O Segredo dos Diamantes. Existe um motivo especial pelo qual essa obra, em específico, foi utilizada?

Adoro A Divina Comédia, especialmente a edição ilustrada por Dorée, como a que usamos no filme. Além de ser um clássico universal, A Divina Comédia está dividida em três livros, e isso nos ajudou a criar o enigma do filme. Produzimos os três livros que aparecem em O Segredo dos Diamantes a partir de uma bela edição que conseguimos encontrar.

O protagonista passa por um drama durante todo o filme. Sua decisão de abordar esse tema mais forte foi intencional para atrair um público mais velho? Ou era importante demais para o crescimento do personagem e não podia ser aliviada?

Não tive essa intenção. Acho que os desafios que a vida nos coloca, e que acontecem a todo momento, são enfrentados de forma diferente pelas pessoas. E o garoto protagonista do filme enfrenta muito bem o drama vivido pelo pai, ele se enche de coragem e parte atrás do tesouro como uma possibilidade concreta de salvar sua vida. Esses desafios é que nos fazem crescer, na vida real e no cinema.

Aliás, o que também chama bastante atenção no longa é a atuação dos atores "Mirins". Como foi a escolha do trio protagonista?

Fizemos mais de 600 testes para encontrar os três garotos encantadores do filme, Mateus Abreu, Alberto Gouvea e Rachel Pimentel. Para descobrir diamantes é preciso procurar bastante... Os meninos são realmente muito bons, tanto que bastou uma exibição pública de O Segredo dos Diamantes no Festival de Gramado, onde o filme foi escolhido pelo público como Melhor Filme, para o protagonista do filme ser contratado pela Globo.  Minha preferência é encontrar garotos que nunca trabalharam no cinema ou na TV, prefiro que eles entrem nesse mundo através do meu filme.

A trama de seu longa lembra as aventuras vividas pelos personagens de Os Goonies. Pode-se dizer que você se inspirou um pouco nesse filme? Me fala um pouco de suas outras inspirações.

O que meu filme tem de semelhante com Os Goonies é que são garotos atrás de um tesouro, todo o resto é muito diferente. Minha inspiração, além das históras que li, está também nas histórias que ouvi, desde pequeno, sobre tesouros escondidos aqui em Minas. Principalmente de um italiano que viveu em Diamantina, Angelo Dettori, e que trabalhou em meu filme A Dança dos Bonecos. Seu Angelo procurou um tesouro de diamantes durante 30 anos e sua bela história foi uma fonte de inspiração. Em sua homenagem, chamei de Angelo o protagonista de meu filme.

O Segredo Dos Diamantes estreia hoje nos cinemas.

+ Confira nossa crítica do novo longa de Helvécio Ratton